Se você está preparado para curtir o feriado prolongado, talvez se pergunte: por que essa data é tão importante a ponto de parar o país inteiro? A resposta está em um nome que você provavelmente já ouviu falar: Tiradentes. A data homenageia um dos principais nomes da Inconfidência Mineira, movimento que contestou o domínio de Portugal sobre o Brasil no final do século XVIII.
Para entender melhor esse contexto, a historiadora do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, Madalena Mereb Greco, explica que o movimento precisa ser analisado dentro de um cenário mais amplo. “A gente tem que fazer uma análise do que estava acontecendo no mundo e que de certa forma interfere dentro desse processo”, afirma.
Tiradentes é o apelido de Joaquim José da Silva Xavier, militar e dentista amador que atuou no interior de Minas Gerais. Nascido em 1746, ele serviu como “alferes” (cargo que na época era equivalente a tenente) e foi responsável pela segurança do Caminho Novo, rota que ligava Vila Rica (atual Ouro Preto) ao Rio de Janeiro.
Segundo a historiadora, sua atuação como dentista também contribuiu para sua influência política. “Esses serviços eram feitos em praças, eram feitos em tabernas, eram feitos em residências, e era justamente aí onde ele também difundia demais as suas ideias libertárias”, explica.
Por mais de uma década, Tiradentes se manteve na mesma posição, sem promoções, e ainda acabou destituído do seu comando, o que aumentou seu descontentamento com as autoridades portuguesas. A partir daí, passou a defender publicamente a independência do Brasil, sendo influenciado pelas ideias iluministas que ganhavam força na Europa e já haviam inspirado movimentos como a Revolução Americana.
De acordo com Madalena, essas ideias também chegavam ao Brasil por meio da elite que estudava no exterior. “Eles iam para Portugal, eles iam para Paris e aí eles tinham acesso àqueles panfletos, a livros libertários”, diz.
Foi nesse contexto que Tiradentes se envolveu e planejou o movimento que ficou conhecido como Inconfidência Mineira. Um movimento de caráter separatista articulado por membros da elite da Capitania de Minas Gerais. Entre os principais motivos da revolta estavam os altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa, especialmente a chamada derrama, que impunha cobranças pesadas mesmo com a queda na produção de ouro.
A historiadora detalha o impacto dessa cobrança. “A derrama era invadir as casas e obter tudo que tivesse de ouro, joias, utensílios até conseguir alcançar o volume que eles exigiam”, afirma, ressaltando que a ameaça gerava forte revolta na população.
A Inconfidência planejava proclamar uma república independente e eliminar o então governador, o Visconde de Barbacena. Tiradentes era uma peça-chave na conspiração: como tinha boa oratória e viajava com frequência, atuava como propagandista, divulgando os ideais revolucionários por onde passava.
Apesar disso, Madalena faz uma ressalva importante sobre os objetivos do movimento. “Eles nunca, em nenhum momento, falaram sobre a independência do Brasil, eles queriam a independência de Minas Gerais”, explica.
O movimento, no entanto, foi denunciado às autoridades coloniais antes de sair do papel, em 1789, por um dos conspiradores, Joaquim Silvério dos Reis, em troca do perdão de suas dívidas. Tiradentes, que estava no Rio de Janeiro no momento da prisão, foi capturado e passou três anos detido enquanto era investigado.
Em 1792, ele foi o único entre os inconfidentes condenado à morte. Foi enforcado no dia 21 de abril daquele ano, no Rio de Janeiro, e teve seu corpo esquartejado, como forma de intimidação à população. Os demais envolvidos foram enviados ao exílio ou receberam penas mais brandas.
Segundo a historiadora, a condenação exclusiva de Tiradentes tem explicações jurídicas e políticas. “Havia uma resolução de Dona Maria Piedosa proibindo a pena capital, mas como no caso dele havia muitos agravantes, ele foi condenado”, afirma. Ela acrescenta ainda que “ele sempre pregou o uso de armas para consolidar essa revolta, aí já foi demais [para o governo]”.
Durante o período imperial, a figura de Tiradentes foi praticamente esquecida. Seu resgate como herói nacional ocorreu após a Proclamação da República, em 1889, quando os líderes republicanos buscavam símbolos de ruptura com a monarquia.
Para Madalena, essa construção teve caráter estratégico. “A figura dele foi usada sendo um republicano”, explica. Segundo ela, a imagem do alferes foi moldada ao longo do tempo. “A gente pode até chamar isso de um marketing visual muito bem sucedido”.
Em janeiro de 1890, por meio do Decreto nº 155-B, o dia 21 de abril passou a ser feriado nacional.
A historiadora avalia que essa construção simbólica atende a uma necessidade social. “Nós sempre estamos buscando mitos e os mitos geralmente são criados”, afirma.
A construção simbólica de Tiradentes como mártir da liberdade foi uma escolha política. Em 1965, ele foi incluído no Livro dos Heróis da Pátria e reconhecido como patrono cívico do Brasil. A legislação mais recente sobre o feriado está na Lei nº 10.607/2002, que confirma a data como uma das mais importantes do calendário nacional.
Desde então, 21 de abril é considerado feriado nacional, como forma de homenagear aquele que deu a vida por ideais de independência, ainda que décadas antes do Brasil se libertar oficialmente de Portugal, em 1822.
Foto: Tiradentes em pintura feita em 1940 por José Wasth Rodrigues – Reprodução/CNN





















