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Em meio ao aumento da procura por atendimento psicológico e às dificuldades de acesso à saúde mental no sistema público e privado, um projeto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) tem acolhido gratuitamente adolescentes, adultos e idosos em momentos de sofrimento emocional, urgência psicológica e necessidade de escuta.

Criado em 2022 pela Liga Acadêmica em Psicologia da Saúde (LAPS), o Plantão Psicológico do Serviço Escola de Psicologia (SEP) da universidade já se consolidou como uma das principais portas de entrada para atendimentos em saúde mental oferecidos pela instituição. O serviço funciona sem necessidade de agendamento prévio e atende por ordem de chegada.

Somente entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025 foram realizados 92 atendimentos. Segundo os dados do projeto, a maioria das pessoas acolhidas eram mulheres, 65% do total, e pessoas autodeclaradas pardas, que representaram 55% dos atendimentos.

O serviço é voltado exclusivamente ao público externo da universidade e atende adolescentes a partir de 13 anos, adultos e idosos. Os encontros são gratuitos, breves e realizados por estudantes de psicologia supervisionados por professoras e profissionais da área.

Local dos atendimentos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

Atualmente, o plantão conta com oito estudantes plantonistas supervisionados pelas professoras Raquel Silva Barretto e Thaize de Souza Reis.

Atendimento sem fila e sem agendamento

Diferentemente da psicoterapia tradicional, o plantão psicológico funciona em lógica emergencial e acolhedora. A proposta é oferecer uma escuta qualificada para pessoas que chegam em sofrimento, sem a necessidade de entrar em filas de espera.

No modelo atual, os usuários podem participar de até três sessões. Após esse período, dependendo da demanda apresentada, o caso pode ser encaminhado para psicoterapia contínua dentro do próprio Serviço Escola de Psicologia ou para outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

A acadêmica Muriel Picon Soares, estudante do 7º semestre de Psicologia, afirma que o projeto tem impacto tanto na formação dos estudantes quanto na democratização do acesso à saúde mental.

“O projeto para mim é fundamental tanto na minha construção como estudante, quanto na minha construção como futura profissional, futura psicóloga, tanto na área clínica como na área social”, afirma.

Ela destaca que o serviço atende pessoas que muitas vezes não conseguem acesso à psicoterapia.

“O projeto é gratuito, é para o público externo, a gente recebe muitas pessoas todos os dias, a gente faz muitos atendimentos e é para aqueles que precisam. Acho que o projeto democratiza um pouco mais a psicoterapia, a saúde mental é muito importante atualmente, a gente sabe que tem muita procura e o plantão oferece essa oportunidade”, diz.

Muriel também ressalta que o plantão funciona como acolhimento inicial para situações de sofrimento emocional.

“O Plantão Psicológico no Serviço Escola de Psicologia na UFMS é um projeto de atendimento gratuito que acolhe adolescentes e adultos a partir dos 13 anos de idade, em momentos de sofrimento, urgência emocional ou necessidade de escuta”, explica.

“Às vezes tudo que o outro precisa é ser escutado”

Para os estudantes envolvidos, o projeto também se tornou espaço de formação prática e desenvolvimento de escuta clínica.

A acadêmica Valentyne Strozziato Gonçalves, do 7º semestre, afirma que o plantão permite que as pessoas encontrem acolhimento em momentos delicados.

“Eu entendo o plantão psicológico como um serviço em que o sujeito pode vir a endereçar todo ou algum sofrimento que permeia as suas vivências”, afirma.

Segundo ela, a escuta tem papel central nos atendimentos.

“Às vezes a gente acha que a escuta é algo muito pouco que a gente pode fazer pelo outro, mas às vezes tudo que o outro precisa é realmente ser escutado. Às vezes a própria demanda do outro é que ele não é escutado”, diz.

Valentyne também destaca o caráter imediato do serviço.

“O plantão psicológico não segue a lógica de inscrição. Não precisa fazer inscrição, não tem agendamento, não tem lista de espera. Então a pessoa pode vir ao serviço num dos horários disponibilizados e, se tiver alguém disponível para atendê-la, ela vai ser acolhida ali naquele horário”, explica.

A estudante Juliana Nantes Nishimura, do 5º semestre, avalia que a rapidez no acolhimento é um dos principais diferenciais do projeto.

“Muitas vezes as pessoas chegam ao serviço em busca de uma psicoterapia individual que nem sempre está disponível para aquele momento. Então elas são indicadas a irem ao plantão”, afirma.

Ela ressalta que os usuários reconhecem o espaço como um serviço acessível em momentos críticos.

“Eu acredito que é um serviço que as pessoas sentem que podem contar e principalmente nesses casos mais emergenciais”, diz.

Porta de entrada para a rede de saúde mental

A estudante Yanni Garcia Mamoré, integrante da diretoria de pesquisa da LAPS, afirma que o plantão muitas vezes representa o primeiro contato de muitas pessoas com a psicologia.

“O plantão, por ser um atendimento breve, pode acabar funcionando como uma porta de entrada para a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), sendo, muitas vezes, o primeiro contato daquela pessoa com a psicologia e o cuidado em saúde mental”, afirma.

Ela também destaca a importância da escuta sem julgamentos.

“Pela experiência que vivi com a psicologia tanto fazendo psicoterapia quanto atendendo, compreendi a potência de um espaço de escuta sem julgamentos: é extremamente significativo poder ser ouvida de forma genuína, sem críticas negativas ou condenações”, relata.

Segundo Yanni, o serviço oferece acolhimento para pessoas que nem sempre encontram espaços seguros em sua rotina.

“O Plantão representa justamente isso: um ambiente acolhedor e seguro, um momento voltado para si, para refletir, buscar ajuda, orientação ou simplesmente desabafar”, afirma.

Formação prática e compromisso social

Além do atendimento à população, o projeto também integra a formação acadêmica dos estudantes da UFMS. Antes de iniciar os atendimentos, os integrantes passam por formação teórica e prática voltada à escuta breve e manejo clínico.

A acadêmica Sarah Isabelle da Silva explica que os estudantes recebem supervisão contínua durante os atendimentos.

“Cada ligante e plantonista cadastrado no plantão psicológico da LAPS recebe supervisão de um dos coordenadores, que são professores e psicólogos, sobre os atendimentos que fizeram”, afirma.

Ela explica que o serviço também segue protocolos éticos e de sigilo profissional.

“Todos os documentos do SEP são fiscalizados pelo CRP. Então tem toda a questão de a gente ter um zelo pela documentação, pelos prontuários”, diz.

Sarah ressalta ainda que o plantão atende demandas variadas, desde conflitos pontuais até situações relacionadas à violência doméstica, sofrimento emocional e dificuldades no ambiente de trabalho.

Serviço funciona até junho antes do recesso acadêmico

Os atendimentos seguem o calendário acadêmico da universidade e serão realizados até junho de 2026, com retorno previsto para agosto após o período de férias letivas.

Os horários variam a cada semestre e são divulgados pela liga acadêmica e pelo Serviço Escola de Psicologia.

Atualmente, os atendimentos ocorrem às terças-feiras, das 13h às 15h, quartas-feiras, das 13h às 17h, e sextas-feiras, também das 13h às 17h.

O atendimento é realizado no Serviço Escola de Psicologia da UFMS, localizado na Avenida Senador Filinto Müller, 1, na Vila Ipiranga, em Campo Grande.

Informações sobre horários e funcionamento podem ser obtidas pelo telefone (67) 3345-7802 ou pelo perfil da liga no Instagram.

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