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Durante muito tempo, Anna Cláudia apenas observava os treinos de Kung Fu do lado de fora. Ela acompanhava os irmãos até a academia e aguardava o fim das aulas. Nesse período, havia uma rotina que se repetia quase sempre da mesma forma: o professor Cezar insistia para que ela experimentasse o esporte.

“De início eu levava meus irmãos aos treinos, foi assim durante um ano e cada vez que ia levar eles recebia um convite do professor Cezar dizendo ‘hoje que você veio fazer uma aula’ ou ‘quando você irá começar a treinar também’”, recorda.

A insistência durou cerca de um ano. Até que um dia ela resolveu aceitar o convite.

O que parecia ser apenas uma aula experimental acabou se tornando uma das decisões mais importantes de sua vida.

“Depois de um ano assim eu resolvi fazer uma aula experimental. Sempre fui uma criança e adolescente muito ativa, me apaixonei na minha primeira aula”.

Essa história começou aos 12 anos. Hoje, aos 22 anos, Anna se prepara para um dos momentos mais importantes de sua trajetória esportiva: representar o Brasil no 5º Pan-Americano de Kung Fu, que será realizado em outubro, em Buenos Aires, na Argentina. 

Convocada para competir nas categorias Outros Estilos e Bishou Feminino (técnica tradicional focada no uso de punhais curtos para defesa e ataque), ela vê a oportunidade como a realização de um sonho construído ao longo de uma década de dedicação.

Mas a história que a levou até a Seleção Brasileira começou muito antes dos títulos e das medalhas.

Quando o esporte se tornou refúgio

A entrada de Anna no Kung Fu coincidiu com um período delicado de sua vida. Um ano antes, os pais haviam se divorciado e ela tentava lidar com sentimentos que, naquela época, pareciam difíceis de explicar.

Foi dentro da academia que encontrou um espaço de acolhimento.

“É importante ressaltar que meus pais tinham se divorciado há um ano, então eu me sentia sufocada e desesperada e foi no kung-fu que eu me sentia útil, relaxada e livre”.

O que começou como uma atividade física rapidamente ganhou outro significado.

Mais do que aprender golpes, técnicas ou movimentos, Anna encontrou uma forma de reorganizar emoções e recuperar a confiança em si mesma.

“Creio que isso me fez permanecer. Sempre que eu estava ruim, triste, com raiva, o professor de alguma forma me fazia sentir que eu conseguiria passar pelo problema”.

A relação construída com o esporte ajudou a jovem a atravessar momentos difíceis da adolescência e da vida adulta. Ao longo dos anos, o Kung Fu deixou de ser apenas uma prática esportiva para se transformar em uma ferramenta de fortalecimento emocional.

A arte de levantar depois das quedas

Em uma década de treinos, Anna aprendeu que o esporte nem sempre é sobre vencer.

Há derrotas, frustrações, lesões, dificuldades financeiras e períodos de insegurança. E foi justamente nesses momentos que ela acredita ter vivido seus maiores aprendizados.

“O esporte me mudou muito, principalmente na capacidade de não se abalar, o famoso ‘quicar rápido’. Tudo bem as coisas estarem dando errado, mas o que eu posso fazer de diferente?”.

A atleta afirma que o Kung Fu moldou sua forma de encarar os desafios da vida. “É o que todo esporte traz: respeito, paciência e superar barreiras”.

As barreiras, porém, não foram poucas. Em alguns momentos, a soma das dificuldades fez surgir a vontade de desistir. “Já pensei em desistir algumas vezes por não me achar capaz”.

Mas sempre havia alguém para lembrá-la de que o caminho precisava ser percorrido passo a passo.

“O que não me deixou desistir foi a minha mãe e o professor. Eles me fizeram entender que as coisas não se conseguem pra ontem e sim que eu tenho uma trajetória a ser seguida e tudo é como uma escada, um degrau de cada vez”.

A virada que mudou sua história

Embora acumule conquistas importantes, Anna não aponta um título nacional ou uma convocação como o momento mais marcante de sua carreira.

Sua memória volta para maio de 2023.

Naquele período, ela enfrentava uma sequência de derrotas que abalava sua confiança tanto nas competições da modalidade de Taolu (sequências coreografadas de técnicas de ataque e defesa) quanto de Sanda (sistema oficial de combate de contato total).

“Eu vinha de uma sequência de derrotas e isso me deixava bem abalada”.

Foi então que veio uma competição capaz de mudar completamente sua perspectiva.

“Nessa data eu tive uma virada de chave conquistando 3 medalhas de primeiro lugar”.

A conquista teve um significado especial porque foi a confirmação de que o esforço realizado durante anos continuava valendo a pena.

Outro momento marcante aconteceu fora das competições.

“No ano passado fiz minha primeira graduação em licenciatura em Educação física”.

Para Anna, esporte e educação caminham juntos. Ambos representam oportunidades de crescimento e transformação.

O sonho chamado Seleção Brasileira

Quando a convocação para o Pan-Americano chegou, a reação foi de incredulidade.

“De primeiro momento eu achei que era mentira porque na minha cabeça eu não tinha ido muito bem na seletiva”.

A surpresa logo deu lugar à emoção. “Foi um misto de emoções. Chorei, ri e comemorei muito”.

Vestir a camisa da Seleção Brasileira é algo que ela sonhava desde criança. “É muito gratificante porque isso é um sonho de criança que me mostrou que meu esforço valeu a pena”.

Ao olhar para trás, Anna reconhece que essa conquista não foi construída sozinha.

“Principalmente minha mãe, professor Cezar, Cainan e principalmente a decisão de que eu iria fazer acontecer”.

Uma rotina construída na disciplina

A preparação para o Pan-Americano faz parte de uma rotina intensa.

“Bom, é um pouco corrida. Treino kung-fu três vezes na semana, musculação de segunda a sexta e corrida 2 a 3 vezes na semana”.

A disciplina exigiu escolhas ao longo dos anos.

Enquanto muitos jovens aproveitavam os fins de semana em festas ou eventos sociais, Anna mantinha o foco nos treinos e nos objetivos esportivos.

“Eu não diria que é um sacrifício. Mas a escolha, independentemente do que tem, se é festinha ou feriado, é sempre ir aos treinos, ter uma boa alimentação e dormir bem”.

A definição que ela dá para sua rotina resume bem os últimos anos. “Minha vida é casa, faculdade e treino”.

Entre tantas lições aprendidas, existe uma que considera essencial. “Ser humilde e entender que sempre estamos aprendendo algo novo e que podemos fazer uma coisa de várias formas”.

A luta agora acontece fora dos tatames

Se dentro das competições Anna já provou que pode enfrentar adversários de alto nível, o desafio agora está longe da arena.

Apesar da convocação para representar o Brasil na Argentina, ela ainda precisa arrecadar recursos para custear passagens, hospedagem, alimentação e inscrição no campeonato.

Sem patrocinadores e sem receber Bolsa Atleta, a preparação tem sido acompanhada por uma corrida contra o tempo.

“Eu ainda não tenho nenhum patrocinador e não recebo bolsa atleta, então está sendo bem puxado, ando economizando e estou fazendo uma vaquinha online para ajudar a arrecadar fundos”.

Por isso, ela decidiu pedir ajuda. “Muito obrigada a todos que estão contribuindo com meu sonho de representar o Brasil, irei render excelentes resultados”.

Enquanto busca apoio, Anna continua fazendo o que aprendeu durante toda a vida: seguir em frente, um passo de cada vez. E quando finalmente entrar na arena em Buenos Aires vestindo as cores do Brasil, ela já sabe qual será o pensamento que a acompanhará.

“Bora, Anna, busca o ouro e me divertir muito!”

Como ajudar

Quem quiser contribuir para que Anna Cláudia represente o Brasil no 5º Pan-Americano de Kung Fu pode realizar doações pela campanha online:

Vakinha:
https://www.vakinha.com.br/vaquinha/anna-claudia-rumo-ao-pan-americano

Além das contribuições financeiras, o compartilhamento da campanha nas redes sociais também ajuda a ampliar o alcance da iniciativa e aproximar a atleta do sonho de defender o país em uma competição internacional.

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