Em um cenário de urgência ambiental e diante de dados que acendem o alerta para o futuro da biodiversidade, a abertura da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias (COP15 da CMS) reuniu autoridades brasileiras e internacionais na manhã desta segunda-feira (23), na capital sul-mato-grossense.
A plenária inaugural contou com a presença da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, do secretário-executivo da pasta e presidente designado da conferência, João Paulo Capobianco, e do governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), além de representantes de organismos internacionais e autoridades locais.
Realizada no plenário da Zona Azul, no Bosque Expo, a cerimônia marcou o início de uma agenda que deve discutir, ao longo dos próximos dias, estratégias globais para conter o avanço da perda de biodiversidade, especialmente entre espécies que dependem de rotas migratórias para sobreviver.
Logo na abertura, Marina Silva destacou o peso simbólico e político da realização do evento no Brasil, poucos meses após outro grande encontro ambiental internacional.
Em um discurso que combinou tom técnico e sensível, a ministra fez um retrato da gravidade do cenário atual. “Vivemos um tempo de urgência”, afirmou. “O relatório divulgado mostra que 49% das espécies migratórias apresentam declínio populacional e 24% já se encontram ameaçadas”.
Ela também ressaltou os impactos que vão além da fauna silvestre. “Fatores de pressão, como a crise climática, a degradação dos ecossistemas, a perda de biodiversidade e a poluição impactam não só as espécies migratórias, mas também a segurança alimentar, a qualidade da água e o equilíbrio da vida do planeta”.
Ao defender maior articulação internacional, Marina afirmou que a conferência deve avançar em compromissos concretos. “Precisamos conectar nações, políticas, ciência e saberes tradicionais para garantir que as espécies migratórias sigam seu caminho”.
Em outro momento, reforçou a necessidade de alinhar desenvolvimento econômico e preservação ambiental. “Se trabalharmos juntos, é possível conciliar o desenvolvimento e a conservação. É possível gerar riqueza sem destruir o patrimônio natural que nos sustenta, promovendo assim um novo ciclo de prosperidade”.
A ministra também evocou a importância simbólica do território sul-mato-grossense, citando o Pantanal como exemplo de integração ecológica. “É uma fronteira viva, que nos lembra que a natureza não se divide em linhas rígidas, mas se entrelaça em transições generosas”.
Encerrando sua fala, Marina Silva fez um apelo direto à comunidade internacional. “A vida é movimento e o futuro das próximas gerações depende da nossa coragem de agir agora”.
O governador Eduardo Riedel destacou a expectativa positiva para a realização do evento e o esforço conjunto para sua organização. Segundo ele, a estrutura foi construída em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e equipes técnicas, classificando a realização de uma conferência desse porte como “um grande desafio”, mas afirmando que, até o momento, tudo ocorre de forma adequada.
Riedel também ressaltou o impacto econômico e institucional da COP15 para o estado. “Tem mais de três mil e quinhentas pessoas inscritas, a maioria de fora. Então, isso movimenta muito a nossa economia também”, disse. De acordo com o governador, a presença de visitantes internacionais contribui para divulgar o potencial turístico sul-mato-grossense. “O que eu mais ouço é: ‘eu vou voltar com a família’”.
Em relação às agendas institucionais, ele afirmou que conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre temas estratégicos para o estado, incluindo investimentos e infraestrutura. Riedel citou projetos ligados à Rota Bioceânica e financiamentos internacionais em tramitação, destacando que o governo federal deve verificar o andamento das propostas.
Sobre o legado da conferência, o governador avaliou que o principal resultado será o fortalecimento das relações internacionais e científicas. Segundo ele, a COP “fomenta as relações que existem do mundo científico com o nosso Estado”, ampliando parcerias entre universidades, centros de pesquisa e organismos internacionais.
Riedel também defendeu uma abordagem mais ampla dos debates ambientais e sociais. Ele afirmou que as discussões vão além das espécies migratórias e incluem temas como comunidades indígenas, desenvolvimento sustentável e cooperação internacional. Para o governador, o foco deve estar em cidadania e melhoria das condições de vida, com acesso a água, infraestrutura e educação, respeitando as particularidades culturais.
Ao comentar a articulação com países vizinhos, como Paraguai e Bolívia, ele destacou a importância da cooperação regional, especialmente em temas como queimadas no Pantanal. Segundo Riedel, ações conjuntas são fundamentais, e há uma agenda comum entre os países, incluindo iniciativas ambientais e econômicas. Ele afirmou ainda que o crescimento do Paraguai “não é uma questão antagônica ou competitiva”, mas complementar ao desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.
Além das autoridades brasileiras, participaram da abertura nomes como a secretária-executiva da Convenção, Amy Fraenkel, a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), e representantes do Ministério das Relações Exteriores.
A COP15 das Espécies Migratórias ocorre em um momento estratégico para o Brasil, que busca reforçar seu protagonismo na agenda ambiental global e ampliar a cooperação internacional em torno da proteção da biodiversidade.
Nos próximos dias, os debates devem girar em torno da ampliação da proteção de espécies ameaçadas, da criação de iniciativas conjuntas entre países e da integração entre políticas ambientais e enfrentamento das mudanças climáticas.
Foto: Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima




















