O alarme toca mais cedo, o uniforme volta para o guarda-roupa e o tempo diante das telas começa a ser limitado. Depois de semanas de férias, com dias mais livres, horários flexíveis e menos regras, a volta às aulas representa uma virada brusca na rotina das crianças, e também no emocional. Para muitas famílias, esse retorno não acontece sem conflitos, resistência e mudanças de comportamento.
Segundo a psicopedagoga Carla Pacheco, o período de férias de verão costuma ser marcado por mais liberdade e relaxamento, tanto para as crianças quanto para os adultos. “É claro que as mudanças comportamentais influenciam nas emocionais. A criança fica mais solta, extrovertida e sem a rotina que ela mantinha durante todo o ano.” Nesse cenário, o aumento do tempo em frente às telas se torna comum, o que tende a intensificar os desafios no retorno à rotina escolar.
No Brasil, o uso de dispositivos digitais começa cada vez mais cedo. De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, quase 93% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos acessam a internet regularmente. Já dados do estudo Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), mostram que 44% dos bebês de até 2 anos e 71% das crianças de 3 a 5 anos já têm acesso à internet. Pesquisas reunidas pelo NCPI e pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) associam o uso excessivo de telas a prejuízos no sono, na atenção e no desenvolvimento infantil.
Diante desse cenário, Carla Pacheco reforça as orientações de entidades de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria não recomendam o uso de telas para crianças menores de 2 anos. Entre 2 e 5 anos, o tempo indicado é de até uma hora por dia, sempre com supervisão. A partir dessa idade, mais do que contabilizar o tempo, a psicopedagoga orienta que os pais observem os efeitos do uso no sono, na atenção e na interação social.
A psicopedagoga também explica que, durante as férias, o cérebro da criança passa a se acostumar a estímulos de recompensa imediata, especialmente com o uso frequente de telas. “O cérebro, principalmente o cérebro da criança, vai entender que aquele momento de excesso de tela é um momento em que ele vai ter uma recompensa muito imediata.” Com o retorno às aulas, essa dinâmica muda. “Existe o cérebro tentando se adaptar a essa falta de recompensa imediata. Ele vai ter que ficar mais concentrado, ter mais atenção.”
Esse processo de adaptação pode se manifestar de diferentes formas. “Isso pode causar irritabilidade, que é aquilo que os pais acham que é uma birra, mas não é. Tudo isso acontece nessa adaptação à rotina escolar”, afirma a psicopedagoga.
A especialista destaca que o impacto da transição varia conforme a idade. Crianças menores tendem a ter mais dificuldade para compreender regras e limites, reagindo de forma mais corporal. “As crianças mais novas reagem mais com o corpo, com irritabilidade, choro, birra.” Já as mais velhas costumam reagir de outra forma. “Elas ficam irritadas, fazem questionamentos, por que pode, por que não pode. A criança mais nova vai ter mais dificuldade e vai reagir com o corpo. A criança mais velha vai ter mais questionamentos e vai querer burlar de alguma forma essas novas regras.” Diante dessas diferenças, Carla Pacheco ressalta a importância de oferecer apoio tanto às crianças mais novas quanto às mais velhas, para que ambas consigam atravessar o período de readaptação de forma mais tranquila.
Para reduzir conflitos na volta às aulas, ela orienta que a retomada da rotina aconteça de forma gradual, antes mesmo do início do ano letivo. Ajustar horários de sono, acordar mais cedo e reorganizar refeições ajudam a diminuir o impacto. “Quando a escola ainda não voltou, fica mais fácil da gente ultrapassar esses conflitos”, explica.
Estabelecer uma rotina clara e conversar com a criança sobre o retorno às aulas também é fundamental. Atividades offline ajudam nesse processo. Para crianças menores, a recomendação é investir em brincadeiras, histórias e momentos de imaginação. Já para as mais velhas, jogos de tabuleiro e atividades que estimulem atenção, concentração e controle da impulsividade podem ser aliados.
No início do ano letivo, é comum que haja impacto no aprendizado imediato, especialmente na atenção e na concentração. Por isso, segundo Carla Pacheco, família e escola precisam estar preparadas para esse momento, com expectativas ajustadas e atividades mais interativas nos primeiros dias. “O ideal é que, na escola, os professores tenham essa percepção e comecem com atividades mais interativas. Para que o cérebro possa também receber essa recompensa de prazer.”
Já os pais devem ficar atentos a sinais de sobrecarga emocional, como agressividade, irritabilidade intensa, alterações no sono e na alimentação ou resistência em ir à escola. ”Os sinais são muito claros. Quando a criança menor se joga no chão, quer bater, fica mais agressiva, mais irritada, esse é o sinal da sobrecarga emocional”. A orientação de Carla é que os adultos prestem atenção a esses sinais e acolham as crianças. “O adulto precisa acolher, entender o que a criança está sentindo e estar junto para que isso passe”.
Para a psicopedagoga, a volta às aulas vai além da mudança de rotina. “A volta às aulas não é só uma mudança de rotina, é uma reorganização emocional.” Segundo ela, quando há acolhimento, limites e presença, o processo tende a ser mais tranquilo. “Tela em excesso não cria vínculo, e a criança precisa de vínculo para se desenvolver emocionalmente.” Além disso, Carla ressalta que, quando as crianças se sentem acolhidas, orientadas e seguras para poder errar, elas conseguem desenvolver habilidades socioemocionais, como autocontrole e resiliência.



















