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Presidente executiva do Sistema OCB, ela defende mais acesso, formação e mudança cultural para ampliar presença feminina nos espaços de decisão

No mês em que se celebra a luta e as conquistas das mulheres, histórias de liderança ajudam a dimensionar avanços e desafios ainda persistentes. À frente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), Tania Zanella construiu uma trajetória que começa no campo e chega aos principais espaços de decisão do cooperativismo e do agronegócio no país.

A origem dessa caminhada está na infância, em um ambiente onde a cooperação não era conceito, mas prática cotidiana. “Minha conexão com o cooperativismo vem de muito cedo, da realidade em que cresci. Venho de uma família e de uma comunidade onde a cooperação era parte da rotina, especialmente no meio rural, onde ninguém faz nada sozinho” afirma.

Segundo ela, as experiências vividas nesse contexto foram determinantes para moldar sua visão de mundo. “Essa vivência me mostrou, ainda criança, que a cooperação não era apenas uma escolha, era uma necessidade que fortalecia a todos”. Ao observar vizinhos compartilhando equipamentos, conhecimento e trabalho, Tania afirma que passou a entender, ainda cedo, o poder da ação coletiva.

Essa percepção acompanhou sua trajetória profissional e se consolidou ao longo dos 17 anos no Sistema OCB. Nesse período, enfrentou desafios que, segundo ela, foram decisivos para sua formação como líder. “Os mais transformadores foram aqueles em que precisávamos tomar decisões estratégicas em cenários de grande incerteza”.

Mais do que questões técnicas, ela destaca o fator humano como central nesses momentos. “O desafio não era apenas técnico, era humano: alinhar expectativas, construir consensos e manter o propósito claro” diz. A experiência, segundo ela, reforçou a importância da escuta e do diálogo. “Aprendi que decisões mais sustentáveis são aquelas que nascem do diálogo e da confiança”.

Barreiras persistem, apesar dos avanços

Primeira mulher a ocupar cargos estratégicos dentro do Sistema OCB, Tania reconhece que o caminho ainda não é igual para todas. Embora haja avanços, ela aponta a existência de barreiras muitas vezes silenciosas.

“Não estamos falando apenas de acesso formal aos espaços, mas de condições reais de permanência e ascensão” afirma. Entre os desafios, ela cita o menor acesso a redes de influência e a necessidade constante de provar competência. Ainda assim, observa mudanças em curso. “Cada vez mais mulheres estão assumindo protagonismo, trazendo uma liderança colaborativa, estratégica e muito conectada com as transformações que o setor precisa viver”.

No cooperativismo, os próprios princípios do modelo criam um ambiente potencialmente mais favorável à inclusão. “O cooperativismo tem, sim, uma base muito favorável à liderança feminina, porque seus princípios estimulam participação, equidade e gestão democrática” afirma.

Mas ela faz uma ressalva: valores, por si só, não garantem transformação. “Quando há intencionalidade, com programas de formação, incentivo à participação e abertura de espaços, o avanço acontece de forma muito mais consistente”.

Dentro do Sistema OCB, iniciativas como o comitê “Elas pelo Coop” e programas de formação buscam justamente ampliar a presença feminina em cargos estratégicos e de decisão.

Equilíbrio em um setor diverso

Além da atuação no cooperativismo, Tania também preside o Instituto Pensar Agropecuária, onde representa dezenas de entidades do setor. Em um ambiente marcado pela diversidade de interesses, ela afirma que o principal desafio é construir convergência.

“O agro é, por natureza, diverso. Reúne diferentes cadeias produtivas, realidades regionais e modelos de negócio” afirma. Para ela, o caminho está no diálogo. “Esse equilíbrio passa por escuta qualificada, diálogo constante e foco no que nos une”.

A identificação de pautas comuns, como segurança jurídica, acesso a crédito e sustentabilidade, é o que permite avançar. “Não se trata de eliminar diferenças, mas de organizar essas diferenças em torno de objetivos estratégicos para o país” afirma.

Desenvolvimento com impacto social

Em um cenário de transformações no agronegócio, Tania defende o cooperativismo como ferramenta estratégica para o desenvolvimento sustentável. Segundo ela, o modelo combina eficiência econômica com impacto social.

“Na prática, isso significa levar desenvolvimento para regiões onde, muitas vezes, outros modelos não chegam” afirma. Ela destaca que as cooperativas geram renda, fortalecem comunidades e incentivam práticas sustentáveis. “Esse é um diferencial importante: o desenvolvimento não se concentra, ele se distribui”.

Reconhecimento e responsabilidade

O reconhecimento veio também fora das instituições. Tania foi destacada pela revista Forbes como uma das mulheres mais poderosas do agro, um título que, segundo ela, carrega significado coletivo.

“Recebo esse reconhecimento com muita responsabilidade. Ele representa uma trajetória construída coletivamente e reflete o avanço das mulheres no cooperativismo e no agro” afirma. Para ela, mais importante do que o prêmio é o que ele simboliza. “Cada conquista abre caminho para outras mulheres”.

O que ainda precisa mudar

Apesar dos avanços, Tania defende que ainda há um caminho a percorrer. Para ampliar a presença feminina nos espaços de decisão, ela aponta três pilares: acesso, formação e mudança cultural.

“É fundamental ampliar o acesso das mulheres aos espaços de decisão, investir em capacitação e, principalmente, transformar a cultura organizacional para que ela seja, de fato, inclusiva” afirma.

Para as jovens que desejam seguir carreira de liderança, o conselho é direto. “O primeiro ponto é acreditar na própria capacidade” diz. Ela chama atenção para um comportamento recorrente. “Muitas vezes, as mulheres se preparam muito mais antes de se sentirem prontas, enquanto oportunidades passam”.

Legado para o futuro

Ao olhar para o futuro, Tania Zanella afirma que seu principal objetivo é contribuir para um cenário em que a presença feminina na liderança seja natural, e não exceção.

“Gostaria de contribuir para um ambiente em que as mulheres não sejam exceção em espaços de liderança, mas parte natural deles” afirma. “Se puder deixar um legado, que seja o de ajudar a abrir caminhos e fortalecer estruturas para que as próximas gerações avancem ainda mais”, conclui.

No mês das mulheres, sua trajetória sintetiza um movimento mais amplo: o de transformar experiências individuais em mudanças coletivas e abrir espaço para que outras histórias também possam ser contadas.

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