Em uma rotina cada vez mais dominada por celulares, tablets e estímulos digitais, especialistas em educação alertam para a importância de garantir tempo, espaço e liberdade para que as crianças simplesmente brinquem. Celebrada entre os dias 23 e 31 de maio, a Semana Mundial do Brincar chega em 2026 com o tema “A Potência dos Encontros” e propõe uma reflexão sobre o impacto do brincar no desenvolvimento infantil.
A mobilização reúne escolas, famílias, organizações sociais e espaços públicos em diversos países em torno de atividades lúdicas e debates sobre infância, convivência e saúde emocional. Criada em 1999 pela International Play Association, a iniciativa é promovida no Brasil desde 2010 pela Aliança pela Infância.
Mais do que entretenimento, o brincar é reconhecido internacionalmente como um direito da criança. O artigo 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas, estabelece o direito ao descanso, ao lazer e às brincadeiras. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente também prevê o brincar como parte essencial do desenvolvimento saudável.
Brincadeira ajuda no aprendizado e nas relações sociais
Especialistas afirmam que a brincadeira é uma das principais ferramentas de aprendizagem na infância. Por meio dela, crianças desenvolvem criatividade, autonomia, linguagem, raciocínio lógico e habilidades socioemocionais.
Segundo Jacqueline Cappellano, psicopedagoga e coordenadora da Educação Infantil da Escola Internacional de Alphaville, brincar é uma forma natural de experimentar o mundo.
“Ao brincar, a criança organiza o pensamento, cria hipóteses, testa soluções e desenvolve habilidades cognitivas importantes, como atenção, memória e raciocínio lógico. É uma forma natural e potente de aprender”, afirma.
Ela explica que a brincadeira favorece o engajamento ativo e ajuda a consolidar o aprendizado na memória de longo prazo. Jogos, construções e atividades simbólicas também estimulam a resolução de problemas e o planejamento.
Além dos ganhos cognitivos, o brincar exerce papel importante na saúde emocional. Para Cláudia Andreazza, coordenadora pedagógica do Colégio Progresso Bilíngue, a brincadeira funciona como uma espécie de linguagem da infância.
“É brincando que a criança comunica emoções, reproduz situações do cotidiano e encontra formas de compreender o mundo ao seu redor. Esse processo contribui diretamente para o desenvolvimento socioemocional”, diz.
Segundo a educadora, atividades como faz de conta, jogos coletivos e brincadeiras simbólicas ajudam a criança a lidar com sentimentos, regras, frustrações e convivência em grupo.
Especialistas alertam para excesso de telas
O avanço do uso de dispositivos eletrônicos entre crianças pequenas também aparece no centro do debate da Semana Mundial do Brincar. Educadores afirmam que o excesso de telas já produz reflexos perceptíveis no comportamento e no desenvolvimento infantil.
Para Renata Alonso, coordenadora pedagógica da Escola Bilíngue Aubrick, famílias e escolas têm observado mudanças importantes relacionadas à hiperexposição digital.
“Famílias e escolas já têm sentido, na prática, os impactos do excesso de exposição às telas no dia a dia das crianças. Entre os sinais mais percebidos estão a dificuldade de concentração, a irritabilidade, a menor tolerância à frustração, atrasos no desenvolvimento da linguagem, prejuízos na socialização e até mais resistência para participar de atividades que exigem interação, movimento ou criatividade”, afirma.
Ela ressalta que a tecnologia pode fazer parte da rotina infantil de forma equilibrada e mediada, mas alerta que o excesso reduz experiências fundamentais para o desenvolvimento.
“Nesse contexto, resgatar o brincar livre é essencial. É a partir do faz de conta que a criança elabora sentimentos, expressa emoções e organiza sua compreensão sobre o mundo de forma simbólica e segura”, destaca.
Participação da família é decisiva
Especialistas também defendem que o incentivo ao brincar depende da participação ativa de pais, responsáveis e educadores. Em meio à rotina acelerada e ao excesso de compromissos, o tempo livre das crianças tem diminuído.
Para Beatriz Martins, coordenadora pedagógica do Brazilian International School, é necessário que adultos reconheçam o brincar como parte essencial do desenvolvimento infantil.
“Em meio à correria do dia a dia e ao excesso de compromissos, as crianças têm pouco tempo para brincar livremente e menos momentos de conexão genuína com os adultos. Por isso, é fundamental que pais, responsáveis e educadores reconheçam o brincar como uma necessidade do desenvolvimento, e não como um passatempo ou atividade secundária”, afirma.
Ela defende que momentos simples de brincadeira compartilhada ajudam a fortalecer vínculos afetivos e a ampliar a segurança emocional das crianças.
“Quando o adulto participa da brincadeira, ele estimula a linguagem, a criatividade, a segurança emocional e a socialização. Além disso, o ato de brincar com a criança fortalece vínculos afetivos, amplia a escuta e cria memórias importantes para a infância”, diz.
Segundo a educadora, o brincar também precisa ser valorizado dentro das escolas como ferramenta pedagógica e não apenas como recreação.
“Quando família e escola caminham juntas nesse incentivo, contribuem para uma infância mais saudável, equilibrada e rica em experiências”, conclui.
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