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A derrota para a Noruega foi além do placar e despertou um sentimento coletivo que mistura tristeza, expectativa interrompida e um “luto simbólico” pelo fim do sonho do hexacampeonato

A derrota da Seleção Brasileira por 2 a 1 para a Noruega, neste domingo (5), que eliminou o Brasil da Copa do Mundo de 2026 e adiou mais uma vez o sonho do hexacampeonato, deixou um sentimento comum entre milhões de torcedores: a frustração. Para além do resultado em campo, a despedida da competição costuma despertar tristeza, decepção e até uma sensação de vazio, como se um plano esperado há semanas tivesse sido interrompido de forma repentina.

Embora seja um evento esportivo, a Copa do Mundo ocupa um espaço especial no imaginário dos brasileiros. Durante o torneio, famílias e amigos se reúnem para assistir aos jogos, ruas ganham decoração verde e amarela e a expectativa pelo título passa a fazer parte da rotina. Quando a campanha termina, o impacto emocional vai muito além do apito final.

Segundo a psicóloga Vanessa Alves, isso acontece porque o ser humano tende a compartilhar emoções em grupo. Mesmo quem não acompanha futebol durante o restante do ano acaba envolvido pelo clima coletivo criado durante a competição.

“Somos seres sociais e coletivos. Quando nos reunimos para torcer, vibrar e socializar, criamos um sentimento de identificação e pertencimento. É um contágio emocional. Quando ganha, a vibração contagia todo mundo. Quando perde, a tristeza também.”

Além desse sentimento de pertencimento, a especialista explica que a eliminação representa uma quebra de expectativa. À medida que a Seleção avança na competição, os torcedores passam a imaginar os próximos jogos, organizam encontros e alimentam a esperança de ver o Brasil levantar a taça. “Existe uma quebra de expectativa e de idealização. A gente já imaginava assistir ao próximo jogo, torcer novamente. Agora é preciso elaborar esse período em que o Brasil não estará mais na Copa.”

Na psicologia, esse processo pode ser entendido como um “luto simbólico”. Não se trata da perda de uma pessoa, mas da necessidade de lidar com o fim de uma expectativa construída ao longo da competição. Para muitos brasileiros, o sonho do hexa fazia parte dos planos das próximas semanas e, com a eliminação, esse roteiro é interrompido de forma inesperada.

Nem todos, porém, vivenciam essa frustração da mesma maneira. Vanessa explica que a intensidade da reação depende do significado que o futebol ocupa na vida de cada pessoa. Para quem cresceu acompanhando a Seleção, tem lembranças marcadas pelo esporte ou atribui um valor especial ao futebol, a derrota tende a ser mais sentida.

“Para algumas pessoas, o futebol tem um sentido maior. Faz parte da história, das lembranças e da identidade delas. Para outras, é apenas um evento que acontece de quatro em quatro anos. Por isso, cada um reage de um jeito.”

A relação com a Seleção também muda conforme a geração.

Enquanto quem acompanhou o pentacampeonato em 2002 carrega a lembrança de ter visto o Brasil no topo do futebol mundial, crianças e adolescentes de hoje cresceram ouvindo histórias sobre aquela conquista, mas sem vivenciar um título. Para eles, o sonho do hexa sempre foi uma expectativa, nunca uma memória.

De acordo com a psicóloga, essa diferença influencia a forma como o vínculo com a Seleção é construído. “Essa geração vai torcer a partir de uma narrativa, de uma história contada por um tio, por um avô ou por um pai. Não é uma experiência vivida. E aquilo que a gente experiencia consegue sentir muito mais. Então, esse vínculo acaba ficando apoiado na memória de outras pessoas, e não em uma experiência real.”

Mesmo com experiências diferentes entre gerações, a Copa do Mundo ainda preserva uma característica central: a capacidade de reunir pessoas em torno de um mesmo sentimento. Durante o torneio, a torcida cria um objetivo em comum e fortalece um sentimento coletivo que, por alguns dias, supera as diferenças do cotidiano. “A Copa tem um significado construído historicamente. Ela unifica as pessoas. Mesmo em meio às diferenças do dia a dia, no momento de torcer existe um sentimento compartilhado.”

Passada a eliminação, a psicóloga orienta que o mais importante é acolher a frustração em vez de tentar ignorá-la. Conversar sobre o jogo, compartilhar o que sentiu e retomar gradualmente a rotina ajudam a reorganizar as emoções. “A principal ferramenta é o acolhimento. Falar sobre o que aconteceu, entender os sentimentos e seguir com a rotina. Aos poucos, esse luto simbólico vai se reorganizando dentro do torcedor.”

O sonho do hexa terá de esperar mais quatro anos. Até lá, além da reconstrução da Seleção para o próximo ciclo, milhões de brasileiros também encerram mais um capítulo de uma expectativa que, a cada Copa do Mundo, renasce junto com a esperança de voltar a comemorar um título mundial.

*Foto de capa: Ilustração criada com inteligência artificial

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