Substâncias presentes na fumaça do cigarro provocam alterações vasculares e estresse oxidativo e podem comprometer retina, nervo óptico e superfície ocular
Fumar não prejudica apenas os pulmões e o coração. A exposição contínua às substâncias tóxicas do cigarro também pode afetar estruturas responsáveis pela visão e aumentar o risco de doenças oculares capazes de provocar perda visual permanente.
O alerta ganha destaque no Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado neste sábado (29). Segundo o oftalmologista Michel Farah, professor titular de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), o tabagismo interfere na circulação sanguínea e aumenta o chamado estresse oxidativo, processo que pode danificar células e tecidos dos olhos.
“A visão depende de uma circulação sanguínea adequada e de um equilíbrio muito delicado entre oxigenação e funcionamento das células da retina e do nervo óptico. O tabagismo provoca alterações vasculares, favorece o estresse oxidativo e aumenta a exposição desses tecidos a substâncias tóxicas”, explica.
Entre as estruturas afetadas está a retina, tecido localizado no fundo do olho que capta a luz e transforma os estímulos luminosos em sinais enviados ao cérebro.
Tabagismo aumenta risco de degeneração da retina
Uma das regiões mais importantes da retina é a mácula, responsável pela visão central e pela percepção de detalhes. O tabagismo está associado ao aumento do risco de desenvolvimento e progressão da degeneração macular relacionada à idade (DMRI).
A doença pode comprometer atividades cotidianas que exigem visão de precisão, como ler, reconhecer rostos e identificar detalhes.
“A DMRI compromete justamente a região responsável pela visão central e pelos detalhes. O paciente pode apresentar dificuldade para ler, reconhecer rostos ou realizar atividades que exigem precisão visual”, afirma Farah.
Segundo o especialista, o cigarro não é o único fator relacionado à doença, mas está entre os fatores de risco modificáveis mais importantes. Isso significa que abandonar o tabagismo é uma medida que pode contribuir para reduzir a exposição a um dos fatores associados à doença.
Nervo óptico também pode ser afetado
O nervo óptico é responsável por transportar para o cérebro os estímulos visuais captados pelos olhos. Alterações vasculares e metabólicas provocadas pelo tabagismo podem aumentar a vulnerabilidade dessa estrutura.
A preocupação é maior porque o nervo óptico tem capacidade limitada de regeneração. Quando suas fibras são perdidas, a recuperação pode ser difícil ou até impossível.
“O nervo óptico tem uma capacidade limitada de regeneração. Quando há perda de suas fibras, a recuperação pode ser muito difícil ou até impossível”, alerta o oftalmologista.
O risco merece atenção especial entre pessoas que já apresentam outros fatores associados a doenças como o glaucoma, que também pode provocar danos ao nervo óptico.
Cigarro também está relacionado à catarata
Outra doença ocular associada ao tabagismo é a catarata, caracterizada pela perda progressiva da transparência do cristalino, a lente natural do olho.
A exposição prolongada às substâncias presentes na fumaça pode aumentar o estresse oxidativo e contribuir para alterações no cristalino.
“O cristalino é particularmente sensível ao processo de oxidação. A exposição prolongada ao cigarro favorece alterações que podem acelerar a perda de transparência dessa lente”, diz Farah.
A catarata pode causar visão embaçada e redução da qualidade visual, dificultando atividades do cotidiano.
Fumaça irrita os olhos
Os efeitos do cigarro não se restringem às estruturas internas dos olhos. A fumaça também entra em contato diretamente com a superfície ocular e pode provocar irritação.
Entre os sintomas estão ardência, vermelhidão, sensação de areia e ressecamento. A exposição frequente pode agravar manifestações relacionadas à síndrome do olho seco.
O problema pode afetar tanto quem fuma quanto pessoas que permanecem expostas à fumaça do cigarro.
“Os olhos entram em contato direto com a fumaça, e isso provoca uma agressão à superfície ocular. É comum que a pessoa apresente desconforto, sensação de areia nos olhos, ardência e vermelhidão”, afirma o médico.
Doenças podem evoluir sem sintomas
Um dos principais problemas relacionados à saúde ocular é que algumas doenças podem avançar sem provocar alterações perceptíveis nas fases iniciais.
Por isso, uma pessoa pode manter a sensação de que enxerga normalmente enquanto alterações importantes já estão ocorrendo.
“O tabagismo está associado a doenças que podem evoluir de maneira silenciosa. A pessoa pode continuar enxergando aparentemente bem enquanto alterações importantes já estão acontecendo”, afirma Farah.
O acompanhamento oftalmológico periódico pode ajudar a identificar alterações antes que a perda visual se torne significativa, principalmente entre pessoas que apresentam outros fatores de risco.
Parar de fumar protege os olhos
Interromper o tabagismo é uma das principais medidas para reduzir a exposição aos componentes tóxicos do cigarro e proteger a saúde.
Os benefícios de abandonar o hábito não se restringem ao sistema respiratório e cardiovascular. A redução da exposição à fumaça também pode contribuir para preservar a saúde ocular ao longo dos anos.
“Parar de fumar é fundamental, mas também é necessário manter consultas oftalmológicas periódicas, principalmente quando existem outros fatores de risco”, orienta o especialista.
Para Farah, abandonar o hábito é uma medida que beneficia diferentes órgãos e pode ajudar a preservar a visão. “Cuidar da visão começa muito antes de perceber qualquer alteração. Evitar o cigarro é uma escolha que protege diferentes órgãos e também contribui para preservar a capacidade de enxergar”, conclui.



















