Bancos e fintechs ampliam investimentos em segurança, adotam inteligência artificial e endurecem critérios de aprovação diante do crescimento dos golpes financeiros
A explosão das fraudes digitais no Brasil está provocando mudanças profundas no mercado de crédito. Com o aumento das tentativas de golpes financeiros, bancos, fintechs e instituições de pagamento passaram a reforçar mecanismos de segurança, ampliar investimentos em tecnologia e adotar análises mais rigorosas antes de aprovar empréstimos e financiamentos.
O movimento ocorre em um momento de forte digitalização dos serviços financeiros e de crescimento das transações eletrônicas. Embora tenha ampliado o acesso da população ao sistema bancário, a transformação digital também abriu espaço para novas modalidades de fraude, que hoje representam um dos principais desafios do setor.
Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apontam que as tentativas de golpes digitais cresceram de forma acelerada nos últimos anos. Entre os crimes mais recorrentes estão fraudes com identidade sintética, invasão de contas, golpes do falso empréstimo, falsificação de documentos e esquemas de engenharia social, quando criminosos manipulam vítimas para obter informações sigilosas.
Especialistas alertam que os impactos vão além dos prejuízos financeiros diretos. O aumento das fraudes tem levado instituições a rever processos internos, reforçar controles e incorporar novas tecnologias para reduzir riscos.
“O aumento das fraudes obriga as instituições financeiras a revisarem custos operacionais, motores de risco e modelos de concessão. Em muitos casos, até a experiência do cliente é afetada, porque os processos precisam incluir mais camadas de validação e segurança”, afirma Marcelo Alves de Souza, gerente de Prevenção e Combate à Fraude e PLDFT da empresa Bari.
Análise de crédito passa por transformação
Tradicionalmente, a concessão de crédito era baseada principalmente em fatores como renda, histórico financeiro e capacidade de pagamento. Com a evolução dos golpes digitais, porém, as instituições passaram a incorporar novos elementos na análise dos clientes.
Hoje, ferramentas de autenticação em tempo real, biometria, inteligência artificial e monitoramento comportamental são cada vez mais utilizadas para verificar a identidade dos usuários e detectar possíveis tentativas de fraude.
“O modelo tradicional evoluiu. Atualmente, além do risco de inadimplência, as instituições precisam avaliar o risco de fraude digital e de identidade. Isso exige tecnologia cada vez mais sofisticada”, explica Marcelo.
A mudança faz com que a análise de crédito deixe de considerar apenas dados financeiros e passe a avaliar também padrões de comportamento digital, localização, forma de navegação e histórico de interação dos usuários em ambientes online.
Fraudes podem influenciar custo do crédito
O crescimento das fraudes também tem reflexos econômicos para o setor financeiro.
À medida que bancos e fintechs aumentam investimentos em segurança cibernética, monitoramento e prevenção, parte desses custos pode impactar a estrutura das operações de crédito.
Segundo especialistas, embora a relação entre fraudes e juros não seja direta, perdas recorrentes e aumento dos gastos com proteção elevam o custo operacional das instituições.
“Fraudes elevam o custo operacional e o custo do risco das instituições. Em alguma medida, isso pode refletir em juros maiores e em políticas de crédito mais conservadoras”, destaca Marcelo.
Na prática, isso significa que o acesso ao crédito tende a passar por filtros mais sofisticados, especialmente em operações realizadas de forma totalmente digital.
Aprovação mais criteriosa
O endurecimento dos processos não representa necessariamente uma redução na oferta de crédito, mas indica uma mudança na forma como as decisões são tomadas.
As instituições passaram a cruzar um volume muito maior de informações antes de aprovar uma operação, buscando identificar inconsistências, padrões incomuns e sinais de comportamento suspeito.
“Não necessariamente há uma redução generalizada do crédito, mas existe uma análise muito mais sofisticada e criteriosa. O mercado está mais orientado por dados, comportamento e inteligência artificial”, afirma o especialista.
Esse novo cenário tem levado empresas do setor financeiro a investir cada vez mais em sistemas capazes de processar grandes volumes de dados em poucos segundos, reduzindo riscos sem comprometer a agilidade das operações.
Segurança invisível ganha espaço
Um dos principais desafios do mercado é equilibrar proteção contra fraudes e experiência do consumidor.
Processos excessivamente burocráticos podem dificultar a contratação de produtos financeiros e gerar insatisfação entre os clientes. Por isso, instituições têm apostado no conceito de “segurança invisível”, baseado em tecnologias capazes de identificar riscos sem exigir etapas adicionais para a maioria dos usuários.
“Hoje, as ferramentas mais modernas conseguem identificar comportamentos suspeitos automaticamente, deixando validações adicionais apenas para situações consideradas de maior risco”, ressalta Marcelo.
Entre as soluções mais utilizadas estão sistemas que analisam padrões de navegação, velocidade de digitação, geolocalização, dispositivos utilizados e hábitos de acesso para identificar possíveis irregularidades antes da conclusão de uma transação.
Inteligência artificial deve moldar o futuro do crédito
A expectativa do setor é que a inteligência artificial assuma papel cada vez mais relevante tanto na prevenção a fraudes quanto na análise de crédito.
Com o avanço das tecnologias de aprendizado de máquina, as instituições financeiras tendem a combinar informações financeiras tradicionais com dados comportamentais e contextuais para construir avaliações mais precisas sobre cada cliente.
“As próximas transformações devem combinar dados, IA e experiências personalizadas. A tendência é que a análise deixe de ser baseada apenas no histórico financeiro e passe a considerar contexto e comportamento em tempo real”, conclui Marcelo.
O movimento indica que o futuro do crédito será marcado por processos cada vez mais automatizados, personalizados e orientados por dados. Ao mesmo tempo, o combate às fraudes deve continuar no centro das estratégias do setor financeiro, em uma corrida constante para acompanhar a sofisticação crescente dos crimes digitais.
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