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A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Quilombo Tia Eva, em Campo Grande, será o primeiro quilombo declarado oficialmente tombado no Brasil. O reconhecimento será formalizado nesta terça-feira (10), durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), realizada no Palácio Gustavo Capanema.

Com a decisão, a comunidade inaugura o novo Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, criado pela Portaria nº 135/2023 do Iphan. O instrumento foi desenvolvido para reconhecer e preservar territórios quilombolas que guardam referências históricas e culturais da população negra no país.

Segundo o presidente do Iphan, Leandro Grass, o tombamento representa um avanço nas políticas de reconhecimento e preservação das comunidades quilombolas.

“A declaração de tombamento representa um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas. A valorização da cultura de matriz africana têm sido uma prioridade desta gestão. O trabalho conduzido pelo Iphan para o tombamento constitucional dos quilombos é construído com a participação direta das comunidades, que são as verdadeiras protagonistas. O Quilombo Tia Eva inaugura esse novo momento e o novo Livro do Tombo dedicado aos quilombos. Muitos outros territórios quilombolas receberão, com justiça, esse mesmo reconhecimento”, afirma.

Processo começou em 2024

O processo de reconhecimento do quilombo foi iniciado em 2024, a partir de estudos técnicos conduzidos pelo Iphan em diálogo com a comunidade local. O tombamento de sítios ligados à história de antigos quilombos está previsto na Constituição Federal de 1988, no artigo 216.

De acordo com Vanessa Pereira, coordenadora-geral de Identificação e Reconhecimento do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do instituto, a regulamentação recente permitiu transformar em prática uma previsão constitucional.

“A Constituição Federal de 1988 trouxe o reconhecimento do valor dos sítios e documentos detentores de reminiscências históricas de antigos quilombos, e, após a regulamentação pela Portaria nº 135 de 2023, o Iphan conseguiu promover essa declaração de um quilombo que guarde essas memórias vivas. Foi um processo de muito diálogo, estudos técnicos para que se pudesse fazer essa proposta e esse primeiro reconhecimento a partir diretamente do mandamento constitucional, algo que será estendido a outros quilombos”, explica.

Diferentemente do modelo tradicional de tombamento previsto no Decreto-Lei nº 25 de 1937, o novo instrumento cria um livro específico para territórios quilombolas e estabelece princípios como autodeterminação e consulta prévia às comunidades envolvidas.

Comunidade histórica

Considerada uma das mais antigas referências quilombolas urbanas do país, a comunidade foi fundada por Eva Maria de Jesus, mulher negra alforriada que se estabeleceu na região no início do século 20. Ao longo do tempo, o território se consolidou como um importante símbolo da resistência negra em Mato Grosso do Sul.

Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, localizada em Campo Grande (MS). Foto: Bruna Costa Dias/Iphan

Para o superintendente do Iphan no estado, João Henrique dos Santos, o reconhecimento tem significado simbólico para a história do país.

“Esse é um marco dentro das políticas públicas voltadas à patrimonialização de comunidades tradicionais quilombolas. No caso do Quilombo Tia Eva, há um protagonismo de uma mulher negra, recém alforriada que chega no sertão brasileiro, como era conhecida a região sul do então Mato Grosso e, nesse território, ela constitui uma comunidade fantástica. Era comunidade rural e que agora se insere no contexto urbano. Assim, estamos evidenciando o protagonismo das mulheres na formação desses núcleos no início do século 20, em que se origina o Tia Eva”, afirma.

Legado para as novas gerações

Moradores da comunidade também participaram diretamente do processo de reconhecimento, contribuindo com pesquisas e relatos históricos.

A arquiteta Rayssa Almeida Silva, integrante da associação de moradores, afirma que o trabalho ajudou a resgatar a história do território e de sua própria família.

“A luta está sendo grande. Primeiramente, estamos buscando realizar o sonho dos mais velhos. A outra luta é despertar o interesse dos mais jovens. Muitas pessoas moram aqui em Campo Grande e não sabem da história. Com esse reconhecimento, ajuda a mostrar o exemplo que Tia Eva foi de não desistir das batalhas da vida”.

Para descendentes da fundadora, o tombamento também pode fortalecer a preservação da memória da comunidade.

Nilton dos Santos Silva, tataraneto de Tia Eva, diz que a medida deve ampliar a visibilidade da história local.

“Tudo que eu aprendi e o que sou vem de gerações passadas. Espero agora, com o tombamento, o reconhecimento da história, praticamente, da fundação de Campo Grande, onde tudo começou, e também mais coisas para a comunidade, como reformas e visitantes”.

A decisão será tomada durante a 112ª reunião do Conselho Consultivo do Iphan, que também deve analisar o registro e o tombamento de outros sete bens como patrimônio cultural brasileiro.

Com informações e imagem do Governo Federal

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