Especialistas avaliam que novas tarifas devem reduzir a competitividade de setores exportadores, mas não devem provocar mudanças significativas no comércio exterior brasileiro
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve afetar principalmente a indústria exportadora, mas não deve provocar mudanças expressivas na economia do país. A avaliação é de especialistas, que apontam que as novas tarifas atingem apenas uma parcela das exportações brasileiras destinadas ao mercado americano e têm efeito limitado sobre a balança comercial.
Os setores mais impactados serão aqueles que concentram vendas para os Estados Unidos e têm maior dificuldade para encontrar novos mercados. Máquinas, aço, alumínio, calçados, automóveis, equipamentos e produtos de madeira estão entre os segmentos que devem perder competitividade.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que, no primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou US$ 17,4 bilhões para os Estados Unidos e importou US$ 19 bilhões em produtos americanos, encerrando o período com déficit comercial de US$ 1,5 bilhão.
No total, as trocas comerciais entre os dois países somaram US$ 36,4 bilhões entre janeiro e junho, uma queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras recuaram 13%, enquanto as importações caíram 12,5%.
Em junho, as exportações cresceram 3,7% e alcançaram US$ 3,47 bilhões. O resultado, porém, foi impulsionado pela alta de 11% nos preços médios dos produtos, já que o volume embarcado diminuiu 6,6%.
Impacto concentrado
Pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lia Valls afirma que as novas tarifas dificilmente alterarão o desempenho geral da balança comercial brasileira, já que os Estados Unidos representam hoje uma parcela menor das exportações nacionais.
“Alterar o saldo da balança, em termos macroeconômicos, é pouco provável. O nosso grande mercado realmente é a Ásia, principalmente a China. A participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%”, diz.
Segundo a economista, os reflexos devem ser percebidos principalmente por empresas e setores industriais mais dependentes do mercado americano.
“Você pode ter efeitos mais microeconômicos sobre empresas, principalmente dos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados”, enumera.
O presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, também avalia que o tarifaço não deve comprometer o superávit comercial brasileiro.
“O superávit comercial brasileiro é derivado exclusivamente das commodities [bens primários com cotação internacional]. O tarifaço poupou justamente commodities com as quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes”, explica.
Para ele, o maior prejuízo ficará concentrado na indústria de transformação, responsável pela produção de bens de maior valor agregado.
“Nós temos um superávit comercial grande, mas um déficit comercial de manufaturados gigantesco. Esse déficit é que preocupa, porque é o setor manufatureiro que gera emprego no Brasil.”
Castro afirma que as novas barreiras comerciais também podem favorecer concorrentes internacionais.
“Como a sobretaxa atingiu diretamente os produtos manufaturados, abre mercados para outros países que antes não exportavam esses produtos e agora passam a ocupar esse espaço.”
Questão política e possível resposta
Na avaliação de Lia Valls, as tarifas deixaram de seguir apenas critérios econômicos e passaram a incorporar motivações políticas, principalmente porque o Brasil mantém déficit comercial com os Estados Unidos.
“Quando ele [Trump] aumentou para 40%, os argumentos realmente eram muito mais de caráter político. Não tinha muito argumento econômico nessa história”, diz.
Segundo a economista, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação das plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais passaram a ser usados como justificativas para ampliar as sanções comerciais.
O governo federal estuda recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica para responder ao tarifaço, mas os especialistas veem poucas vantagens em uma retaliação.
“O problema é que a gente não tem capacidade de retaliação contra os Estados Unidos. Se você não consegue causar um dano efetivo ao outro, acaba revertendo contra você. O ganho seria pequeno. O caminho é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio”, sugere Lia Valls.
José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária seria pouco eficaz.
“Não acredito em retaliação. O comércio internacional é feito de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece adequada, mas, na prática, é muito difícil implementá-la”, adverte.
Setores afetados
As tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado pelos Estados Unidos para aplicar medidas comerciais unilaterais.
Embora a alíquota-padrão seja de 25%, cerca de 24% dos produtos atingidos passaram a enfrentar tarifas de até 50%, resultado da soma das novas sobretaxas com tributos já existentes.
Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Em contrapartida, aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja ficaram fora da lista de sobretaxas.
*Informações e Imagem: Agência Brasil




















