Passei cinco dias em Santa Rita do Sapucaí cercado por algumas das palavras mais repetidas do nosso tempo. Inteligência artificial, inovação, tecnologia, futuro, criatividade, startups, novos negócios e transformação.
Era o HackTown 2026, uma edição especialmente simbólica porque celebrava os dez anos de um festival que conseguiu transformar uma pequena cidade do Sul de Minas Gerais em um dos ambientes mais interessantes de inovação, criatividade e tecnologia da América Latina.
Voltei para casa com muitas anotações, novos contatos, ideias, provocações e, principalmente, perguntas. Mas, depois de organizar tudo o que ouvi e vivi, percebi algo curioso. As maiores lições que trouxe do HackTown não foram sobre tecnologia. Foram sobre pessoas.
Talvez essa seja a primeira grande reflexão. Quanto mais a tecnologia avança, mais precisamos entender o que nos torna humanos. Estamos fascinados, e com razão, pelas possibilidades da inteligência artificial. A velocidade dessa transformação impressiona. Ferramentas que há pouco tempo pareciam ficção científica hoje estão incorporadas ao nosso cotidiano e começam a modificar a maneira como trabalhamos, aprendemos, produzimos, decidimos e nos relacionamos.
A pergunta deixou de ser se a inteligência artificial vai transformar nossas empresas. Ela já está transformando. Para mim, a questão mais interessante agora é outra. Quando a tecnologia estiver disponível para praticamente todos, onde estará o verdadeiro diferencial?
Talvez esteja justamente naquilo que não conseguimos automatizar tão facilmente. Confiança, sensibilidade, julgamento, criatividade, repertório, empatia, liderança, capacidade de ouvir, capacidade de fazer boas perguntas e, principalmente, capacidade de construir relações verdadeiras.
Passei cinco dias em um festival de tecnologia e voltei pensando muito mais sobre humanidade. Essa talvez seja a grande ironia e também a grande beleza deste momento.
Outra lição importante foi perceber novamente que inovação não é tecnologia. Tecnologia pode ser uma extraordinária ferramenta para inovar, mas inovação começa antes dela. Começa na curiosidade, quando alguém olha para algo que sempre foi feito da mesma maneira e pergunta por quê. Começa quando pessoas de mundos diferentes sentam na mesma mesa, quando alguém se dispõe a ouvir uma ideia que contraria aquilo em que acredita e quando ampliamos nosso repertório e permitimos que novas referências mudem nossa maneira de enxergar um problema.
O HackTown materializa isso de uma forma muito interessante porque mistura universos que normalmente permanecem separados. Tecnologia encontra música, negócios encontram arte, inteligência artificial encontra comportamento, grandes empresas encontram startups, executivos encontram estudantes e empreendedores encontram pesquisadores. Dessa mistura nasce algo extremamente poderoso que é o repertório.
Acredito cada vez mais que repertório será uma das grandes vantagens competitivas dos próximos anos. Em um mundo no qual todos terão acesso às mesmas ferramentas de inteligência artificial, talvez se destaque menos quem souber simplesmente usar uma ferramenta e mais quem souber fazer conexões que os outros ainda não perceberam.
A inteligência artificial pode ter acesso a uma quantidade gigantesca de informação. Mas somos nós que damos contexto, intenção e significado àquilo que fazemos com essa informação.
Outra reflexão que trouxe comigo tem relação direta com liderança. Durante muito tempo valorizamos líderes que tinham respostas. O chefe era aquele que supostamente sabia mais do que todos. Esse modelo está ficando velho muito rapidamente.
Quando qualquer pessoa pode fazer uma pergunta a uma inteligência artificial e receber em segundos uma quantidade enorme de informações, a função do líder muda. Talvez o grande líder deste novo tempo não seja aquele que tenha todas as respostas, mas aquele que consiga formular as melhores perguntas.
Perguntas que provoquem pensamento, que tirem as pessoas do automático, que desafiem certezas e que façam uma equipe enxergar possibilidades que ainda não estavam evidentes. Isso exige uma mudança importante na nossa forma de liderar. Precisaremos trocar um pouco da velocidade da resposta pela qualidade da pergunta.
Também voltei pensando sobre algo que sempre esteve no centro da minha trajetória e que o HackTown reforçou de maneira extraordinária. Networking não é colecionar contatos. Nunca foi.
Podemos ter milhares de conexões nas redes sociais, centenas de contatos no telefone e dezenas de novos nomes depois de um evento. Nada disso significa necessariamente ter uma rede. Rede é relacionamento. Relacionamento exige confiança, presença, generosidade, interesse verdadeiro pelo outro e, principalmente, tempo.
Alguns dos melhores momentos que vivi no HackTown não estavam programados. Aconteceram caminhando pelas ruas de Santa Rita, tomando um café, encontrando alguém entre uma atividade e outra ou simplesmente sentando para conversar.
Inclusive, durante nossa edição especial do Café com Negócios, aconteceu algo que considero uma metáfora perfeita disso. Estávamos discutindo justamente o que continua humano na era da inteligência artificial quando tivemos a honra de contar com o professor Roberto Shinyashiki em nosso painel. Um encontro que ganhou outra dimensão pela presença, pela conversa, pelo repertório e pela troca.
Nenhum algoritmo substitui completamente isso. Talvez consiga encontrar pessoas parecidas conosco, sugerir quem devemos seguir e até identificar interesses em comum. Mas construir confiança ainda é uma tarefa humana.
E aqui aparece outra lição que considero fundamental. O acaso continua tendo valor.
Estamos construindo um mundo cada vez mais orientado por algoritmos. Eles escolhem parte das notícias que vemos, das músicas que ouvimos, dos vídeos que assistimos e até das pessoas que aparecem diante de nós. Isso traz eficiência, mas também pode reduzir nossa exposição ao inesperado. E o inesperado é uma matéria prima extraordinária para a inovação.
Precisamos continuar frequentando lugares onde não sabemos exatamente quem vamos encontrar, conversando com pessoas que pensam diferente, lendo coisas que o algoritmo talvez não recomendasse, visitando lugares fora da nossa bolha e ouvindo ideias que inicialmente parecem não ter nenhuma relação com nosso trabalho.
Muitas das grandes ideias nascem justamente da conexão entre coisas que aparentemente não tinham conexão alguma.
Outra coisa ficou muito clara para mim. Empresas não precisam apenas de transformação digital. Precisam de transformação cultural. Comprar tecnologia é relativamente fácil. Contratar software é fácil. Implantar uma nova ferramenta é possível. Colocar inteligência artificial dentro de uma empresa também será cada vez mais simples. Difícil é mudar comportamento.
Difícil é construir uma cultura na qual as pessoas tenham liberdade para questionar. Difícil é permitir experimentação sem transformar todo erro em punição. Difícil é abandonar processos que funcionaram durante vinte anos quando eles deixam de fazer sentido. Difícil é fazer lideranças entenderem que aquilo que trouxe a empresa até aqui talvez não seja suficiente para levá la daqui para frente.
É por isso que acredito que a próxima grande transformação das empresas será muito menos tecnológica do que imaginamos. Será cultural. E essa transformação exige intencionalidade. Não basta dizer que queremos inovar. Precisamos criar ambientes que permitam inovação. Não basta dizer que pessoas são importantes. Precisamos construir culturas que demonstrem isso nas decisões. Não basta falar sobre inteligência artificial. Precisamos entender como ela pode ampliar a capacidade das pessoas e não simplesmente substituí las.
Também percebi algo importante sobre comunidades. O futuro será construído muito mais por ecossistemas do que por organizações isoladas. Nenhuma empresa possui todo o conhecimento necessário para enfrentar a velocidade das transformações atuais. Precisaremos aprender a construir pontes entre empresas, universidades, startups, governos, investidores, pesquisadores, criadores e comunidades.
Santa Rita do Sapucaí é uma demonstração muito interessante disso. O que acontece ali não nasce de uma única empresa, instituição ou pessoa. Existe um ecossistema. Essa palavra é usada demais no mundo dos negócios e, às vezes, até de maneira vazia. Mas quando um ecossistema realmente existe, percebemos rapidamente. As pessoas se conhecem, compartilham conhecimento, criam oportunidades umas para as outras e entendem que o crescimento individual pode ser potencializado pelo crescimento coletivo.
Talvez essa tenha sido também uma das razões pelas quais levar o Café com Negócios pela primeira vez para fora de Mato Grosso do Sul tenha feito tanto sentido para mim. Percebi que aquilo que começamos a construir em Campo Grande em 2017 também deixou de ser apenas um evento. Tornou se uma comunidade. E comunidades podem atravessar fronteiras.
Mas existe ainda uma reflexão que talvez seja a mais importante de todas. Durante anos perguntamos até onde a tecnologia conseguiria chegar. Talvez estejamos entrando em uma fase em que precisaremos perguntar até onde nós queremos chegar com ela.
Tecnologia não possui propósito por conta própria. Nós damos propósito a ela. Inteligência artificial não decide sozinha que sociedade queremos construir. Nós decidimos. As ferramentas serão cada vez mais poderosas. A questão será o que faremos com esse poder.
Por isso, acredito que o futuro exigirá de nós algo aparentemente contraditório. Precisaremos ser cada vez melhores em tecnologia e, ao mesmo tempo, cada vez melhores em humanidade.
Precisaremos entender inteligência artificial, dados e automação, mas também comportamento, ética, liderança e relações. Precisaremos aprender mais rápido, mas também saber parar para pensar. Precisaremos produzir mais, mas também entender por que estamos produzindo. Precisaremos estar conectados digitalmente, mas sem perder a capacidade de estar verdadeiramente presentes.
Voltei do HackTown 2026 com a sensação de que estamos entrando em um período extraordinário da história. Existem oportunidades enormes diante de nós e transformações que ainda mal conseguimos compreender. Mas talvez nosso maior desafio não seja acompanhar a velocidade das máquinas. Talvez seja não perder nossa humanidade enquanto fazemos isso.
Depois de cinco dias ouvindo algumas das pessoas mais inquietas que encontrei nos últimos tempos, minha principal conclusão é simples. O futuro não será humano ou tecnológico. Será humano e tecnológico.
E provavelmente prosperarão aqueles que entenderem primeiro que uma coisa não precisa excluir a outra. Podemos ter os melhores algoritmos, os melhores dados e as melhores inteligências artificiais disponíveis, mas confiança ainda importa, curiosidade ainda importa, repertório ainda importa, amizade ainda importa, coragem ainda importa, boas perguntas ainda importam, relações ainda importam e gente ainda importa.
Talvez, no final, a grande lição dos dez anos do HackTown seja justamente essa. Quanto mais inteligentes ficam as máquinas, mais intencionais precisamos ser sobre o tipo de humanos que queremos continuar sendo.













