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Leandra Costa

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Criatividade costuma ser tratada como algo abstrato, quase intuitivo demais para ser levado a sério nos negócios. Algo difícil de explicar, impossível de prever e, muitas vezes, associado apenas a grandes ideias. Mas será que criatividade é mesmo um lampejo isolado ou ela funciona como uma engrenagem silenciosa dos sistemas que inovam de forma consistente?

Quando observamos organizações que inovam de verdade, percebemos que criatividade raramente aparece como um evento. Ela surge como processo. Está menos ligada ao “e se…” genial e mais à capacidade de observar, conectar sinais, testar hipóteses e ajustar caminhos. É nesse ponto que criatividade deixa de ser discurso inspiracional e passa a operar como ferramenta prática de inovação.

Quantas boas ideias morrem porque não encontram um ambiente que permita experimentação? E quantas inovações relevantes nascem de tentativas pequenas, quase invisíveis, feitas no dia a dia? A dificuldade de explicar criatividade vem exatamente daí: ela não nasce pronta. Ela se constrói no fazer, no teste, no refinamento contínuo.

Em contextos de escassez, de tempo, de recursos ou de margem para erro, esse mecanismo fica ainda mais evidente. Quando o sistema não comporta grandes revoluções, são os ajustes pontuais que geram impacto real. Pequenas mudanças em processos, no atendimento, na experiência do cliente ou na forma de organizar o trabalho podem destravar eficiência, reduzir fricções e abrir novas possibilidades de crescimento.

Não é raro vermos empresas crescerem porque alguém prestou atenção a um detalhe ignorado por todos: uma reclamação recorrente, um comportamento fora do padrão, um incômodo aparentemente irrelevante. Um empresário atento transforma esse detalhe em teste. O teste vira aprendizado. O aprendizado vira diferencial. Negócios não crescem apenas por grandes decisões estratégicas, mas pela soma de microinovações bem orientadas.

Vivemos hoje um cenário de enorme diversidade de perfis, necessidades e nichos de mercado. Nunca tivemos tantas ferramentas disponíveis e, paradoxalmente, nunca usamos tão poucas de forma consistente. Quantos aplicativos estão instalados no celular e quase nunca são abertos? Quantas soluções prometem resolver tudo, mas não se integram à vida real?

Nesse contexto, criatividade não está em criar mais uma oferta. Está em entender profundamente um recorte específico de necessidade e desenhar soluções que façam sentido naquele contexto. Inovação relevante nasce menos da quantidade e mais da precisão. Menos do excesso de possibilidades e mais da clareza de encaixe.

Do ponto de vista técnico, criatividade não é um dom fixo. O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, referência mundial no estudo da criatividade, demonstra que ela emerge da interação entre repertório individual, domínio de conhecimento e contexto social. Em outras palavras: criatividade depende tanto do ambiente quanto das pessoas. Sistemas rígidos produzem soluções previsíveis. Ambientes que estimulam curiosidade, autonomia e aprendizagem contínua ampliam o potencial criativo coletivo.

O que isso significa, na prática, para empresas e projetos? Que criatividade pode, e deve, ser cultivada. Perguntas bem formuladas valem mais do que respostas rápidas. Pequenos testes reduzem o medo do erro. Olhar para o uso real, e não para o uso esperado, revela oportunidades escondidas. Ajustes finos, quando tratados com intencionalidade, geram performance.

Inovar, no fim das contas, não é inventar o novo o tempo todo. É ler melhor o presente, experimentar com consciência e ajustar com inteligência. Criatividade é o motor que permite essa leitura e essa ação. E quando ela é tratada como processo, deixa de ser exceção e ela passa a ser vantagem competitiva.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Leandra Costa

Estrategista em inovação, foresight e desenvolvimento de negócios e territórios. Atua na interseção entre mercado, políticas públicas, liderança feminina e ecossistemas de inovação, apoiando organizações, governos, startups e investidores a transformar visão de futuro em modelos de negócio, projetos e impacto econômico real. | @lecosta_ms

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