Tenho pensado muito sobre algo que, para mim, ainda soa como um paradoxo da nossa era. Vivemos cercados por telas, plataformas, notificações, feeds infinitos e uma sensação de presença constante. Mas, quanto mais mergulho nas conversas com líderes, jovens, empresários e profissionais de diferentes idades, mais percebo que existe um silêncio emocional se espalhando por todas as gerações. Não é apenas a juventude que está cansada. Somos todos nós, atravessados por um mundo que mudou mais rápido do que nossa mente conseguiu acompanhar.
A crise emocional deixou de ser um marco da meia-idade e passou a se concentrar no início da vida. Um alerta que, à primeira vista, parece restrito à geração Z mas que, olhando com mais cuidado, escancara um fenômeno muito mais amplo. Estamos vivendo uma espécie de fadiga coletiva. Sim, a geração Z sente esse impacto com mais força. Eles nasceram dentro da engrenagem digital, e isso altera tudo. Pesquisas da Deloitte revelam que 46% dos jovens entre 18 e 24 anos já relacionam sua ansiedade diretamente ao uso das redes sociais. A McKinsey mostra que passam entre 5 e 7 horas por dia em frente às telas. É muito estímulo para pouca pausa, muita cobrança para pouca maturação, muita exposição para pouca intimidade.
Mas, honestamente, pergunto: será que este cenário é exclusivo deles? Vejo adultos de 30, 40, 50 anos vivendo emocionalmente do mesmo jeito só que com menos coragem de admitir. A pressão por produtividade, aparência, resultado e aprovação não escolhe idade. A sensação de insuficiência é democrática. A comparação constante, esse esporte olímpico das redes sociais, atinge tanto quem está começando quanto quem já tem currículo extenso. E a solidão, essa velha conhecida, ganhou novas formas. Segundo o Harvard Study of Adult Development, a sensação de isolamento emocional cresceu mais entre jovens, é verdade, mas também aumentou em todas as faixas etárias após a pandemia.
Ou seja, não é apenas a Z que tenta existir em um mundo que cobra performance 24 horas por dia. Todos nós estamos tentando. Freud, em “O mal-estar na civilização”, já dizia que viver em sociedade implica renunciar a parte dos nossos desejos. Só que agora, além de renunciar, precisamos sustentar uma felicidade pública como se o humor fosse um ato de gestão de marca pessoal. A jornalista Bianca Barki descreveu isso com precisão em sua coluna “A Juventude Cansada”. Mas, ao ler a reflexão dela, me veio um pensamento inevitável, talvez a exaustão não seja um fenômeno geracional, mas civilizacional.
Vejo sinais disso todos os dias. Pessoas brilhantes, maduras, experientes, com carreiras sólidas, vivendo a tal “fadiga antecipatória” um cansaço que surge antes de qualquer desafio real. Jovens querendo dormir cada vez mais, o dia todo de preferência em alguns casos. Líderes que se sentem pressionados a performar perfeição emocional. Pais que se cobram padrões impossíveis. Profissionais que não conseguem descansar porque o descanso virou quase um ato de culpa.
E, no meio de tudo isso, um fato duro permanece, nunca estivemos tão conectados… e tão isolados. A tecnologia nos aproximou fisicamente, mas nos afastou emocionalmente. Criou acessos, mas reduziu profundidades. Democratizou a voz, mas amplificou o ruído. E deixou todos, de diferentes idades, tentando encontrar autenticidade em meio à performance constante.
Também não podemos ignorar o peso econômico deste momento. Jovens enfrentam salários iniciais mais baixos e um futuro nebuloso, mas adultos também lidam com reinvenções constantes, mudanças de carreira, instabilidade e um mercado que não dá sinal de desacelerar. A ansiedade não se limita a uma fase da vida, ela se espalhou como um modo de funcionamento.
Por isso, eu acredito que o grande desafio dos próximos anos não será apenas acolher a geração Z. Será acolher a humanidade inteira. Criar ambientes familiares, corporativos e sociais, onde a saúde emocional venha antes da aparência de sucesso, onde o diálogo substitua o julgamento, onde a vulnerabilidade não seja tratada como falha, mas como ponte.
Porque, no fim das contas, talvez a pergunta certa não seja “o que está acontecendo com a juventude?”. Talvez a pergunta correta seja: “o que está acontecendo conosco?”. E quando encaramos essa pergunta com honestidade, percebemos que a resposta exige coragem. Coragem para desacelerar, para escutar, para dizer não, para pedir ajuda, para reconhecer que, apesar de tanta conexão, estamos precisando reaprender a nos encontrar, e a nos encontrar de verdade.












