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O desejo de ser mãe nem sempre começa como um plano distante. Muitas vezes, surge de forma simples, dentro da rotina de um casal. No caso da nutricionista Lidiane dos Santos, de Bodoquena (MS), esse desejo apareceu após dois anos de casamento, e como em tantas histórias, veio acompanhado da expectativa de que aconteceria naturalmente.

“Este ano completamos 11 anos de tentativas, este ano completo 41, iniciamos a tentativa quando eu tinha 30 anos”.

Lidiane dos Santos e seu esposo Ezequias Reche Wolan – Foto: Arquivo pessoal

A maternidade costuma ser apresentada como um percurso natural, quase automático, na vida das mulheres. Crescer, estudar, trabalhar, formar uma família. Mas, para milhões de brasileiras, esse roteiro não se cumpre de forma linear e por muitas vezes, não se cumpre.

No Brasil e no mundo, a dificuldade para engravidar é mais comum do que se imagina e carrega impactos que vão além do corpo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 6 pessoas enfrenta infertilidade ao longo da vida. Não se trata de um fenômeno isolado, mas de uma condição de saúde que atravessa dimensões físicas, emocionais e sociais.

No país, o Ministério da Saúde estima que aproximadamente 7 milhões de mulheres convivem com a endometriose, uma das principais causas de infertilidade feminina. A esse cenário se somam alterações hormonais, obstruções tubárias, fatores genéticos, idade e também questões masculinas, responsáveis por cerca de 30% a 40% dos casos de infertilidade.

Exemplificação da endometriose – Foto: Estratégia Med

Mesmo com os avanços da medicina reprodutiva, que tornaram mais acessíveis tratamentos como a fertilização in vitro (FIV), a experiência da infertilidade continua sendo marcada por um sofrimento silencioso. É um processo que envolve não apenas o corpo, mas identidade, autoestima, relações afetivas e projetos de vida.

Neste Dia das Mães, histórias como a de Lidiane revelam aquilo que não aparece nas estatísticas: o peso emocional de esperar, tentar e, muitas vezes, recomeçar.

O início de um sonho comum

No início, não havia sinais de que o caminho seria diferente. “Tentamos naturalmente por 1 ano sem sucesso”, conta Lidiane. A ausência de resultado, no entanto, começou a levantar dúvidas e inquietações, levando o casal a buscar ajuda médica, mesmo diante de inseguranças.

“Fomos cheios de medo, preocupações, curiosidades e sem nenhuma reserva financeira, mas fomos super bem atendidos desde o primeiro dia”.

O diagnóstico trouxe respostas e com ele um novo desafio. A obstrução tubária dupla, condição que impede o encontro entre óvulo e espermatozóide, mudou completamente o rumo da tentativa.

Exemplificação de obstrução tubária – Foto: Art Medicina Reprodutiva

“Foi um susto, um baque, mas ao mesmo tempo foi um alívio por termos a oportunidade de descobrir o que estava impedindo a gente de engravidar”.

A partir daí, o casal iniciou o tratamento por fertilização in vitro, uma alternativa cada vez mais comum entre casais que enfrentam dificuldades para engravidar.

Quando o tratamento não garante respostas

A fertilização in vitro é um dos principais recursos da medicina reprodutiva. O procedimento consiste na fecundação do óvulo pelo espermatozóide em laboratório e posterior transferência do embrião para o útero. Apesar dos avanços tecnológicos, o processo está longe de ser linear.

Processo de vitrificação dos embriões para a fertilização – Foto: Suely Resende

A especialista em reprodução humana Suely Resende explica que é fundamental compreender o tratamento como um processo, e não como uma tentativa isolada.

“A taxa acumulativa é a que realmente importa. A gente não deve olhar só para uma tentativa. Após dois ou três ciclos a chance acumulada pode chegar a 60%, 80% em mulheres jovens”.

Ainda assim, a resposta do corpo nem sempre acompanha as expectativas, e cada tentativa carrega um peso emocional significativo.

Na primeira tentativa de Lidiane, o resultado foi negativo e, com ele, veio também a primeira frustração, ainda carregada de expectativa e esperança recém-desfeitas.

“Sensação de abandono, de incapacidade, eu senti como 2 filhos perdidos, naquele dia, pensei que não conseguiríamos ter filhos”.

Para a médica, esse tipo de experiência não deve ser minimizado. “Existe uma tristeza e um luto silencioso. Cada ciclo que dá negativo é vivido como uma perda”.

A dor da perda e o luto invisível

Na segunda tentativa, o cenário mudou. A gestação aconteceu, trazendo de volta a esperança. Dois embriões foram transferidos e a gravidez evoluiu até o quinto mês.

Mas a expectativa foi interrompida por uma perda gestacional. “Essa sim é a pior dor da minha vida”.

A experiência, como descrevem especialistas, é uma das formas mais profundas de luto e uma das menos reconhecidas socialmente.

Lidiane descreve o impacto emocional que se seguiu. “Eu me aproximei muito de Deus, pedi colo pra Ele, decidi não questionar, só sentir a dor da ausência, daquele vazio e daquela vergonha que sentimos, por não conseguir segurar meus filhos”.

Após a perda, novos exames identificaram a insuficiência istmocervical (IIC), condição que pode causar abortos tardios ou partos prematuros. Com o diagnóstico, surgia também a possibilidade de intervenção.

Mesmo assim, o caminho ainda reservava novas experiências.

Uma gravidez natural, inesperada, trouxe novamente esperança. “Deus nos presenteou com nosso bebê milagre de gravidez natural, nosso Daniel”.

Mas a gestação não evoluiu. “Sinceramente, esse foi o pior momento de todo processo, pq eu abandonei minha fé, eu perdi a esperança, eu me senti esquecida por Deus e senti como se Ele não me amasse”.

A dor ultrapassou o campo físico e atingiu diretamente a forma como ela se percebia.

“De fato me senti incapaz, uma mulher incompleta e que foi feita de maneira errada”.

O impacto psicológico da infertilidade

A infertilidade não é apenas uma condição clínica. Ela se constrói também na maneira como a mulher interpreta o que está vivendo.

A psicóloga Miriam da Silva Furquim Cerutti explica que o sofrimento está diretamente ligado a pensamentos automáticos e crenças profundas.

“Na psicologia, entendemos que o sofrimento não vem apenas da situação em si, mas da interpretação cognitiva e emocional dessa experiência”.

Segundo ela, ideias recorrentes passam a ocupar o pensamento. “Esses pensamentos ativem crenças como: ‘Sou inadequada’, ‘Sou defeituosa’, ‘Só serei valorizada se for mãe’”.

Esse processo pode desencadear uma série de consequências emocionais, como baixa autoestima, isolamento e tristeza constante.

A psicóloga especializada em psicoterapia do Puerpério Emocional, Aline Ribeiro amplia essa análise ao destacar que o impacto emocional é contínuo. “A dificuldade para engravidar não impacta só o corpo. Com o tempo, ela atravessa a saúde mental de forma profunda”.

Ela explica que o corpo passa a operar em estado de alerta. “A cada ciclo, expectativa e frustração. Isso mantém o cortisol elevado, o que afeta sono, humor, irritabilidade e regulação emocional”.

E o sofrimento, muitas vezes, atinge níveis comparáveis a outras condições de saúde. “Mulheres em processo de infertilidade apresentam índices mais altos de ansiedade e depressão, com níveis de sofrimento comparáveis a doenças crônicas”.

Entre a pressão social e o isolamento

Além da dor individual, há também o peso das expectativas sociais. A maternidade, culturalmente valorizada, muitas vezes se transforma em cobrança.

“A pressão social para ser mãe intensifica o sofrimento porque transforma uma experiência íntima em algo constantemente exposto e cobrado”, afirma Aline Ribeiro.

A comparação com outras mulheres, especialmente em redes sociais e ambientes familiares, reforça sentimentos de inadequação.

Miriam destaca que isso pode alimentar pensamentos como “Sou um fracasso”.

Como forma de proteção, muitas mulheres passam a se afastar de situações que funcionam como gatilho emocional.

Datas simbólicas, como o Dia das Mães, intensificam esse sentimento. “O Dia das Mães funciona como um marcador simbólico. Ele evidencia exatamente o que não está acontecendo”, explica Aline.

Os limites da medicina e as possibilidades do cuidado

Do ponto de vista clínico, a infertilidade é multifatorial e exige investigação individualizada. A ginecologista Bruna Silveira Coelho destaca que condições como endometriose, alterações nas trompas, miomas e distúrbios hormonais estão entre as principais causas.

Exemplificação de miomas nas trompas, uma das causas da infertilidade feminina – Foto: Viamed

“A mulher já nasce com um número limitado de óvulos, e essa reserva vai diminuindo ao longo dos anos, tanto em quantidade quanto em qualidade”.

Ela reforça que o tempo é um fator determinante. “Quanto mais cedo investigar, maiores são as chances de sucesso”.

A Dra. Suely Resende complementa que, mesmo com tecnologia, existem limites biológicos que precisam ser considerados. “O principal para equilibrar a esperança oferecida pelos tratamentos com a realidade é estruturar uma comunicação clínica para ser honesta. Esperança sem dados vira ilusão. Dados sem acolhimento viram abandono”.

Para ela, o cuidado vai além da técnica. “O acolhimento precisa ser estruturado, contínuo e interminável”.

Entre cicatrizes e recomeços

Depois de mais de uma década de tentativas, Lidiane segue em busca da maternidade, agora com mais consciência sobre o próprio corpo e também sobre os limites do processo.

“São marcas profundas, cicatrizes que hoje não doem mais, mas estão ali pra me lembrar de tudo que eu sobrevivi e o que cada coisa me ensinou”.

A experiência transformou sua visão. “Meu sonho da maternidade não é o objetivo principal, mas sim como eu passo e a quem eu posso ajudar durante essa caminhada”.

Mesmo com medo, ela continua. “Nós seguimos, oramos, pedimos controle e que Deus diminua o medo e aumente a fé”.

E reconhece que cada mulher tem seu próprio limite. “Se você sentir paz no coração em pensar: ‘Já deu pra mim’ está tudo bem também”.

“Você não é uma mulher fraca ou menos mulher por isso”.

Ressignificar também é caminho

Para a psicologia, ressignificar não significa abandonar o desejo, mas ampliar o olhar sobre a própria vida. “Ressignificar passa menos por ‘mudar de ideia’ e mais por mudar a forma de se relacionar com a própria vida.”, afirma Aline Ribeiro.

Isso envolve reconstruir projetos, revisar crenças e abrir espaço para novas possibilidades.

Enquanto isso, muitas mulheres seguem tentando, entre consultas, exames, perdas e recomeços, sustentadas por algo que não aparece em exames, mas que insiste em permanecer: a esperança.

Entre o medo de reviver a dor e o desejo de finalmente realizar o sonho da maternidade, ela continua apostando na possibilidade de um novo começo  “Estamos ainda em busca do nosso milagre… o medo não é maior do que nosso sonho”.

Foto de capa: Freepik

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