Produzido de forma independente no quintal de casa e a partir de um gesto íntimo entre duas irmãs, o curta-metragem Não Lugar, da diretora sul-mato-grossense Gabriela Dias, foi selecionado para a MIDC (Mostra Internacional de Cinema da Galeria SPT), na Espanha. O filme, no entanto, ainda não teve nenhuma exibição em Mato Grosso do Sul.
A obra nasceu de uma carta escrita por Gabriela durante um período de depressão profunda. A escrita, inicialmente, funcionou como tentativa de compreender a própria história em um momento de ruptura pessoal. A partir daí, o texto se transformou em um curta-documentário que investiga identidade, pertencimento e sobrevivência.
Durante o processo, a irmã mais nova da diretora, Valentina, então com 9 anos, pediu para participar das filmagens. A presença da criança alterou o percurso do projeto. O que seria um movimento de encerramento passou a ser, segundo a diretora, um reencontro. O filme se constrói entre imagens, vozes, memórias e trechos de conversas em terapia, adotando o que Gabriela chama de “escritavência”, escrever para permanecer.
Selecionado para uma mostra internacional antes de circular localmente, Não Lugar expõe uma contradição recorrente no audiovisual regional: obras que ganham visibilidade fora do território, mas enfrentam dificuldade de acesso aos próprios espaços de exibição.
“Mesmo tendo inscrito este filme em várias mostras do meu território, ele nunca passou, e eu não tive a oportunidade de contar a minha história aqui”, afirma Gabriela. “Graças à força das minhas irmãs e da minha amiga e companheira de roteiro, Sarah Muricy, eu continuo me escrevendo. Esse foi o primeiro ‘sim’ não só para a carta fílmica, mas para a minha reexistência pela arte”.
A diretora também destaca o impacto social da produção cultural regional. “Sou a primeira pessoa da minha família a entrar na faculdade. Minha mãe é faxineira, meu pai é pedreiro. Eu nunca imaginei que poderia chegar tão longe. Por isso, acredito que governos e entidades culturais precisam estar comprometidos com produções locais, porque o cinema precisa, antes de tudo, ser visto pela própria comunidade para ganhar força e circular em outros territórios”, diz.
Realizado sem grandes estruturas, o curta transforma o espaço doméstico em cenário de memória, cuidado e criação. A casa vira território simbólico, onde o gesto de filmar se confunde com o de existir.
Após a experiência com Não Lugar, Gabriela passou a ampliar o olhar sobre outras histórias do Estado. A diretora desenvolve atualmente um novo documentário que reúne trajetórias de quatro mulheres de Mato Grosso do Sul, conectadas por vivências de pertencimento, identidade e reinvenção.
O projeto foi viabilizado por meio de edital da PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) e está em fase final de produção, com lançamento previsto para março.
Enquanto isso, Não Lugar segue cruzando fronteiras antes de chegar oficialmente ao próprio território onde nasceu.




















