Medicamentos como Ozempic e Mounjaro reduzem o apetite e aceleram a perda de peso, mas especialista alerta para riscos metabólicos, emocionais e para o efeito rebote sem acompanhamento profissional
Aplicações semanais, promessas de redução do apetite e relatos de perda de peso em poucas semanas transformaram as chamadas canetas emagrecedoras em um dos assuntos mais comentados sobre saúde no Brasil. A popularidade de medicamentos como Mounjaro e Ozempic se espalhou para além dos consultórios médicos e passou a atingir pessoas sem diagnóstico de obesidade, impulsionada pelas redes sociais e pela facilidade de acesso a informações, nem sempre confiáveis.
O crescimento do interesse no país acompanha uma combinação de fatores que vão além da obesidade e do tratamento de doenças metabólicas. Levantamento da plataforma Conexa Saúde, com base em dados do Google, mostra que o Brasil foi o segundo que mais pesquisou por Mounjaro e Ozempic no mundo em 2025, atrás apenas dos Estados Unidos. Nos últimos meses, dados do Google Trends indicam que as buscas por Mounjaro chegaram a se equiparar ao termo “dieta”, com destaque para pesquisas relacionadas a preço e segurança do medicamento.
Para o nutricionista Patrick Miranda, a procura pelas canetas emagrecedoras envolve diferentes fatores. O efeito rápido e visível na balança, com redução do apetite, contribui para a popularização, assim como a percepção de “menos sofrimento” por quem acredita já ter tentado de tudo para emagrecer. A pressão estética e social, que ainda valoriza o emagrecimento como objetivo em si, e não como parte de um plano terapêutico, também impulsiona o interesse. Nesse cenário, narrativas de sucesso nas redes sociais e o fácil acesso aos produtos ampliam a demanda, inclusive entre pessoas sem indicação clínica.
Patrick alerta, porém, que o uso é frequentemente banalizado. É comum o consumo sem avaliação adequada de riscos e benefícios, sem diagnóstico ou acompanhamento profissional, e com metas irreais. “Esses fármacos não foram desenhados para “ajustes finos estéticos”, e sim para condições clínicas específicas dentro de um cuidado estruturado. A OMS recomenda seu uso no contexto de programas de cuidado crônico, com monitorização periódica de resposta e eventos adversos.”
Fome, metabolismo e efeito
Inicialmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2, as chamadas canetas emagrecedoras passaram a ser utilizadas também no manejo da obesidade após estudos demonstrarem efeitos sobre a redução do apetite e o controle do peso. Os medicamentos atuam em mecanismos hormonais ligados à saciedade e ao metabolismo da glicose, o que explica sua indicação clínica em casos específicos e sob acompanhamento médico.
Do ponto de vista fisiológico, as canetas atuam ao imitar ou potencializar hormônios intestinais do tipo incretina, o que resulta em menos fome, saciedade mais precoce e menor consumo energético. Em alguns pacientes, também há melhora de marcadores metabólicos. No entanto, o uso sem acompanhamento médico e nutricional traz riscos. Entre os efeitos mais comuns estão náuseas, vômitos, diarreia ou constipação e refluxo, que podem levar à desidratação e ao desequilíbrio de eletrólitos. Há ainda risco de hipoglicemia, especialmente quando o medicamento é usado de forma inadequada junto com insulina ou sulfonilureias.
Outro ponto frequente, segundo o nutricionista, é a perda de massa magra. A diminuição do apetite pode levar a uma ingestão proteica insuficiente, agravada pelo sedentarismo. Também são observados ciclos de restrição e compulsão, em que a fome “anestesiada” dá lugar a uma alimentação caótica, seguida de culpa e mais restrição. Em pessoas sem indicação clínica, Patrick ressalta que o custo tende a superar os possíveis benefícios. “A OMS frisa que a terapia deve estar inserida em cuidado crônico e com monitorização individualizada”, destacou.
Patrick explica que a perda de peso associada ao uso das canetas costuma ser uma combinação de água, gordura e massa magra. No início, é comum a redução de água e glicogênio, especialmente quando há diminuição do consumo de carboidratos. Ao longo das semanas, a maior parte tende a ser gordura, mas sempre existe algum grau de perda muscular, que se intensifica quando a ingestão de proteínas é baixa, não há atividade física, a perda é muito rápida ou a pessoa “pula refeições” por náusea ou medo de comer. “A diferença entre um bom e um mau resultado, é quando há um plano terapêutico presente, individualizado e bem estruturado alinhado com o paciente”, ressaltou.

Perda de massa magra, efeito sanfona e impacto metabólico
O uso inadequado também compromete indiretamente o metabolismo a longo prazo, principalmente pela redução de massa magra, que diminui o gasto energético de repouso, e por dietas muito restritivas e irregulares, que favorecem o efeito sanfona e pioram a relação com a comida. O nutricionista compara o processo à falta de planejamento em um trajeto: sem rota definida, os riscos aumentam. “No final das contas, a implementação de hábitos saudáveis, não só alimentação e exercício físico, trazem diversos benefícios durante e após o processo de emagrecimento, não só de manutenção de peso, mas da saúde global”
Esse conjunto de fatores contribui para a ocorrência do chamado efeito rebote. Ao interromper o tratamento, o apetite tende a se normalizar, e a pessoa perde o “freio biológico” que ajudava a comer menos. Sem mudanças na rotina alimentar, no sono, na prática de atividade física e no comportamento, parte do peso perdido costuma ser recuperada. Entre os erros alimentares mais observados pelo nutricionista estão a falta de planejamento, ingestão baixa e irregular de alimentos pobres em proteínas e micronutrientes, baixo consumo de fibras e água, além de refeições grandes e gordurosas para “compensar”, o que piora os sintomas como náuseas e refluxo.
Patrick também comenta que a redução do apetite pode levar a deficiências nutricionais, sobretudo quando há corte abrupto de grupos alimentares ou substituição de refeições por “beliscos” pobres em nutrientes.
Entre os cuidados essenciais durante o uso do medicamento estão:
- Fracionamento de proteína em todas as refeições;
- Adequação no consumo de fibras e água;
- Ajuste dos micronutrientes;
- Estratégias anti-náusea: refeições menores, mastigação lenta, gorduras ajustadas, horários consistentes;
- Prática de atividade para preservar a massa magra.
Além dos impactos nutricionais, o uso do medicamento pode trazer consequências que extrapolam o aspecto físico. O nutricionista chama atenção para os efeitos emocionais e psicológicos envolvidos. As canetas podem atuar como uma “pista ambiental”, funcionando como gatilho comportamental: “se eu aplicar, eu consigo comer pouco; se eu não aplicar, vou perder o controle”. Ele explica que essa lógica pode favorecer a dependência psicológica, sobretudo quando o tratamento é apresentado como “cura”, sem acompanhamento comportamental, ou em pessoas com histórico de compulsão alimentar, dietas restritivas e ansiedade em relação à comida. Entre os efeitos emocionais observados estão alívio inicial, ansiedade por desempenho, reforço do perfeccionismo corporal e, em alguns casos, piora do comportamento alimentar.
Na avaliação do nutricionista, as redes sociais contribuem para esse contexto. As plataformas costumam simplificar excessivamente imagens de antes e depois, sem apresentar o contexto clínico, além de normalizar a automedicação e estimular uma sensação de urgência. Patrick afirma que “as redes sociais são máquinas de fazer dinheiro para que se possa vender um produto, independente de qual seja; com as canetas, não seria diferente”. Com frequência também deixam de mencionar informações relevantes, como tempo de uso, custo do tratamento, possibilidade de reganho de peso, efeitos adversos e a necessidade de acompanhamento contínuo.
Diante desse quadro, o acompanhamento profissional ganha ainda mais importância. No caso de pessoas que utilizam as canetas, o papel do nutricionista é considerado indispensável. Patrick defende que o acompanhamento comece antes mesmo do início da terapia farmacológica, para alinhar expectativas, explicar o funcionamento do medicamento e reduzir riscos. “Um bom profissional entra para garantir que a perda de peso seja segura, sustentável e com preservação de função, tratando não só a parte nutricional do paciente, mas também a saúde global do indivíduo”, afirma.
Para quem busca um emagrecimento sustentável, o nutricionista reforça que não há solução isolada. O processo envolve a combinação de déficit calórico moderado, alimentação com maior saciedade, prática de exercícios de força e aeróbicos, sono adequado, manejo do estresse, terapia comportamental e organização do ambiente alimentar.
Nesse contexto, ele destaca que “as canetas têm o poder de emagrecer devido a alguns motivos, como já foi explicado anteriormente, porém todo e qualquer tratamento de emagrecimento saudável e sustentável só se dá a partir do momento em que o indivíduo muda seus hábitos de vida”. O especialista avalia que, embora a perda de peso possa ocorrer de forma rápida, especialmente sem acompanhamento adequado, a ausência de mudanças consistentes no estilo de vida tende a comprometer a manutenção dos resultados ao longo do tempo e, em alguns casos, pode levar a piora da saúde global e da relação com a comida em comparação ao início do tratamento.
*Imagens: Agência Brasil e Governo de Mato Grosso do Sul



















