Elas estão mais presentes no mercado de trabalho, mais escolarizadas, mais qualificadas e também mais dispostas a fazer as malas. Em 2023, o Brasil registrou um recorde histórico de ocupação feminina: 43.380.636 mulheres estavam ativas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad). No segundo trimestre de 2024, a taxa de ocupação feminina chegou a 48,1%, o maior índice já registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Ainda assim, a distância em relação aos homens permanece significativa: eles somam 68,3% de ocupação. A taxa de desemprego também revela desigualdade: 8,6% entre mulheres, contra 5,6% entre homens. Os números apontam avanço, mas também deixam claro que, para muitas brasileiras, trabalhar ainda exige um esforço adicional: provar competência, enfrentar julgamentos e, cada vez mais, deixar a própria casa para buscar oportunidades.
Os setores com maior presença feminina seguem sendo educação, saúde, serviços sociais e comércio. Ao mesmo tempo, cresce a participação em áreas científicas e intelectuais, inclusive nos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. A ampliação de espaços, porém, não elimina barreiras culturais. Entre elas, uma das mais silenciosas: a expectativa de que a mulher permaneça perto da família, mesmo quando o sonho profissional aponta para outro endereço.
No Dia Internacional da Mulher, histórias de quem decidiu partir mostram que sair de casa vai muito além de uma mudança geográfica. É também uma travessia emocional, um processo de ruptura e reconstrução que transforma identidade, relações e a forma como cada mulher passa a enxergar a si mesma.
Recomeçar do zero
A jornalista Isabella Motta sabe exatamente o que isso significa. Em 2023, aceitou uma oportunidade de emprego em Joinville, Santa Catarina, onde morou por quase dois anos. A decisão não estava totalmente desenhada no papel, mas já vinha sendo amadurecida internamente.


“Não foi exatamente planejado, mas também não foi por acaso. Eu já sentia que era hora de mudar de cidade, então enviei meu currículo para várias emissoras. Três retornaram, escolhi a de Santa Catarina e, em apenas duas semanas, precisei reorganizar tudo para começar essa nova fase”.
Filha única, ela enfrentou a resistência inicial dos pais. A mudança não impactava apenas a própria rotina, mas também a dinâmica familiar.
“No início foi difícil. Como sou filha única, a notícia pegou meus pais de surpresa e eles sentiram bastante. Levou um tempo até aceitarem, mas, quando entenderam que era um passo importante para a minha trajetória, se tornaram meus maiores apoiadores e estiveram comigo até na mudança”.
A motivação era clara: crescimento e desafio. “O que me motivou foi a vontade de crescer profissionalmente e me desafiar em um ambiente novo. Eu sentia que precisava sair da zona de conforto para evoluir e ampliar minha visão de mundo”.
Mas o entusiasmo profissional dividiu espaço com o peso emocional do recomeço. Sair do lugar onde se é conhecida, reconhecida e acolhida exige reaprender a existir.
“O mais difícil foi o começo. Chegar em uma cidade nova, sem rede de apoio, tendo que provar meu trabalho todos os dias. A solidão pesa no início. Você sai do lugar onde todo mundo te conhece para recomeçar do zero. Profissionalmente eu estava animada, mas emocionalmente foi desafiador”.
Ela admite que o medo esteve presente e que a culpa também apareceu — um sentimento ainda comum quando mulheres decidem priorizar a própria trajetória.
“Medo, sim. Culpa também. Medo do desconhecido, de não dar conta, de fracassar. Culpa por deixar meus pais, principalmente por ser filha única. Mas eu entendia que crescer também exigia coragem. Não dava para esperar me sentir 100% pronta”.
Desistir nunca foi uma opção concreta, mas houve dias difíceis. O que fez diferença foi saber que existia um porto seguro.
“Eu tinha uma segurança muito importante: mesmo que eu decidisse voltar, eu sabia que teria um lugar para retornar. Ter essa base, esse porto seguro, fez toda a diferença. Não era sobre fugir se desse errado, mas sobre ter coragem para tentar sabendo que eu não estava sozinha no mundo”.
Além dos desafios práticos e emocionais, há também o julgamento social, muitas vezes sutil, mas constante.
“Muitas vezes esperam que a mulher priorize ficar perto da família, ou que pense duas vezes antes de arriscar. Quando é o homem, a mudança costuma ser vista como coragem e ambição. Quando é a mulher, às vezes vem acompanhada de questionamentos. Mas eu sempre enxerguei como autonomia. Crescer não deveria ter gênero”.
Hoje, ao olhar para trás, Isabella reconhece a transformação.
“Valeu cada segundo. Porque eu voltei diferente. Mais madura, mais preparada, mais segura. Eu provei para mim mesma que sou capaz de começar do zero e construir meu espaço. Isso ninguém tira”.
E deixa um recado que mistura responsabilidade e ousadia.
“Não espere se sentir totalmente pronta, porque isso quase nunca acontece. Se planeje, tenha responsabilidade, organize seus passos. Mas não deixe o medo paralisar seus sonhos. Crescer dói um pouco, mas ficar parada dói muito mais”.
Entre raízes e escolhas
A jornalista Victória Amorim também conhece bem o processo de sair da cidade natal para construir uma trajetória própria. Natural de Andradina, no interior de São Paulo, próxima à divisa com Mato Grosso do Sul, ela se mudou para Campo Grande ainda jovem em busca de oportunidades acadêmicas e profissionais.


A mudança aconteceu em 2020, em meio à pandemia. O plano inicial acabou sendo atravessado pelas incertezas daquele período, que a fizeram voltar temporariamente para casa, mas sem desfazer completamente a vida que começava a construir na nova cidade.
A decisão de sair do interior, porém, não surgiu de forma repentina. Desde cedo, Victória sentia que buscava um estilo de vida diferente daquele oferecido pela cidade onde cresceu.
“Eu sempre quis sair da minha cidade, sempre me imaginei morando numa cidade grande, descobrindo coisas legais, trabalhando, conhecendo muitas pessoas, tendo uma rotina não necessariamente agitada, mas com mais opções. Então isso sempre foi uma vontade, desde novinha”.
A busca por novas experiências também estava ligada à profissão que escolheu. Para quem trabalha com comunicação, as oportunidades no interior são mais limitadas. “Para a minha profissão, para o que eu sonhava em ser, para o que eu sou hoje, não é um bom lugar para conseguir oportunidades, é pequeno o leque”.
A família teve papel decisivo para que a mudança acontecesse. Mesmo com a saudade e algumas inseguranças, o incentivo foi fundamental. “Tive apoio da minha família, sim. A minha mãe, sempre me incentivou a estudar então, consequentemente, a descobrir coisas novas, a fazer o que eu gosto, a conquistar as minhas coisas”.
A distância, no entanto, trouxe desafios emocionais que aparecem principalmente nas pequenas rotinas do cotidiano, aquelas que muitas vezes passam despercebidas quando ainda se vive perto de casa.
“Eu acho que o mais difícil é quando tem o dia-a-dia, vou dizer o dia-a-dia assim do final de semana. Eu vim de uma família que sempre almoçou junto e isso pra mim faz muita falta”.
Apesar da saudade, a experiência também trouxe descobertas importantes sobre autonomia e independência. “Valeu muita pena. Além de toda essa independência e funcionalidade que eu adquiri na minha vida, eu gosto muito, eu sou feliz, eu gosto de ter meu espaço, gosto de decidir o que eu vou fazer, a hora que eu vou fazer, como eu vou fazer”.
O processo de morar sozinha também exigiu aprender responsabilidades que antes eram compartilhadas dentro de casa. “Quando eu cheguei aqui eu tive que aprender a fazer as comidas ou a conseguir meu próprio dinheiro pra poder pedir o que eu gosto, tive que aprender a deixar as minhas coisas organizadas de um jeito que eu me encontre”.
Ao longo do caminho, também surgiram momentos de dúvida e preocupação, especialmente quando a família enfrentou problemas de saúde.
“Em alguns momentos eu me senti com um pouco de peso na consciência, em dúvida se eu deveria fazer isso, mas pelo incentivo que eu sempre recebi da minha família esse peso na consciência não venceu”.
Hoje, Victória reconhece que a experiência transformou profundamente sua forma de viver e enxergar a própria autonomia.
Crescer também é um ato de autonomia
Para Inayá Sá Medeiros, coordenadora regional de Gente e Gestão de uma rede atacadista, a mudança também está ligada a propósito. Em processo de mudança para Joinville, em Santa Catarina, ela encara a saída como parte de um projeto maior de desenvolvimento.

“Sou movida a desafios e propósito. A oportunidade representava não apenas crescimento profissional, mas também um grande desenvolvimento pessoal. Essa possibilidade de evolução foi a minha maior motivação”.
Diferentemente de Isabella, Inayá já morava sozinha, o que torna a transição mais logística do que estrutural. Ainda assim, toda mudança mexe com vínculos, rotina e identidade.
“Toda mudança que nos tira da zona de conforto gera desconforto. O mais difícil é deixar minha família e seguir sabendo que, em muitos momentos, o processo pode ser solitário. Ao mesmo tempo, é uma experiência de grande amadurecimento e desenvolvimento”.
Ela reconhece o medo como parte natural do processo, mas não a culpa.
“Medo, sim, do novo e de tudo o que vem junto com um desafio maior. Culpa, não. Em nenhum momento. O que sinto é preocupação com quem fica, mas também a certeza de que estou fazendo uma escolha consciente”.
Para Inayá, o julgamento social tem perdido força ao longo dos anos.
“Acredito que hoje essa já não é uma questão tão presente quanto antes. O mundo mudou, e nós, mulheres, estamos cada vez mais ocupando nossos espaços com competência e protagonismo”.
Ainda assim, relatos mostram que a expectativa de proximidade familiar não desapareceu, apenas se tornou mais sutil. Muitas vezes, a mulher que parte carrega não só malas, mas também a necessidade constante de explicar sua decisão.
Do outro lado do oceano
Do outro lado do oceano está Bruna Pazinatto, farmacêutica magistral que deixou o Brasil e se mudou para Portugal há dois anos, com seu companheiro. Imigrar, nesse caso, significou atravessar não apenas quilômetros, mas referências culturais, afetivas e profissionais.


“Nós queríamos ter novas experiências, sair da rotina e viver algo diferente. Aprender coisas novas”.
“Foi mais planejada do que inesperada. Pensamos muito, estudamos as possibilidades e resolvemos”.
Planejamento não anula o impacto emocional. O apoio da família veio acompanhado de sentimentos mistos. “Sim, tive apoio, mas com aquele mix de empolgação e preocupação. Saber que a minha família acreditava em mim me deu muita força”.
A despedida no aeroporto marcou o início real da travessia. “Sem dúvida, os primeiros meses e a despedida no aeroporto. É estranho deixar tudo que você conhece para trás, mesmo sabendo que é para crescer. Conhecer uma nova cultura, um novo método de trabalho, tudo é muito complexo no início”.
A complexidade não está apenas no ambiente profissional, mas também na sensação de recomeçar sem a rede habitual de apoio. Medo e culpa caminharam juntos. “Senti os dois. Medo do desconhecido, culpa por deixar a família e perder momentos importantes”.
Nos primeiros meses, a dúvida apareceu. “Confesso que pensei: ‘Será que fiz a escolha certa?’ Um mundo novo, pessoas desconhecidas. Mas até esse momento desistir nunca foi maior do que o propósito que me trouxe até aqui”.
A adaptação exigiu resiliência emocional. “Dá saudade, a gente se sente sozinho às vezes e tem que amadurecer rápido. Descobri que sou mais forte do que imaginava”.
Ela também reconhece que o julgamento ainda existe.“Muitas vezes a expectativa é que a mulher fique perto da família. Mas cada vez mais estamos mostrando que podemos ser tudo o que quisermos”.
Bruna afirma que a experiência tem sido válida. “Valeu, sim. Cresci profissionalmente, como mulher, como pessoa. Aprendi novos métodos, novas culturas. Provar para si mesma que dá conta de qualquer desafio não tem preço”.
O conselho é direto e realista. “Se planeje, sim, mas não deixe o medo te travar. Coragem não é não ter medo, é seguir em frente mesmo com ele”.
Independência que transforma
Se os números do IBGE apontam avanço na ocupação feminina, as histórias revelam o que as estatísticas não captam: a solidão do primeiro fim de semana sozinha, o silêncio do apartamento novo, o medo antes do primeiro dia de trabalho, a força descoberta na necessidade.
Isabella resume o aprendizado. “Ninguém me contou que a gente amadurece na marra. Que você aprende a resolver tudo sozinha, de burocracia a crises emocionais. Que a independência é libertadora, mas também exige responsabilidade emocional. E que, no fim, você volta diferente: mais forte, mais segura e muito mais consciente do seu próprio valor”.
No Brasil de 2026, as mulheres não apenas ocupam mais vagas, ocupam também novos territórios, físicos e simbólicos. Saem de casa não por ruptura, mas por expansão. Não por ausência de raízes, mas por desejo de crescimento.
No Dia da Mulher, talvez seja esse o retrato mais fiel da transformação feminina no mercado de trabalho: não apenas a presença nos números, mas a coragem de atravessar distâncias para construir o próprio caminho.
Foto de capa: Freepik






















