Na última sexta-feira, 13 de março, em Ponta Porã houve inauguração do Parque Tecnológico Internacional (PTIn) e do Centro de Cultura, Empreendedorismo, Inovação e Memória do Tereré (CEIMPP). O novo complexo conta com uma estrutura de mais de 1.600 metros quadrados e foi planejado para funcionar como um ambiente estratégico de inovação, capaz de transformar ideias em negócios escaláveis e fortalecer o desenvolvimento econômico e tecnológico da região de fronteira entre Brasil e Paraguai.
Ao mesmo tempo, nos dias 12 e 13, acontecia no mesmo espaço o 1º Encontro Estadual dos Ecossistemas de Inovação de Mato Grosso do Sul. Representantes dos 12 ecossistemas de inovação do estado se reuniram para debater medidas que potencializem essas iniciativas para todo o Mato Grosso do Sul, representando as cidades de Corumbá, Aquidauana, Jardim, Campo Grande, Três Lagoas, Chapadão do Sul, Paranaíba, Maracaju, Naviraí, Dourados, Ponta Porã e Nova Andradina.
O que são ecossistemas de inovação?
Antes de qualquer análise, vale precisar o conceito. Conforme o Marco Legal de CTI, ecossistemas de inovação são espaços que agregam infraestrutura e arranjos institucionais e culturais, que atraem empreendedores e recursos financeiros, constituindo-se em lugares que potencializam o desenvolvimento da sociedade do conhecimento, compreendendo, entre outros, parques científicos e tecnológicos, cidades inteligentes, distritos de inovação e polos tecnológicos.
A metáfora biológica é sedutora, mas a literatura científica nos alerta contra levá-la longe demais. Pesquisadores observam que ecossistemas de inovação são desenhados, projetados, arquitetados e construídos, além de terem um propósito, diferente dos ecossistemas da natureza, que emergem sem planejamento deliberado. Essa distinção importa: significa que escolhas políticas, de governança e de protagonismo determinam se um ecossistema prospera ou murcha.
O que a ciência diz sobre os fatores de sucesso
A literatura internacional e brasileira sobre o tema tem avançado consideravelmente. Entre os fatores de sucesso identificados pela pesquisa estão: talento, densidade de pesquisadores, empreendedores e instituições facilitadoras, cultura empreendedora, acesso a capital e ambiente regulatório apoiador.
Mas há uma advertência importante das pesquisas mais recentes. Um estudo publicado no Journal of Technology Transfer, conduzido por pesquisadores da FGV EAESP e de universidades internacionais, mostrou que não existe uma fórmula única para o sucesso de ecossistemas empreendedores. Cada localidade desenvolve seus próprios mecanismos de inovação, influenciados por fatores históricos, culturais e econômicos. Os autores propõem um modelo que integra dimensões micro, meso e macro, dos empreendedores ao contexto histórico-espacial. E concluem que copiar modelos internacionais, como o Vale do Silício, pode ser ineficaz se ignorar as especificidades locais.
Essa é uma advertência que deveria estar impressa em qualquer plano estratégico de CTI no Brasil, especialmente nos estados.
Outro estudo relevante, publicado na Revista Produção Online, realizou uma meta-síntese da participação de universidades nos ecossistemas de inovação brasileiros. Os resultados identificam os fatores críticos de sucesso para participação de universidades em ecossistemas de inovação, mapeando relações de causa e efeito entre os estudos, uma contribuição que, até então, não havia sido sistematizada na literatura.
Pesquisas sobre incubadoras reforçam o mesmo ponto, mostrando que processos de fragmentação normativa, descontinuidade administrativa e erosão dos vínculos institucionais tendem a desestruturar a conformação dos ecossistemas, produzindo trajetórias de declínio, ao passo que modelos capazes de reorganizar essas dimensões apresentam maior sustentabilidade ao longo do tempo. Em outras palavras: instabilidade governamental e disputas político-institucionais são inimigos silenciosos dos ecossistemas.
Exemplos que inspiram e ensinam
O mais conhecido referencial global é o Vale do Silício. O empreendedorismo está enraizado na cultura da região, considerando que as 50 empresas mais inovadoras do planeta estão instaladas nesse local, sede dos gigantes Facebook, Google e Apple, além de abrigar duas das mais importantes universidades do mundo: Stanford e a Universidade da Califórnia.
No Brasil, o caso mais emblemático é o Porto Digital, em Recife. O polo reúne mais de 250 empresas de diversos portes, gerando cerca de R$ 1 bilhão anualmente. A combinação de empresas de tecnologia, startups, centros de pesquisa, universidades e a Prefeitura do Recife faz com que ele se destaque como polo de referência em inovação no Brasil.
Florianópolis é outro exemplo de como a criação de ambientes colaborativos pode formar um ecossistema de inovação sólido, chegando à segunda colocação entre as cidades inteligentes do Brasil. Já em Campinas, a presença da Unicamp, um centro de educação de renome, atraiu outros centros de pesquisa de importância nacional, formando um vigoroso polo de projetos inovadores.
O que todos esses casos têm em comum? Nasceram a partir de vocações locais genuínas, com comunidades engajadas, e o Estado atuou como facilitador, não como protagonista exclusivo.
O papel de cada ator: uma divisão que precisa ser honrada
Um ecossistema de inovação inclui universidades, governo, corporações, aceleradoras de startups, capitalistas de risco, investidores privados, fundações, empreendedores, mentores e a mídia. Entidades locais, estaduais e federais podem e devem desempenhar um papel no desenvolvimento do ecossistema.
Mas qual é, afinal, o papel específico de cada ator?
Ao Estado cabe criar o ambiente jurídico-regulatório favorável, aportar recursos iniciais de fomento, articular políticas públicas de médio e longo prazo, sem capturar a governança. O governo é um indutor, não um gestor. Quando o Estado confunde os dois papéis, sufoca o que deveria animar.
Aos municípios cabe o protagonismo da agenda local: identificar as vocações territoriais, mobilizar atores, garantir infraestrutura e abrir espaço institucional para que as comunidades inovadoras se organizem. Ponta Porã merece crédito por ter feito exatamente isso. O prefeito Eduardo Campos ressaltou que o complexo foi concebido para aproximar universidades, setor produtivo, poder público e sociedade, estimulando a pesquisa, o empreendedorismo e a atração de investimentos para a região.
À academia cabe ser o motor intelectual do sistema, não apenas produzir ciência para publicações, mas conectar conhecimento às demandas reais do território. Há vários atores que participam de um ecossistema de inovação, entre eles as universidades empreendedoras. Mas os modelos de implementação dessa universidade empreendedora são ainda incompletos no Brasil, e há muito a avançar.
Às comunidades locais cabe o mais fundamental de tudo: a energia que nenhum edital substitui. Empreendedores, articuladores, mentores informais, lideranças civis, são eles que dão vida ao ecossistema. Sem protagonismo comunitário, excesso de protagonismo pessoal, ausência de pluralismo de pensamento e livre debate, bem como metodologias inflexíveis, restam estruturas físicas esperando visitas.
Mato Grosso do Sul tem a vocação da inovação
O 1º Encontro Estadual dos Ecossistemas de Inovação de MS foi uma iniciativa louvável. Reunir doze grupos municipais para trocar experiências e alinhar estratégias é exatamente o tipo de articulação que faz diferença, onde é possível a troca de experiências entre os ecossistemas e um alinhamento para atuação conjunta. Desta forma os ecossistemas de inovação não florescem sob tutela, mas sob orientação e colaboração.
A grande notícia é que Mato Grosso do Sul tem o que precisa: vocação agropecuária e agroindustrial genuína, instituições de ensino distribuídas pelo território, uma rede crescente de ecossistemas municipais, e uma geração de empreendedores ansiosa por espaço e apoio. Com a inauguração, o PTIn passa a integrar o conjunto de iniciativas voltadas à inovação e ao empreendedorismo em Mato Grosso do Sul, fortalecendo a integração regional e abrindo novas oportunidades para startups, pesquisadores, estudantes e empresários da região de fronteira.
O desafio agora é de maturidade institucional: que o Estado continue avançando e aprimorando o ambiente jurídico-regulatório e suas políticas de CT&I. Que os municípios assumam suas vocações, reconhecendo as estratégias nacionais e estaduais, mas sem esperar que definam o que devem inovar. Que as universidades saiam dos muros, criem mais conexões com a sociedade e mercado. E que as comunidades locais percebam que o ecossistema de inovação não é um projeto dos governos, é um projeto delas.

















