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Durante muito tempo, me peguei tratando a sustentabilidade como um compromisso de “amanhã”. Estava ali, nos discursos bonitos, nos planos para daqui a vinte anos e em metas que, sejamos honestos, a gente sempre empurrava com a barriga. Parecia um horizonte distante, um desejo nobre que cabia bem no papel, mas que não precisava necessariamente mudar a forma como decidimos as coisas aqui e agora. Só que, de uns tempos para cá, percebi que essa zona de conforto acabou. A sustentabilidade deixou de ser o futuro para virar o nosso presente mais imediato.

Hoje, não se trata mais de intenção, mas de viabilidade real. Quando olho para o mercado, percebo que o dinheiro, literalmente, mudou de lado. Não é mais sobre “querer ser verde”, é sobre o custo de capital. Consultorias como a McKinsey já não escondem: empresas que ignoram critérios ESG, o tripé ambiental, social e de governança, estão ficando caras demais para o mercado. Os grandes fundos globais, que movem trilhões de dólares, estão excluindo de seus portfólios quem não prova, na prática, que sua cadeia produtiva é limpa. Se você não é sustentável hoje, você é visto como um risco financeiro alto. E ninguém quer apostar em risco sem necessidade.

Essa mudança me fascina porque ela tira o debate da abstração. A sustentabilidade agora é técnica, é auditoria, é regulação. Veja o caso das novas exigências da União Europeia, que batem à porta dos nossos exportadores: não adianta mais o discurso genérico, agora é preciso entregar transparência absoluta e dados auditáveis. E é aqui que a coisa fica séria. Porque decidir dessa forma dói um pouco, sim. Exige ajustes em processos, exige reorganizar cadeias que pareciam imutáveis e, claro, exige lidar com o custo dessa transformação. Não é barato e, muitas vezes, não é simples.

O que eu vejo, no fundo, é que estamos vivendo um deslocamento necessário. A sustentabilidade saiu do campo das relações públicas e invadiu a mesa de reuniões. Ela deixou de ser um adjetivo na missão da empresa para virar um método de decisão. Quando alguém toma uma decisão hoje, seja no governo ou na iniciativa privada, ignorar o impacto ambiental não é apenas uma falha ética; é um erro de cálculo grosseiro, como tentar dirigir olhando apenas pelo retrovisor.

No fim, acho que esse é o ponto onde se mede o verdadeiro alcance das transformações que estamos vivendo. A sustentabilidade não é mais o objetivo final; é o filtro pelo qual tudo precisa passar. Estamos, finalmente, parando de prometer o futuro e começando a construir, na marra, o hoje. E talvez seja justamente nessa “conta que precisa fechar” que a gente encontre, enfim, o caminho para uma mudança que não seja apenas discurso, mas transformação real.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Veridyana Fantinato

Veridyana Fantinato

Advogada e contadora, mestranda em Direito Público pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e MBA em Agronegócio pela USP/Esalq. Possui especialização em Direito Público, Licitações e Contratos Administrativos e mais de 20 anos de experiência na área pública. Dedica-se ao estudo da sustentabilidade, da governança e das políticas públicas. | @veridyanafantinato

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