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Leandra Costa

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Esta semana me deparei com um artigo que não falava sobre “palavras em desuso”, mas sobre algo bem mais estrutural: regras, métricas, funções e skills que foram centrais no mundo do trabalho e que hoje já não explicam, sozinhas, como valor é gerado.

Descrição de cargo rígida.
Currículo como principal filtro.
Horas trabalhadas como sinônimo de produtividade.
Lealdade medida por tempo de casa.
Fit cultural como critério absoluto de pertencimento.
Equilíbrio vida-trabalho tratado como uma balança estática.

Nada disso desapareceu. Mas tudo isso está sendo reconfigurado. O motivo é simples e profundo ao mesmo tempo: o contexto mudou mais rápido do que os modelos de gestão, avaliação e pertencimento que usamos para organizar pessoas e projetos.

O trabalho deixou de ser linear. As funções ficaram mais fluidas. Os problemas, mais complexos. E as pessoas, mais híbridas em repertório, expectativas e trajetórias.

O que vemos emergir não é o “fim” dessas regras, mas a perda do seu papel exclusivo. Elas deixam de ser centro e passam a ser camadas dentro de sistemas mais dinâmicos, onde resultado, aprendizagem contínua, capacidade de adaptação e leitura de contexto ganham mais peso do que presença, cargo ou permanência.

Esse é apenas um recorte de um movimento maior. Muitas outras funções, profissões e necessidades também estão perdendo sentido da forma como foram concebidas. E a pergunta que fica não é “o que vai acabar?”, mas o quanto estamos preparados para conviver com a obsolescência como parte natural da evolução.

Obsolescência não é fracasso. É um sinal de transição. Na vida, ela aparece quando um papel já não comporta quem nos tornamos. Nos negócios, quando processos antes eficientes passam a travar decisões. Nos projetos, quando insistimos em formatos que não respondem mais à complexidade do presente.

O desconforto que muita gente sente hoje, esse vazio silencioso, essa sensação de não caber, raramente vem da falta de competência. Ele nasce da dissonância entre quem a pessoa é capaz de ser e o sistema ainda espera que ela seja.

Ler o futuro, neste cenário, não é tentar adivinhar tendências. É desenvolver capacidade de leitura de campo.

É perceber quais regras ainda sustentam valor e quais precisam ser redesenhadas. Quais skills seguem essenciais e quais precisam evoluir. Quais funções ainda organizam e quais apenas dão a ilusão de controle.

No cotidiano, isso se traduz em escolhas muito práticas:
• menos apego a rótulos e mais clareza sobre contribuição real;
• menos foco em ocupação e mais em impacto;
• menos medo da mudança e mais preparo para transições.

O futuro do trabalho não pede pressa. Pede maturidade. Pede consciência. Pede gente capaz de atravessar mudanças sem perder identidade e sem se agarrar a estruturas que já não sustentam o próximo passo.

Não estamos perdendo referências. Estamos atualizando o sistema operacional.

E quem entende isso cedo não fica à margem da mudança. Ajuda a desenhá-la.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Leandra Costa

Leandra Costa

Estrategista em inovação, foresight e desenvolvimento de negócios e territórios. Atua na interseção entre mercado, políticas públicas, liderança feminina e ecossistemas de inovação, apoiando organizações, governos, startups e investidores a transformar visão de futuro em modelos de negócio, projetos e impacto econômico real. | @lecosta_ms

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