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A tensão entre a Meta e o governo brasileiro expõe um dilema central do nosso tempo: até que ponto o livre mercado pode operar sem se confundir com concentração excessiva de poder? E, no campo da comunicação, essa pergunta ganha contornos ainda mais sensíveis.

Vamos lá!

O discurso da inovação costuma vir acompanhado da ideia de liberdade para criar, competir e escalar. O problema surge quando essa liberdade passa a operar em um ambiente no qual poucos controlam os canais, as regras e as tecnologias que estruturam o fluxo de informação. Nesse cenário, o livre mercado deixa de ser plural e começa a se aproximar de um monopólio funcional.

No Brasil, o WhatsApp é um meio central de comunicação social. Empresas atendem clientes por ali, governos se comunicam com cidadãos, jornalistas recebem pautas, crises ganham corpo e narrativas se espalham. Quando uma única empresa decide, de forma unilateral, quais tecnologias podem ou não operar dentro desse ambiente, o impacto vai além da concorrência: afeta diretamente o ecossistema comunicacional do país.

Defender o livre mercado não significa defender a ausência de limites. Ao contrário. Mercados só funcionam de forma saudável quando há regras claras, concorrência real e responsabilidade proporcional ao poder exercido.

Quando uma plataforma concentra usuários, dados, infraestrutura e inteligência artificial, a fronteira entre inovação e dominação se torna tênue.

A reação do governo, por meio de órgãos reguladores, não deve ser lida como hostilidade à tecnologia ou à iniciativa privada. Trata-se, antes, de um esforço para preservar equilíbrio. Em um ambiente comunicacional tão sensível quanto o brasileiro, permitir que uma única empresa defina sozinha os contornos da inteligência artificial aplicada à comunicação é aceitar um risco estrutural.

Há também um aspecto simbólico pouco discutido. Ao priorizar suas próprias soluções e restringir concorrentes, uma Big Tech influencia padrões de linguagem, formatos de interação e até expectativas sociais sobre como a comunicação deve acontecer. Isso molda comportamentos, práticas profissionais e relações institucionais.

Para os profissionais da comunicação, essa disputa acende um sinal de alerta. Dependência excessiva de uma única plataforma reduz autonomia estratégica, limita escolhas tecnológicas e enfraquece a capacidade de adaptação. Em um ambiente verdadeiramente competitivo, comunicadores podem escolher ferramentas, testar abordagens e construir soluções alinhadas às suas realidades. Em um ambiente concentrado, resta apenas se adaptar às regras impostas.

O debate, portanto, não é Meta versus governo. É concentração versus pluralidade. É poder sem contrapesos versus responsabilidade. O livre mercado continua sendo um valor central, mas ele só cumpre sua função social quando impede abusos, não quando os legitima.

Se essa disputa for bem conduzida, pode marcar um ponto de inflexão na comunicação brasileira: menos dependência, mais diversidade, mais espaço para inovação real. Caso contrário, corremos o risco de normalizar um modelo em que comunicar-se é um privilégio mediado por poucos.

No meu ponto de vista isso, definitivamente, não é liberdade.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Gustavo Vicente

Gustavo Vicente

Atua há mais de 13 anos com Comunicação Institucional e Reputação. Jornalista, escreve sobre o impacto real da Inteligência Artificial na comunicação, na tomada de decisão e na gestão de crises. Defende o uso da tecnologia com método, responsabilidade e critério institucional. | @gustavo.nv

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