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Todos os dias repetimos um gesto quase automático: colocamos o lixo para fora e seguimos com a rotina. É um movimento simples, rápido, quase sem reflexão. Mas, com o tempo, comecei a me perguntar o que acontece depois que o caminhão passa. Para onde vai tudo aquilo que deixamos na porta de casa? Em que momento aquilo que chamamos de lixo deixa de ser um problema individual e passa a se tornar uma questão coletiva?

Foi olhando para esse caminho que percebi como a sustentabilidade está muito mais próxima da nossa vida do que costumamos admitir. O lixo não desaparece. Ele apenas muda de lugar. E, nesse percurso, existe uma estrutura inteira que envolve coleta, transporte, triagem e destinação final. Existe também custo, impacto ambiental e, ao mesmo tempo, oportunidade.

A forma como descartamos resíduos dentro de casa tem consequências diretas fora dela. Quando misturamos tudo, aquilo que poderia ser reciclado perde valor. O que poderia gerar renda se transforma em custo. O que poderia voltar para a cadeia produtiva passa a ocupar espaço em aterros. Pequenas decisões, que parecem irrelevantes no cotidiano, acabam produzindo efeitos muito maiores do que imaginamos. E, talvez, o ponto mais incômodo seja reconhecer que aquilo que descartamos não deixa de existir, apenas deixa de estar diante dos nossos olhos.

Talvez seja nesse momento que a sustentabilidade deixe de ser um conceito distante e passe a fazer sentido. Não como um discurso amplo, mas como algo que se revela nas escolhas mais simples. Separar o lixo, por exemplo, não é apenas uma orientação ambiental. É também uma forma de viabilizar o trabalho de cooperativas, de reconhecer uma atividade econômica que existe a partir daquilo que descartamos e de reduzir impactos que, cedo ou tarde, retornam para todos nós.

Há ainda um aspecto que me parece impossível ignorar. Quando falamos de resíduos, falamos também de pessoas. Milhares de trabalhadores encontram na coleta e na reciclagem uma forma de sustento. São eles que, muitas vezes, fazem o trabalho que a cidade não vê, mas do qual depende. Pensar sustentabilidade sem considerar essa dimensão social é, de alguma forma, olhar apenas parte do problema.

Ao mesmo tempo, é evidente que o poder público tem um papel central nessa organização. A forma como a cidade estrutura a coleta, incentiva a reciclagem e investe em educação ambiental influencia diretamente os resultados. Mas nenhuma política funciona de forma isolada. Existe sempre um ponto de encontro entre decisão pública e comportamento individual.

Talvez seja por isso que voltar o olhar para aquilo que descartamos seja um bom começo. Não porque a responsabilidade seja apenas do cidadão, mas porque é ali que o tema se torna concreto. É ali que conseguimos perceber que aquilo que parece pequeno, quando repetido todos os dias, ganha outra dimensão.

No fim, a pergunta continua simples, mas já não é tão confortável: o que estamos fazendo com aquilo que deixamos para trás? Porque aquilo que descartamos não desaparece, apenas encontra outros caminhos, e, mais cedo ou mais tarde, acaba voltando para todos nós.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

Foto de Veridyana Fantinato

Veridyana Fantinato

Advogada e contadora, mestranda em Direito Público pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e MBA em Agronegócio pela USP/Esalq. Possui especialização em Direito Público, Licitações e Contratos Administrativos e mais de 20 anos de experiência na área pública. Dedica-se ao estudo da sustentabilidade, da governança e das políticas públicas. | @veridyanafantinato

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