Levantamento aponta que 68,9% dos parlamentares eleitos têm baixo ou muito baixo alinhamento com pautas de clima e meio ambiente
A composição do Congresso Nacional que assumirá em 2027 deverá impor um cenário mais difícil para a agenda ambiental nos próximos quatro anos. Levantamento do Observatório do Clima aponta que 68,9% dos deputados e senadores eleitos para a 58ª Legislatura apresentam baixo ou muito baixo alinhamento com pautas relacionadas à preservação ambiental, mudanças climáticas e conservação dos biomas.
O percentual corresponde a 409 dos 593 parlamentares analisados. Desse total, 201 congressistas, ou 33,8%, foram classificados na faixa de convergência “muito baixa”, enquanto outros 208, equivalentes a 35%, ficaram na categoria “baixa”.
Na outra ponta, apenas 185 parlamentares, ou 31,1%, demonstraram alinhamento considerado bom ou muito bom com a agenda socioambiental. São 52 deputados e senadores na faixa “boa”, correspondente a 8,75%, e 133 na classificação “muito boa”, que reúne 22,4% dos eleitos.
A análise utiliza o Índice de Convergência Ambiental, elaborado a partir da atuação e dos votos dos parlamentares em temas relacionados ao meio ambiente e ao clima. A metodologia considera quatro níveis: muito baixo, para índices entre 0% e 25%; baixo, de 26% a 50%; bom, de 51% a 69%; e muito bom, de 70% a 100%.
Senado terá cenário ainda mais desfavorável
O quadro é mais acentuado no Senado. Dos 81 senadores que integrarão a próxima legislatura, 64, ou 79%, estão nas faixas de baixo ou muito baixo alinhamento com a pauta ambiental.
Apenas 17 senadores, cerca de 21%, foram classificados nas categorias consideradas favoráveis à agenda socioambiental. Doze estão na faixa boa e cinco na muito boa.
O resultado representa uma piora em relação à composição que deixará o Congresso ao fim de 2026. No Senado atual, 58 dos 81 parlamentares, ou 71,6%, estão nas duas faixas de menor convergência. Com a nova composição, serão seis senadores a mais nesse grupo.
Entre os temas avaliados estão medidas de conservação, enfrentamento das mudanças climáticas e adaptação das cidades aos efeitos do aquecimento global.
Câmara também terá maioria distante da pauta
Na Câmara dos Deputados, 345 dos 513 parlamentares eleitos, o equivalente a 67,3%, ficaram nas faixas de baixo ou muito baixo alinhamento ambiental.
Apenas 40 deputados, ou 7,8%, foram classificados na faixa boa. Outros 128, equivalentes a 25%, aparecem na categoria muito boa.
Para o Observatório do Clima, o resultado está relacionado, entre outros fatores, ao avanço de partidos de direita e extrema direita na composição das duas Casas. Segundo a entidade, essas siglas historicamente apresentam índices menores de convergência com propostas de proteção ambiental.
O Partido Liberal (PL), por exemplo, ampliou sua presença no Congresso. A legenda passou de 15 para 28 cadeiras no Senado, enquanto na Câmara avançou de 98 para 121 deputados.
Risco de retrocessos
Para o Observatório do Clima, a nova correlação de forças pode dificultar a aprovação de medidas de proteção ambiental e abrir espaço para mudanças consideradas retrocessos na legislação.
A coordenadora de Políticas Públicas da organização, Suely Araújo, afirma que o cenário pode afetar a atuação dos órgãos ambientais, a proteção das florestas e de outros biomas e políticas relacionadas ao combate às mudanças climáticas.
Segundo ela, entre os riscos estão propostas de anistia a grileiros e o enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e proteção ambiental.
“Este quadro evidencia quatro anos de muito esforço para aqueles que atuam em clima e meio ambiente, e muita preocupação tanto com graves retrocessos quanto com as terríveis consequências disso tudo para a crise climática”, afirmou Araújo.
Como o levantamento foi feito
O levantamento considera o Índice de Convergência Ambiental, que busca medir a proximidade entre a atuação dos parlamentares e as principais pautas de clima e meio ambiente.
Além da plataforma Farol Verde, do Instituto Democracia e Sustentabilidade, foram utilizadas informações oficiais da Câmara dos Deputados, do Senado, de assembleias legislativas e de governos para classificar parlamentares eleitos que ainda não tinham pontuação no índice.
A avaliação leva em conta votações e posicionamentos relacionados à agenda ambiental. O resultado, portanto, não representa uma classificação ideológica geral dos parlamentares, mas especificamente o grau de convergência de suas atuações com políticas de clima e meio ambiente.
A nova composição começará a atuar em 2027 e terá papel decisivo na definição de leis e políticas ambientais durante a 58ª Legislatura, que se estenderá até 2031.
Com informações e imagem da Agência Brasil
















