Carregando…

COMPARTILHE

Neste domingo, decidi abrir espaço nesta coluna para algo diferente. Em vez de escrever apenas com as minhas palavras, escolhi compartilhar as palavras de alguém que viveu intensamente o que foi o TEDxCarandá 2026.

O fundador do TrenDs News e um dos hosts do evento, Renato Grau, publicou em seu LinkedIn uma carta emocionante sobre tudo o que experimentamos no palco do Bioparque Pantanal. Um texto que traduz, com sensibilidade e profundidade, aquilo que muitos sentiram, mas talvez ainda não tenham conseguido colocar em palavras.

Vamos acompanhar abaixo?!

A água estava nas paredes

O TEDx Carandá aconteceu dentro do Bioparque Pantanal, em Campo Grande, e o “dentro” aqui é literal, não uma figura de linguagem. O Bioparque não é um auditório que por acaso fica num lugar bonito: é o maior aquário de água doce do mundo, com cerca de cinco milhões de litros de água, dezenas de milhares de animais e centenas de espécies, quase todas do Pantanal e dos rios que o sustentam. Enquanto cada speaker falava no palco, a água estava ali, viva, contida pelo vidro, atravessando as paredes do evento não como cenário, mas como presença.

O nome do encontro fechava o quadro: o tema oficial era Encontro das Águas, uma homenagem ao bioma que só existe porque a água se encontra. O Pantanal não é uma paisagem parada, é um movimento, e todo ano os rios transbordam, a água avança, alaga, conecta o que estava separado e depois recua, de modo que o Pantanal é, literalmente, o encontro das águas acontecendo e se desfazendo em ciclo.

Mas foi justamente ali, olhando a água nas paredes, que a primeira inquietação me ocorreu. A água se encontra sozinha: dois rios não decidem se cruzar, eles obedecem ao terreno, à inclinação, à gravidade. O encontro das águas é lindo, é fértil, é a origem de um dos biomas mais ricos do planeta, mas é, no fundo, automático, e acontece porque tem que acontecer, sem que ninguém precise querer.

E aqui mora a diferença que o Dijan nomeou sem transformar aquilo numa tese. Se o evento fosse apenas um encontro de águas, teria sido uma bela metáfora e nada além, porque encontrar, para a água, é a parte fácil. O que ele estava dizendo, e o que eu só fui entender por inteiro depois, é que ali acontecia outra coisa, de outra natureza. As águas se encontram por gravidade. As almas, não. As almas se encontram por escolha, e foi a escolha, não a gravidade, que transformou aquele evento numa travessia.

O encontro começou numa casa, não num palco

Eu disse que a frase veio de bastidor, e preciso ser mais exato sobre que bastidor era esse: não foi um corredor de evento, foi uma casa. Na véspera do TEDx, Dijan, Ana e Duda receberam speakers, hosts e organização na própria casa, para um jantar que não tinha nada de protocolar, em que cada pessoa se apresentou, contou de onde vinha, o que carregava, por que estava ali. O evento ainda não tinha oficialmente começado, e o encontro já estava em curso.

Naquele jantar estava também o Chicão, que no dia seguinte lideraria a banda de música pantaneira responsável por dar ainda mais alegria ao evento. Mas ali, na véspera, ele não estava como músico, e sim como convidado, uma alma a mais naquela mesa, e foi justamente isso que me marcou. O Chicão, que tantas vezes é quem sobe ao palco para emocionar os outros, foi, naquela noite, um dos que mais se emocionaram, tomado pelas falas de cada um. Num encontro de almas, ninguém é atração e ninguém é plateia: todos são convidados.

Há uma diferença enorme entre essas duas coisas, e ela é o assunto desse bloco. Produzir um evento é uma competência, e hospedar almas é outra: a primeira você contrata, a segunda você não terceiriza. O que o Dijan e a Ana fizeram, com o apoio da Duda, foi tratar o TEDx não como uma produção a ser executada, mas como uma casa a ser aberta. O cuidado não era um detalhe de logística, era a substância: vinha deles, vinha antes do conteúdo, e, como eu logo descobriria, continuaria depois dele.

Porque o cuidado não terminou quando o último speaker desceu do palco. Houve um jantar pós-evento, pequeno, e nele as histórias não pararam, continuaram sendo contadas, agora sem cronômetro, sem palco, sem plateia. O TEDx, percebi ali, não era o evento, era o meio: o encontro tinha começado numa casa, na véspera, e seguia numa mesa, na noite seguinte, e o palco foi apenas o ponto mais visível de uma curva muito maior.

E isso reorganiza o que significa ser host, que era a minha função naqueles dias. Eu achava que host era quem apresenta, quem faz a ponte entre uma fala e outra, quem segura o ritmo, quem cuida do tempo, e é isso também. Mas a lição que o Dijan e a Ana me deram, sem aula, só pelo exemplo, é que o host de verdade não abre um palco. Abre um leito. Leito é a palavra que os rios me emprestam: é o canal por onde a água pode correr e, correndo, encontrar outra água, porque sem leito não há encontro, há só inundação dispersa. O anfitrião é quem cava o leito, quem cria a condição para que as almas, que não se encontram por gravidade, tenham por onde se encontrar por escolha.

E cavar um leito bem-feito exige duas coisas que raramente moram juntas: calor e ofício. O calor veio do Dijan, da Ana e da Duda, da casa aberta na véspera. O ofício teve, ali, um nome em destaque: Mario Giotto, especialista em TEDx, que trouxe a bagagem de quem já ajudou a cavar muitos desses leitos e brilhou na organização deste. Ao lado dele, uma equipe que fez o invisível acontecer, como a Beatriz, do time do Dijan. E havia ainda as mãos que quase ninguém vê e sem as quais nada acontece: vinte estudantes de um instituto local, voluntários que sustentaram o evento nos bastidores, e os artesãos da Bruaca, e outros que estavam por ali, levando para dentro do encontro o artesanato pantaneiro, que é a própria cultura daquela terra feita à mão. Anfitrião, eu aprendi nesses dias, raramente é uma pessoa só: é um leito cavado a muitas mãos.

Conexão virou gravidade

Essa é uma Carta do Especialista, então agora eu preciso fazer o movimento que ela sempre faz, que é pegar o que vivi e cruzar com o terreno em que todos nós estamos pisando, o da inteligência artificial, e aqui esse cruzamento é direto.

Nos últimos anos, a tecnologia fez algo extraordinário: tornou a conexão abundante. Hoje você alcança quase tudo, qualquer pessoa, qualquer informação, qualquer lugar, a qualquer hora, e a IA levou isso ainda mais longe, conectando por você, sugerindo, aproximando, completando. E eu sou, de verdade, entusiasta disso, porque conectar pessoas, ideias e mundos é uma das coisas mais generosas que a tecnologia já fez por nós, e é uma aposta em que acredito há anos. A conexão virou quase uma gravidade: uma força constante, confiável, que está sempre ali, sustentando o resto.

E é justamente porque a conexão ficou tão abundante que vale nomear, com calma, uma distinção simples. Conexão e encontro são parentes próximos, mas não são a mesma coisa. Conexão é a água se cruzando por gravidade. Encontro é a alma se cruzando por escolha. Uma não compete com a outra, porque o encontro nasce em cima da conexão, como a travessia nasce em cima da ponte: primeiro é preciso aproximar, e a conexão faz isso lindamente, e depois alguém precisa escolher atravessar. A tecnologia é extraordinária na aproximação, mas a travessia segue sendo um gesto humano, e é nele que essa carta quer tocar.

Foi por isso que o que vivi em Campo Grande me marcou tanto: não pela quantidade de conexões, embora tenham sido muitas e boas, mas pela raridade do encontro. Num tempo em que a conexão se tornou abundante, e que bom que se tornou, reunir almas dispostas a se atravessar é o que ficou precioso, e precioso, aqui, não tem a ver com dinheiro, tem a ver com intenção.

O que atravessa a alma é a história

Se conexão não é encontro, o que é, então, que faz um encontro acontecer? A resposta estava no palco do TEDx Carandá, repetida talk após talk, como se cada speaker tivesse combinado de provar a mesma tese sem combinar nada.

Quase todas as falas, e isso me atravessou ao longo da tarde, tinham uma história de virada dentro: não uma tese, mas uma história, e não uma história qualquer, mas a de um encontro que mudou o rumo de uma vida.

Raquel Machado, médica, contou que tudo começou quando acolheu um único papagaio que vivia em cativeiro. Foi atrás de orientação e, ao puxar aquele fio, descobriu a dimensão do tráfico de animais silvestres no Brasil, e aquele encontro, um gesto pequeno, quase doméstico, virou o Instituto Libio e uma vida inteira dedicada à fauna: uma pessoa, um bicho, e uma travessia.

O Coronel Ângelo Rabelo contou uma virada ainda mais radical. Em 1983, recém-formado, foi enviado ao Pantanal para reprimir o tráfico de peles de onça-pintada, mandado, de farda, para combater. Mas o encontro com aquele território fez nele o que nenhuma ordem previa: transformou o homem da repressão no fundador do Instituto Homem Pantaneiro, hoje guardião de centenas de milhares de hectares na Serra do Amolar. Ele foi encontrar um inimigo e encontrou uma causa, e a água do Pantanal o atravessou de tal modo que ele saiu outro.

As irmãs Tatiana, Marcella e Antonia Monteiro de Barros contaram como, no começo da pandemia, criaram um simples grupo de mensagens para arrecadar ajuda. Em poucos dias, aquele grupo tinha levantado milhões e virado o Movimento União BR, que em um ano alcançou milhões de pessoas em mais de vinte estados. Começou como uma conexão das mais comuns, um grupo de WhatsApp, mas virou encontro no instante em que as pessoas colocaram história, urgência e alma dentro dele, e a mesma ferramenta que tantas vezes só serve a conversas de passagem, ali, carregada de intenção, virou uma enchente de socorro.

Juanita Battilani, chef em Bonito, contou de uma cozinha que começou modesta, fazendo marmitas para mais de cem famílias, e que se transformou quando o filho dela entrou no negócio e enxergou ali algo que ela ainda não tinha nomeado. O encontro, nesse caso, foi entre duas gerações, e entre dois jeitos de olhar a mesma panela.

E o chef Paulo Machado contou de uma herança que atravessou gerações. Ele é neto de Paulo Coelho Machado, advogado, historiador e escritor que dedicou a vida a documentar a memória de Mato Grosso do Sul, e cresceu entre as histórias do avô e as receitas da avó, tendo herdado do avô, além do nome, um hábito: andar sempre com um caderninho de anotações. Esse caderninho virou método: o avô registrava a história das ruas, o neto passou a registrar a história dos sabores e transformou esse material na base de uma vida dedicada a recolher e honrar a cozinha pantaneira, que ele já levou até o MASP, em São Paulo. Cada prato que ele serve é o registro de um encontro: entre quem cozinhou antes e quem vai provar depois, entre um avô que guardava memória e um neto que a leva à mesa.

Eram histórias de áreas completamente diferentes, fauna, conservação, ação social, gastronomia, e o mesmo desenho embaixo de todas elas: em cada uma, duas correntes que não tinham nada em comum se cruzaram, e do cruzamento nasceu uma terceira coisa que antes não existia. É isso que a água me ensinou, vista do palco. A água carrega. A história atravessa. A conexão põe duas coisas no mesmo lugar, mas só a história, a emoção, o sentido que uma alma entrega à outra transforma esse estar-junto em travessia. E é por isso que a máquina, que é tão boa em carregar, nunca vai fazer sozinha o que aquele palco fez: ela move, mas não atravessa.

Era uma reunião de inquietos

Eu poderia encerrar a carta no bloco anterior, e ela já teria entregado o que prometeu. Mas há uma última camada, e é a que me interessa mais, porque é a que liga o TEDx Carandá ao projeto que venho construindo, a Jornada do Inquieto.

Em algum momento daquele dia, entre uma talk e outra, eu olhei a sala e entendi quem estava ali. Não eram apenas speakers, organizadores e hosts; ali estava, do primeiro ao último, uma reunião de inquietos.

Um dos speakers me deu, sem saber, a senha para enxergar isso. Fred Alecrim subiu ao palco com uma proposta que parecia simples e era uma lâmina: não correr contra o vento. Ele questionou o jeito como tanta gente vem tratando a própria vida, fazendo, na pressa de um mundo acelerado, escolhas que não faria se parasse para pensar. Eu tenho um nome para isso, e uso esse nome quando falo do início da Jornada do Inquieto: descolamento silencioso. Não é um desabamento nem uma crise com data marcada, é a pessoa indo, devagar, se descolando da própria vida sem perceber. E o inquieto é, antes de qualquer outra coisa, quem percebe.

Preciso ser exato com essa palavra, porque ela é o coração do que escrevo. O inquieto não é o insatisfeito. O insatisfeito é movido pela falta: pergunta por que ainda não tem o que quer, troca de alvo atrás de alvo, busca a resposta sempre do lado de fora. O inquieto é movido por outra coisa, pela possibilidade: pergunta o que ainda não está enxergando, consegue celebrar o que conquistou sem acreditar, nem por um segundo, que chegou ao fim, e sente gratidão pelo presente ao mesmo tempo em que percebe que ainda há algo a ser construído. O insatisfeito vive de carência; o inquieto, de transformação.

E eu vi essa distinção encarnada, inteira, numa pessoa só. No jantar da véspera, na casa dos Barros, conheci Lindolfo Martin , fundador da Multicoisas, uma das histórias empresariais mais bem-sucedidas que Campo Grande já produziu, hoje com centenas de lojas pelo país. Lindolfo estava ali celebrando, ao lado da esposa, Elza, nada menos que cinquenta anos de casamento, e contou, na mesma conversa, que está pivotando o próprio negócio, lançando a Multicoisas 2.0.

Para um instante nesse detalhe comigo, porque ele é precioso. Lindolfo era um homem que poderia, com todo o direito do mundo, se considerar pronto, com negócio consolidado, meio século de casamento e lugar garantido na história econômica do estado. Um insatisfeito, nesse ponto, ou teria parado, por achar que já bastava, ou estaria trocando tudo, por achar que nada bastava. Lindolfo não fez nem uma coisa nem outra: ele celebra os cinquenta anos de casamento e reconstrói a empresa, honra o que foi feito e enxerga o que ainda falta fazer. Isso não é falta, é possibilidade, e Lindolfo, aos olhos de quem sabe o que procurar, é o retrato vivo do inquieto.

E ele não estava sozinho naquela definição. Raquel, Rabelo, as irmãs Barros, Juanita, Paulo, Eberson Terra, Dijan, Ana, Duda, Mario Giotto, Pedro Pereira, Andre Noel, e tantos outros speakers e hosts: cada um, do seu jeito, recusou a acomodação, cada um olhou um pedaço do mundo, em geral um pedaço que o resto das pessoas já tinha decidido aceitar como estava, e se perguntou o que ainda não estava sendo enxergado. Um TEDx, quando é bem-feito, não é uma fila de palestras, é um filtro: junta, numa sala só, pessoas que têm em comum exatamente isso, a recusa de tratar o mundo como pronto.

Por isso eu chamo aquilo de reunião de inquietos. E é aqui que os dois fios dessa carta se encontram: uma reunião de inquietos é a forma mais pura de encontro de almas que existe. Quando um inquieto cruza com outro, a conexão vira encontro quase no mesmo instante: é alma reconhecendo alma, cada um descobrindo, no outro, que aquela recusa de aceitar o mundo como pronto tinha companhia. Por isso aquilo importou muito além de Campo Grande. Ao longo daqueles dias, várias das pessoas com quem conversei sobre a Jornada do Inquieto, sobre o livro que estou escrevendo, se reconheceram de imediato, não como quem ouve uma ideia nova, mas como quem finalmente ouve um nome para algo que já sentia. E foi aí que a última peça se encaixou: o inquieto, na maior parte do tempo, acha que está sozinho, acha que é o único que não consegue se contentar, o único que insiste em enxergar o que falta. Mas não é, porque os inquietos estão espalhados, um em cada sala, e o que falta a eles, quase sempre, não é motor nem coragem, é leito, é um lugar onde as almas inquietas possam, enfim, se encontrar.

Seja anfitrião dos seus encontros

Se essa carta tivesse que terminar numa única recomendação concreta, aplicável já nessa semana, seria essa: pare de esperar encontros e comece a hospedá-los.

A conexão, eu já disse, é abundante, e ainda bem que é. Ela chega, o feed entrega, o algoritmo aproxima, a IA sugere, e tudo isso põe diante de você gente e ideias que talvez nunca cruzassem o seu caminho. O encontro pede um passo a mais: ele não chega por inércia, precisa ser escolhido. Numa era em que a aproximação acontece sozinha, transformar conexão em encontro virou um ato deliberado, e ato deliberado tem dono: o dono do encontro é o anfitrião.

Ser anfitrião dos próprios encontros não exige organizar um TEDx, exige cavar leito, e leito se cava com decisões pequenas e exatas. É bloquear uma hora na agenda para uma conversa sem pauta com alguém que te inquieta, em vez de deixar essa hora ser engolida por mais notificações. É, numa mesa, fazer a pergunta que abre a história do outro em vez da pergunta que a fecha num “tudo bem”. É escolher, conscientemente, a quem você vai dar a sua atenção inteira, sabendo que atenção inteira virou a moeda mais cara que você tem. O anfitrião não espera o rio passar. Ele desenha o leito por onde o rio vai querer passar.

E aqui entra a pergunta-critério, a que eu queria te deixar para a próxima segunda de manhã. Antes de mais um dia de conexões automáticas, pare e pergunte: dos encontros que importam, quais eu vou hospedar essa semana, e quais eu estou esperando, em vão, que a gravidade traga até mim? A resposta incomoda um pouco, porque ela quase sempre revela encontros adiados há tempo demais, mas é um incômodo útil, é o que antecede a decisão certa.

Há ainda um encontro que precisa vir antes de todos os outros, e o TEDx Carandá me ensinou isso de um jeito que eu não esperava. Começou na casa do Dijan e da Ana, na véspera, quando, antes de qualquer conversa sobre negócios, o Lindolfo ensinou à mesa uma prática simples que ele leva na empresa e na vida: intervalos deliberados para parar e respirar. E não só ensinou: fez todos nós praticarmos ali, no meio do jantar. No dia seguinte, do palco, Klebér Tani, que há mais de quatro décadas ensina meditação transcendental, defendeu com outras palavras exatamente a mesma tese, a de que a pressa rouba de nós o intervalo onde a clareza mora. Um empresário com cinquenta anos de estrada e um mestre de meditação, sem combinar, apontavam para o mesmo gesto.

E foi como host que eu vivi o momento daqueles dias que não vou esquecer. Logo depois da palestra do Coronel Ângelo Rabelo, aquela que terminou com o teatro inteiro de pé, aplaudindo, eu repeti o gesto que o Lindolfo tinha ensinado e conduzi todas aquelas pessoas, juntas, num intervalo para respirar, não para baixar a emoção, mas para honrá-la. Porque depois de uma história como a do Coronel, o pior que se pode fazer é correr para a próxima, e merecíamos, todos, aquele momento de reflexão. E foi conduzindo a respiração de um teatro inteiro que eu entendi, por completo, o que é ser anfitrião: não é preencher o silêncio das pessoas, é abrir um.

Porque o primeiro encontro, o que sustenta todos os outros, é o encontro com você mesmo, e ele só acontece no intervalo. De nada adianta cavar leito para os outros se você nunca parou tempo suficiente para encontrar a própria corrente, para saber o que de fato te move, o que te inquieta, o que você tem a oferecer numa travessia. O anfitrião que não se encontrou hospeda salas cheias e sai delas tão vazio quanto entrou. Encontrar-se é a obra interna, hospedar os outros é a obra externa, e elas, como tudo na arquitetura humana, não funcionam separadas.

O líder como anfitrião

Tem uma pessoa específica que eu preciso chamar para a frente agora, porque é provável que seja você. Quem lê essa carta, na maior parte das vezes, é alguém que lidera, e até aqui eu falei de hospedar os seus encontros no singular, no pessoal: a sua agenda, a sua mesa, a sua atenção. Mas quem lidera hospeda algo maior, uma organização inteira, e a pergunta que essa carta deixa para a liderança é direta: a sua organização é só um lugar onde pessoas se conectam, ou também um lugar onde almas se encontram?

Repare que muita empresa já deu um passo nessa direção sem medir o tamanho dele, quando trocou o nome do RH, “Recursos Humanos”, por “departamento de pessoas”, ou simplesmente “pessoas”. Foi um avanço real, sair de “recurso”, que é coisa que se aloca e se gasta, para “pessoa”, que é gente. Mas a distinção que essa carta inteira sustenta pede mais um passo, porque pessoas se conectam e almas se encontram, e uma organização pode estar lotada de pessoas perfeitamente conectadas, com organograma impecável, processos redondos e ferramentas integradas, e ainda assim não ter, acontecendo dentro dela, os encontros que fariam toda a diferença. A conexão organizacional é o que a tecnologia entrega cada vez melhor; o encontro organizacional é o que ainda depende de uma escolha de liderança.

E aqui a coisa fica séria, porque é exatamente esse o terreno em que a inteligência artificial está entrando na sua empresa. A IA vai assumir, e rápido, a conexão da organização: coordenar, otimizar, distribuir informação, casar agendas, alinhar tarefas, costurar áreas. Tudo isso é a gravidade da empresa, e a máquina faz com uma largura e uma velocidade que nenhum gestor alcança, de modo que o líder que insistir em justificar o próprio cargo pela competência de coordenar vai descobrir, em pouco tempo, que está competindo com a IA num jogo que a IA ganha. O que não é gravidade, o que a máquina não faz, e o que por isso mesmo passa a ser o trabalho mais valioso da liderança, é hospedar o encontro.

Na era da IA, o líder para de ser o nó que coordena a rede e passa a ser o anfitrião que cava o leito. É uma mudança de função, não de discurso. Anfitrião, dentro de uma organização, é quem cria deliberadamente as condições para que as almas se atravessem: ritmos que não sejam só de entrega, conversas que não sejam só de status, rituais que abram leito em vez de preencher pauta. O Lindolfo, lá atrás, é o exemplo no detalhe mais concreto possível: a pausa para respirar ele não leva só para a vida, leva para dentro da empresa, transformando uma prática de alma num ritual de organização. Isso é um líder sendo anfitrião.

E é por isso que o departamento de pessoas talvez precise de mais uma evolução, não de nome, mas de propósito. Não para virar “departamento de almas”, que soaria pretensioso, e sim para assumir uma função nova, a de guardião dos leitos da organização, que pare de medir apenas conexão, o engajamento, o headcount, a produtividade da hora, e comece a perguntar uma coisa que quase nenhum painel responde hoje: onde, dentro dessa empresa, as almas têm por onde se encontrar? A liderança que faz essa pergunta, e decide a partir dela, constrói algo que nenhum concorrente copia e nenhuma IA replica, uma organização que também é, ela mesma, um encontro de almas.

Reflexões finais

Eu disse, no começo, que uma frase ouvida em Campo Grande tinha vindo comigo e não me deixava em paz. Chego ao fim entendendo por quê.

O Dijan pegou um tema oficial, Encontro das Águas, e fez com ele uma única e silenciosa inversão: chamou de encontro das almas. Parece um detalhe poético, mas não é: é a coisa mais prática que ouvi na viagem inteira. Porque a água se encontra por gravidade, e gravidade a tecnologia já nos deu de sobra, mas o que a tecnologia não dá, o que nenhuma máquina vai hospedar no seu lugar, é o encontro que depende de escolha, de presença, de história, de alma. Esse, agora, só acontece se alguém decidir ser o anfitrião.

A boa notícia é que a era da IA, ao tornar a conexão abundante e cotidiana, fez exatamente o oposto com o encontro: tornou ele raro, e o que é raro fica precioso. Nunca um jantar sem pressa, uma escuta inteira, uma sala de inquietos valeu tanto quanto vale agora. A obsolescência, tema da carta anterior, morde quem confunde estar conectado com estar encontrando. A travessia, o antídoto, pertence a quem aprende a hospedar.

A Jornada do Inquieto é o nome que dei a essa travessia, e ela tem livro em construção e essa série de Cartas do Especialista. Mas o TEDxCarandá me ensinou que ela é, antes de tudo, isso: um convite para que os inquietos parem de achar que estão sozinhos. Vocês não estão: estão espalhados, um em cada sala, esperando um leito. Essa carta é um pedaço de leito, e a Jornada do Inquieto inteira é um convite ao encontro.

E eu termino confessando que já tenho a minha turma. A gente se chama, meio de brincadeira e muito a sério, de inimigos do fim, que talvez seja a definição mais curta de inquieto que exista. Dela nascem os rolês aleatórios do TrenDs News, encontros que já aconteceram no SXSW , em Austin, e no HackTown , em Santa Rita do Sapucaí, e que naquela noite em Campo Grande ganharam mais um episódio. O fechamento foi ao lado do Mario, da Aline Bak , da Dani Plesnik e do Andre: mais histórias, mais trocas, e, no meio de tudo, intacto, o espírito de quinta série. Porque encontro de alma não precisa ser solene, e inimigo do fim não abre mão da leveza: ele só se recusa, com uma teimosia alegre, a acreditar que acabou.

Se você chegou até aqui, e alguma coisa no caminho rimou com algo que andava inquieto dentro de você sem nome, talvez você seja um desses inquietos espalhados. E talvez o seu próximo passo não seja procurar mais uma conexão, e sim hospedar o seu primeiro encontro.

TEXTO POR: Renato Grau | [email protected]

Especialista em inovação, transformação digital e futurismo aplicado. Fundador do TrenDs News e autor da Carta do Especialista, apoia líderes inquietos em suas jornadas de transformação, conectando tecnologia, comportamento humano e tomada de decisão.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Dijan de Barros

Dijan de Barros

Empreendedor, especialista em gestão e marketing, apresentador, palestrante, TEDxOrganizer, fundador do Café com Negócios | @dijanbarros

Total News MS

AD BLOCKER DETECTED

Indicamos desabilitar qualquer tipo de AdBlocker

Please disable it to continue reading Total News MS.