Ferramentas de IA podem ajudar a organizar informações, mas regras eleitorais proíbem sistemas de recomendar candidaturas ou votos
A poucos dias do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para 4 de outubro, ferramentas de inteligência artificial (IA) também passaram a ser usadas por eleitores para pesquisar propostas, entender notícias e organizar informações antes do voto.
O uso de chatbots para acessar notícias vem crescendo. Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, 10% dos entrevistados nos 48 mercados pesquisados afirmam utilizar chatbots de IA semanalmente para obter notícias. Entre os usuários, 42% dizem fazer perguntas de acompanhamento, principal forma de uso apontada pelo levantamento. No Brasil, fazer perguntas de acompanhamento também aparece como o uso mais citado.
A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, identificou comportamento semelhante durante a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024. Nas semanas que antecederam a votação, as interações relacionadas a eleições passaram de menos de 0,5% para pouco mais de 1% do uso total de seus produtos. Cerca de dois terços dessas conversas envolviam pedidos para analisar e explicar sistemas políticos, políticas públicas, acontecimentos, questões políticas ou dados eleitorais.
Para João Paulo Batistella, executivo de inovação e especialista em transformação organizacional, o uso da tecnologia durante o período eleitoral pode estar relacionado à busca por informações, sem que a ferramenta substitua a decisão do eleitor.
“A pergunta mais útil talvez não seja ‘em quem devo votar?’, mas ‘o que eu ainda preciso entender antes de decidir?’. A IA pode ajudar a organizar informação, mostrar lacunas e levantar novas perguntas. A escolha continua sendo de quem está votando”, afirma.
Como usar a IA para pesquisar propostas
Com o documento original de uma proposta em mãos, o eleitor pode utilizar uma ferramenta de IA para localizar informações específicas, como o que o texto prevê para áreas de saúde ou segurança, quais são as metas estabelecidas e quais prazos são mencionados.
Também é possível pedir uma explicação em linguagem mais simples ou perguntar quais informações ainda precisam ser verificadas. Nesse caso, a ferramenta é utilizada para organizar a pesquisa, e não para indicar uma escolha eleitoral.
A forma como a pergunta é feita também pode influenciar a resposta. Pesquisas da Anthropic registraram situações em que modelos treinados com feedback humano acompanharam a posição apresentada pelo usuário, inclusive em circunstâncias nas quais isso poderia prejudicar a precisão da resposta.
Por isso, perguntas formuladas para confirmar uma conclusão podem produzir uma resposta diferente daquelas que pedem a identificação de informações que precisam ser verificadas. Em vez de solicitar que a ferramenta demonstre que determinada proposta está errada, por exemplo, o usuário pode pedir que sejam apontados os pontos que precisam de checagem.
O que dizem as regras eleitorais sobre IA
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial nas Eleições 2026. A Resolução nº 23.755/2026 proíbe provedores que ofereçam sistemas de IA de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, campanhas, partidos, federações ou coligações.
A norma também veda que esses sistemas emitam opiniões, indiquem preferência eleitoral ou recomendem voto, direta ou indiretamente.
O TSE também determinou regras para conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por inteligência artificial durante o período eleitoral. Entre as medidas está a exigência de identificação do uso de IA em determinados conteúdos de propaganda.
Informação antes da decisão
Batistella afirma que o uso da inteligência artificial exige atenção à diferença entre organizar informações e receber uma conclusão pronta.
“Uma resposta bem construída pode transmitir mais certeza do que as informações realmente permitem. A IA é mais útil quando ajuda a pessoa a identificar o que precisa verificar, não quando entrega uma conclusão pronta”, afirma.
O uso de chatbots para notícias ainda é complementar para a maioria dos usuários. O Digital News Report 2026 aponta que apenas 1% dos entrevistados nos mercados pesquisados afirma que a IA é sua principal fonte de notícias.
Na reta final das eleições, a ferramenta pode ser utilizada, portanto, para localizar informações, resumir documentos, esclarecer termos e levantar questões para pesquisa. A decisão sobre o voto permanece fora dessas funções.
















