Entre jornadas longas, responsabilidades da casa e criação dos filhos, mulheres relatam experiências marcadas por esforço, adaptação e superação
O dia começa cedo para muitas mulheres e, em alguns casos, não termina quando o expediente acaba. Entre preparar refeições, organizar a casa, cuidar dos filhos, trabalhar fora ou tentar uma renda própria, a rotina vai se acumulando em tarefas que se sobrepõem ao longo das horas.
Mesmo quando há um emprego formal ou uma atividade remunerada, é comum que o trabalho doméstico e os cuidados com a família sigam como uma segunda jornada, silenciosa, constante e sem horário definido. Em outros casos, quando não há ocupação no mercado de trabalho, essas responsabilidades acabam ocupando quase todo o dia.
Na prática, o que se vê é uma rotina que não cabe em um único turno. Ela se espalha entre manhã, tarde e noite, atravessando diferentes formas de trabalho e diferentes condições de vida.
Essa percepção cotidiana aparece também nos dados. Segundo a PNAD Contínua – Outras Formas de Trabalho 2022, do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas. Entre os homens, o tempo é de 11,7 horas.
A diferença não está apenas na quantidade de horas, mas na forma como o tempo é distribuído dentro da rotina diária, ampliando a carga de trabalho acumulada.
Quando se considera o conjunto das atividades remuneradas e não remuneradas, a jornada feminina também é maior. Em média, mulheres chegam a cerca de 58 horas semanais de trabalho total, enquanto os homens ficam em torno de 50 horas.
Essa sobrecarga não se manifesta da mesma maneira para todas. Ela muda de acordo com o tipo de trabalho, renda e condição de ocupação, mas o fator em comum é que não desaparece.
A especialista em soluções financeiras e benefícios Edilaine Medeiros, mãe de três meninas e estudante universitária, divide a rotina entre atendimentos home office, tarefas domésticas, cuidados com as filhas e a faculdade. Enquanto as duas filhas mais velhas ficam na creche, a caçula, Helena, de seis meses, permanece com ela durante o dia.
Entre os momentos em que organiza a casa, prepara refeições e cuida das crianças, Edilaine tenta encontrar tempo para estudar e atender clientes no escritório montado dentro de casa. “Na minha rotina, muitas vezes eu tenho apenas 10 ou 15 minutos livres ao longo do dia para conseguir estudar um pouco”, relata.
No fim da tarde, quando as filhas retornam da creche, a rotina muda novamente. Entre os cuidados com as crianças e as demandas da casa, ela continua conciliando os atendimentos profissionais e os estudos.
Apesar da rotina intensa, Edilaine afirma que a presença do marido e da família ajuda a tornar o dia a dia mais equilibrado, principalmente na divisão das tarefas domésticas e dos cuidados com as filhas. “Às vezes, mesmo cansado do trabalho, ele vai lavar uma louça, passar um pano na casa ou ajuda a colocar as crianças para dormir”, conta.
Ela afirma que essa rede de apoio faz diferença principalmente nos momentos em que a rotina se torna mais cansativa, já que consegue dividir parte das responsabilidades dentro de casa.
Mesmo assim, diz que a maternidade mantém a mente constantemente ocupada, mesmo durante outras atividades do dia. “Mesmo quando está trabalhando, estudando ou fazendo outras coisas, a mente continua voltada para os filhos e para a família. A mãe quase nunca desliga totalmente”, afirma.
A sobrecarga também aparece na rotina da autônoma Claudiana Bueno, que atualmente trabalha em um negócio familiar ao lado do marido. Ao longo da maternidade, ela precisou conciliar os cuidados com os filhos, tarefas domésticas, trabalho e estudos em uma rotina marcada por noites mal dormidas e pouco tempo para si mesma.
Em muitos momentos, segundo ela, o maior desgaste não estava apenas no cansaço físico, mas na sensação de que a mente permanecia ocupada o tempo inteiro. “O físico descansa, mas a mente da mãe continua funcionando o tempo todo: preocupações, contas, saúde dos filhos, futuro, rotina da casa. É uma carga constante”, afirma.
Claudiana relata que, durante anos, precisou dividir o tempo entre diferentes responsabilidades ao longo do dia, tentando organizar horários e prioridades para conseguir atender todas as demandas.“A gente tenta fazer o possível, mesmo sabendo que sempre vai ficar algo pendente”, diz.
Ela conta que, em diferentes momentos, abriu mão do próprio descanso para dar conta da rotina, principalmente durante o período em que conciliou maternidade, estudos e trabalho ao mesmo tempo.
A fase em que precisou estudar enquanto cuidava dos filhos e trabalhava foi uma das mais cansativas da rotina de Claudiana. Depois de um dia inteiro dividido entre tarefas domésticas, cuidados com a família e responsabilidades profissionais, a noite ainda era dedicada aos estudos. “Estudar depois de um dia inteiro cuidando da casa e dos filhos exigia muito esforço emocional e disciplina”, relata.
Mais do que o desgaste físico, ela lembra que a maior dificuldade estava na carga mental acumulada ao longo do dia. As preocupações com os filhos, a casa, as contas e a organização da rotina permaneciam presentes mesmo nos momentos em que tentava descansar.
“O que as pessoas não enxergam é o quanto a mãe pensa e resolve coisas o tempo todo, mesmo quando parece parada”, afirma.
Em meio à tentativa constante de equilibrar diferentes responsabilidades, pequenas formas de apoio acabaram fazendo diferença para tornar a rotina menos pesada. Para Claudiana, ter alguém disposto a ajudar ou simplesmente ouvir nos momentos mais difíceis ajudou a atravessar períodos de maior sobrecarga. “Uma palavra de incentivo, alguém para ajudar ou simplesmente ouvir já torna a caminhada mais leve”, diz.
A realidade da diarista Regina Noviaky foi atravessada por mudanças de cidade, dificuldades financeiras e anos tentando equilibrar trabalho e maternidade praticamente sozinha. Hoje, com as filhas já adultas, ela diz viver uma fase mais tranquila, mas lembra que os anos em que precisou criar as meninas pequenas foram os mais difíceis da vida.
“Foi muito difícil mesmo, sem apoio de ninguém. Mas graças a Deus vencemos a batalha”, relata.
Para conseguir sustentar as filhas, Regina passou por diferentes profissões ao longo dos anos. Trabalhou como manicure, diarista, cuidadora e chegou a montar um salão e uma lanchonete na tentativa de melhorar a renda da família. Em meio às mudanças e recomeços, precisou lidar com perdas financeiras e períodos de instabilidade.
Mesmo diante das dificuldades, o trabalho nunca deixou de fazer parte da rotina. Entre jornadas longas e noites mal dormidas, ela diz que o desgaste físico e emocional acabava se acumulando com o passar do tempo.
“O corpo não aguenta, mas vai na raça: vamos levantar hoje, vamos correr atrás”, afirma.
A fase mais difícil, segundo Regina, aconteceu enquanto as filhas ainda eram pequenas. Sem rede de apoio e precisando trabalhar diariamente, ela precisava encontrar formas de conciliar os horários do serviço com os cuidados das meninas.
“Eu não dormia de noite. Tinha que trabalhar, tinha que deixar as crianças com vizinha. Foram sete ou oito anos bem complicados”, conta.
A rotina intensa também afetou a própria vida pessoal. Durante anos, ela afirma que praticamente abriu mão do tempo para si mesma para conseguir priorizar as necessidades das filhas e manter a casa funcionando.
“A gente não compra roupa pra gente, não se arruma mais. Quando os filhos são pequenos, não sobra tempo pra nada”, diz.
Além da sobrecarga dentro de casa, Regina lembra que a maternidade também trouxe dificuldades no ambiente de trabalho, principalmente quando precisava faltar para cuidar das filhas doentes.
“Muitas vezes você perde emprego porque precisa atender seus filhos. Isso aconteceu comigo”, relata.
Sem conseguir contar com ajuda da família durante grande parte da criação das meninas, ela precisou enfrentar sozinha diferentes momentos de dificuldade financeira. Em uma das mudanças de cidade, chegou a perder praticamente todos os bens após um roubo.
Ainda assim, Regina afirma que o desejo de oferecer uma condição melhor para as filhas foi o que ajudou a continuar seguindo em frente nos períodos mais difíceis.
“A maternidade mostra uma força que a gente nem sabia que tinha”, afirma.
Hoje, com as filhas já adultas trabalhando, ela diz enxergar a própria trajetória de outra forma. Depois de anos conciliando trabalho, maternidade e dificuldades financeiras, afirma que a rotina finalmente começou a desacelerar.
“Agora está tudo mais organizado. Foi sofrido, mas graças a Deus conseguimos seguir em frente”, relata.
Mesmo entre mulheres fora do mercado de trabalho, o cotidiano continua sendo marcado por tarefas domésticas. Estudos baseados na PNAD indicam que, nesse grupo, a média de tempo dedicado ao trabalho doméstico pode chegar a 26,7 horas semanais.
A repetição dessa dinâmica ao longo dos anos ajuda a explicar por que a jornada feminina permanece mais extensa. Levantamentos da FGV mostram que uma parcela significativa das mulheres deixa o mercado de trabalho após a maternidade, o que contribui para a concentração ainda maior das tarefas domésticas.
No mercado de trabalho, as diferenças também aparecem na participação e na permanência, reforçando um cenário em que a divisão do tempo segue desigual dentro e fora de casa.
Foto de capa: Pexels























