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Elas ganham menos, enfrentam jornadas duplas e, ainda assim, pagam mais caro por produtos praticamente idênticos; a conta de ser mulher no Brasil começa nas prateleiras

Ser mulher ainda custa mais caro e não apenas no sentido financeiro. A diferença aparece no salário, nas prateleiras do mercado, nos gastos com aparência e até no peso invisível das responsabilidades do dia a dia. Mesmo com avanços importantes nas últimas décadas, muitas dessas desigualdades continuam presentes na rotina feminina.

No mercado de trabalho, por exemplo, os números ainda revelam um cenário desigual. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do ano de 2022 mostram que as mulheres recebem, em média, cerca de 78% do rendimento dos homens. Ou seja, mesmo ocupando funções semelhantes, elas ainda ganham menos.

Mas a desigualdade não termina no contracheque. Ela também aparece no momento de consumir.

A diferença que começa nas prateleiras

Quem já comparou produtos masculinos e femininos nas prateleiras do mercado talvez tenha percebido: muitas vezes, itens voltados às mulheres custam mais caro, mesmo quando são praticamente iguais.

Essa prática ficou conhecida como pink tax, ou “taxa rosa”. O termo descreve uma estratégia de mercado em que produtos direcionados ao público feminino são vendidos por preços maiores, muitas vezes com diferenças mínimas na composição ou na funcionalidade.

Pesquisas apontam que essa diferença pode surgir apenas por detalhes na embalagem, na fragrância ou até na cor do produto.

Um levantamento da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)de 2017 identificou que mulheres pagam, em média, 12,3% a mais por produtos idênticos aos destinados aos homens. Em alguns casos, a discrepância é ainda mais evidente: kits de lâminas de barbear femininos, por exemplo, chegaram a ser 100% mais caros que versões masculinas.

A desigualdade aparece desde cedo. Roupas de bebê destinadas a meninas podem custar 23% a mais do que as voltadas a meninos, enquanto brinquedos direcionados ao público feminino chegam a ter preços 26% maiores.

A mentora financeira Michelle Maciel afirma que essa diferença é perceptível no cotidiano. “Produtos femininos são em média 7% mais caros que os masculinos. Quando falamos de cosméticos (shampoo, condicionador) chega a 13%, isso sem falar no mercado de roupas e sapatos que beiram a 15% mais caros. Essa taxa é real, basta nos atentarmos aos valores das prateleiras de mercado por exemplo, que conseguimos ver essa diferença gritante”.

Beleza, consumo e expectativa social

Mas o custo de ser mulher não se resume ao preço dos produtos. Há também uma expectativa social constante relacionada à aparência.

Cuidar do cabelo, fazer as unhas, manter a pele tratada, comprar roupas e acompanhar tendências de beleza fazem parte da rotina de muitas mulheres. Embora essas escolhas possam representar autocuidado e autoestima, também refletem uma pressão social que influencia diretamente o comportamento de consumo.

Michelle Maciel observa que esses gastos, quando não são planejados, podem comprometer o orçamento. “Todos os gastos recorrentes precisam de maior atenção. Os procedimentos estéticos estão cada vez mais eficientes e fazendo parte da vida das brasileiras. Isso por um lado é muito bom, mas essa área é uma das principais ‘vilãs’ no descontrole financeiro feminino, perdendo apenas para roupas e sapatos”.

Ela explica que muitas vezes um procedimento acaba levando a outro. “Quem faz botox por exemplo, normalmente acaba cedendo para outros procedimentos mesmo não podendo financeiramente, parcelando no cartão como se não houvessem outros gastos mensais”.

Para a mentora, é impossível ignorar o impacto das expectativas sociais sobre o consumo feminino. “Mulheres gastam mais e a sociedade exige isso de nós. Além do pink tax, temos gastos muito maiores do que o homem como unha, cabelo, sobrancelhas, até roupas, sapatos e procedimentos estéticos”.

Segundo ela, a chave está em entender prioridades. “Entendendo as suas prioridades. Não se trata de não gastar com isso ou aquilo, o problema vem quando você perde a mão nos valores gastos com a sua prioridade ou pior, gasta com absolutamente tudo sem nem entender o nível de importância daquilo na sua vida”.

A sobrecarga que ninguém vê

Além do impacto financeiro, muitas mulheres carregam outro tipo de peso: a chamada carga mental invisível.

Esse conceito se refere ao trabalho constante de organizar a rotina da casa e da família, lembrar compromissos, planejar tarefas, antecipar necessidades e cuidar do bem-estar emocional das pessoas ao redor.

A psicóloga clínica Leonilda Andressa de Oliveira Gomes explica que essa responsabilidade vai muito além das tarefas domésticas. “Essa carga mental invisível é o trabalho, né? O trabalho de estar sempre planejando, lembrando, organizando tudo e até antecipando algumas necessidades do dia a dia. E não é apenas executar essas tarefas, mas manter tudo funcionando”.

Segundo ela, esse peso recai principalmente sobre as mulheres por razões históricas e culturais. “Porque, historicamente, as mulheres foram socializadas para ocupar esse lugar de cuidadoras. Então, mesmo quando elas trabalham fora, muitas ainda continuam sendo vistas como a responsável pela gestão emocional e esse trabalho doméstico da família”.

Quando tudo pesa ao mesmo tempo

A soma entre trabalho profissional, responsabilidades domésticas, expectativas sociais e pressão estética pode gerar um desgaste profundo. “Quando tudo isso aqui se soma, trabalho profissional, responsabilidades domésticas e cobranças sociais, muitas mulheres passam a viver em um estado contínuo de exaustão”, explica a psicóloga.

Com o tempo, essa sobrecarga pode provocar consequências importantes. “Com o tempo essa sobrecarga pode contribuir com o estresse crônico, o esgotamento emocional e até quadros de burnout, porque é muita demanda para a pessoa se responsabilizar”.

Outro sentimento bastante comum é a culpa. “Muitas mulheres cresceram ouvindo que precisam ser boas profissionais, boas mães, boas parceiras, boas filhas e ainda assim cuidar da aparência”.

Quando esse ideal não é alcançado, muitas passam a acreditar que falharam, mesmo que a expectativa seja irreal. “Essa culpa muitas vezes não nasce de uma falha delas não conseguirem ser ou corresponder a essa expectativa. Ela nasce de um padrão social que é imposto”.

O preço que não aparece na etiqueta

Entre salários menores, produtos mais caros e uma rotina carregada de responsabilidades, o chamado “custo de ser mulher” ultrapassa o valor pago no caixa.

Ele aparece no tempo que falta, no cansaço acumulado e na pressão constante para dar conta de tudo ao mesmo tempo.

Enquanto essas diferenças persistirem, discutir igualdade de gênero não será apenas uma questão de direitos, mas também de qualidade de vida.

Foto: Freepik

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