Mesmo com vacina disponível e exames capazes de detectar lesões antes que evoluam para câncer, o câncer do colo do útero ainda provoca milhares de mortes todos os anos no Brasil. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o país registra cerca de 17 mil novos casos por ano, o que coloca a doença entre as mais incidentes na população feminina. Dados do Ministério da Saúde apontam que, em 2023, foram contabilizados 7.209 óbitos pela doença, com taxa de mortalidade de 4,79 por 100 mil mulheres. Considerada evitável na maior parte dos casos, ela continua a expor falhas no acesso à informação, ao rastreamento e ao tratamento adequado.
Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma estratégia global para eliminar o câncer do colo do útero até o fim do século. A meta estabelece que 90% das meninas estejam vacinadas contra o HPV até os 15 anos, 70% das mulheres realizem testes de alta performance ao longo da vida e 90% das diagnosticadas recebam tratamento adequado. O Brasil aderiu ao compromisso, mas ainda enfrenta dificuldades para alcançar a cobertura ideal e ampliar o acesso a exames mais sensíveis.
Quase todos os casos estão associados à infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), vírus comum e transmitido principalmente por via sexual. “Na maioria das vezes, o HPV é eliminado naturalmente pelo organismo. O risco surge quando essa infecção persiste ao longo dos anos e provoca alterações nas células do colo do útero, que podem evoluir gradualmente até se tornarem um câncer invasivo”, explica a Dra. Michelle Samora, oncologista do Hcor.
Um dos principais desafios é que a doença costuma evoluir sem sinais evidentes nas fases iniciais. “Esse é um tumor que pode permanecer assintomático por muito tempo. Quando surgem sintomas, como sangramento fora do período menstrual, sangramento após a relação sexual ou corrimento persistente, muitas vezes a doença já está em estágio mais avançado”, afirma. “Por isso, o rastreamento regular é essencial, mesmo na ausência de qualquer desconforto.”
Para a médica, o cenário brasileiro revela uma contradição. “Estamos falando de um câncer que tem vacina e métodos eficazes de detecção precoce. Ainda assim, ele continua afetando mulheres em idade produtiva. Isso mostra que o desafio hoje não é falta de tecnologia, mas garantir acesso consistente à prevenção e ao diagnóstico”, diz.
Tradicionalmente, o rastreamento é feito por meio do exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. Evidências científicas recentes indicam que o teste molecular para detecção do HPV é mais sensível para identificar mulheres em risco e permite ampliar o intervalo entre exames quando o resultado é negativo. O Ministério da Saúde iniciou a implementação do teste molecular de DNA-HPV no Sistema Único de Saúde (SUS), com previsão de ampliação gradual até 2026. A expectativa é beneficiar cerca de 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano com o novo método, considerado mais eficaz para a detecção precoce.
“O câncer do colo do útero não é uma doença única. Existem subtipos com comportamentos diferentes. O adenocarcinoma, por exemplo, tem aumentado proporcionalmente e pode ser mais difícil de identificar apenas com a citologia convencional. Isso reforça a necessidade de métodos de rastreamento mais sensíveis e estratégias atualizadas”, destaca.
A prevenção se apoia em dois pilares: vacinação e rastreamento. A vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos. O esquema preconizado pelo Programa Nacional de Imunizações é de dose única para a faixa etária de 9 a 14 anos. Em 2024, o Brasil atingiu mais de 82% de cobertura vacinal contra o HPV entre meninas dessa faixa etária, superando a média global de 12%, segundo dados da OMS. Entre os meninos, a cobertura chega a 67%. Para pessoas fora dessa faixa etária ou pertencentes a grupos especiais, a vacinação segue esquemas diferenciados.
No tratamento, os avanços incluem abordagens mais individualizadas. Além da cirurgia, radioterapia e quimioterapia, há opções como a imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais, e medicamentos que atuam de forma direcionada. “Temos ferramentas eficazes para reduzir drasticamente a incidência e a mortalidade por esse câncer nas próximas décadas. O que precisamos é ampliar a cobertura vacinal, fortalecer o rastreamento e garantir que o tratamento seja iniciado no tempo adequado. A eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública é possível, mas depende de compromisso contínuo”, conclui.




















