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Arthur Maximilliano

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Poucas coisas são tão silenciosamente prejudiciais para uma empresa quanto o achismo que permeia decisões importantes todos os dias. Ele não aparece em nenhuma linha do DRE no final do mês, não gera alerta vermelho em sistema algum e não dispara absolutamente nenhum aviso imediato para o empresário. Mas corrói sistematicamente a qualidade das decisões todos os dias, enfraquece a estrutura do negócio de forma progressiva, e drena recursos de maneiras que só ficam visíveis quando já é tarde demais.

O achismo nasce naturalmente quando decisões importantes e estratégicas são tomadas com base em frases perigosamente comuns como eu sinto que é por aqui e vamos nessa direção, sempre fizemos assim e nunca deu problema antes, no meu negócio é diferente e essas regras não se aplicam, acho que o problema é o time que não está executando direito, acho que está vendendo bem e o faturamento está bom.

O problema fundamental é que achismo não é estratégia de forma alguma, não é método confiável, não é ferramenta de gestão. É apenas uma opinião não validada disfarçada de certeza, é intuição transformada em verdade absoluta sem nenhuma evidência concreta que a sustente.

Na prática brutal do dia a dia, o achismo surge e se instala exatamente quando a empresa cresce mais rápido do que a maturidade da gestão consegue acompanhar. O negócio aumenta em tamanho e complexidade, o faturamento muda de patamar significativamente, o time cresce de cinco para vinte ou trinta pessoas, mas os processos estruturados, indicadores acompanhados e métodos de decisão ficam completamente para trás esquecidos.

Sem dados concretos para iluminar o caminho, o empresário inevitavelmente passa a decidir no escuro completo, navegando apenas por intuição e experiência passada que pode não se aplicar mais. E quando se decide consistentemente no escuro sem informação confiável, qualquer caminho parece igualmente certo no momento, qualquer opção parece fazer sentido na conversa, até que os resultados ruins começam a aparecer e fica óbvio que não era o caminho certo.

Empresas não quebram por falta de esforço das pessoas envolvidas, não quebram porque ninguém trabalhou duro o suficiente. Quebram por acumulação de decisões erradas tomadas com base em achismo, quebram por escolhas estratégicas fundamentadas em sentimentos e não em fatos verificáveis.

O aspecto mais perigoso e insidioso do achismo é que ele cria uma falsa sensação de controle que simplesmente não existe na realidade. O empresário acredita genuinamente que conhece todos os seus números de cabeça, que entende profundamente seus clientes e suas necessidades, que sabe exatamente onde está o problema que impede crescimento, que sabe precisamente o que precisa ser feito para melhorar os resultados. Mas quando começamos a fazer perguntas básicas e objetivas sobre o negócio, a fragilidade dessa certeza fica exposta rapidamente.

Qual é sua margem de lucro real depois de todos os custos indiretos? Onde exatamente você perde dinheiro sem perceber todos os meses? Qual etapa específica do funil de vendas mais trava e impede conversão? Qual ação de marketing ou operacional gera comprovadamente mais resultado mensurável? As respostas para essas perguntas aparentemente simples geralmente vêm acompanhadas de silêncio constrangedor, de hesitação evidente, ou pior ainda, de mais achismo disfarçado de conhecimento profundo baseado em anos de experiência.

Existe um medo comum e generalizado de que dados, indicadores estruturados e processos documentados engessam a empresa e matam a criatividade natural. Na realidade concreta, acontece exatamente o oposto do que as pessoas imaginam. Dados bem definidos e acompanhados consistentemente tiram o peso emocional das decisões pessoais que o empresário carrega sozinho, reduzem drasticamente conflitos internos sobre qual caminho seguir, trazem clareza imediata para o time inteiro sobre o que realmente importa fazer, e transformam opiniões subjetivas em hipóteses testáveis que podem ser validadas ou refutadas rapidamente.

A empresa deixa finalmente de perder tempo discutindo interminavelmente quem acha o quê baseado em experiências individuais, e passa a discutir objetivamente o que os números estão mostrando de forma inequívoca sobre a realidade do negócio. Isso não torna a empresa fria ou mecânica, não elimina a intuição valiosa do empresário. Apenas cria um alicerce sólido de fatos sobre o qual a intuição pode ser aplicada de forma muito mais efetiva e com risco muito menor.

Enquanto a empresa é pequena com poucos clientes e operação simples, o achismo até funciona razoavelmente bem porque o empresário consegue ver tudo. Quando ela cresce em complexidade e tamanho, quando atinge vinte, trinta, cinquenta pessoas, o achismo vira um risco operacional gravíssimo que pode destruir tudo. Empresas verdadeiramente maduras que duram décadas decidem com método estruturado e não no improviso, testam cuidadosamente antes de escalar investimento em qualquer direção, medem rigorosamente antes de mudar processos que funcionam, e corrigem rapidamente quando os dados mostram que algo não está dando certo.

Não porque são empresas frias e sem alma, não porque perderam a paixão pelo negócio. Mas porque entenderam através de anos de experiência que gestão não é intuição pura, não é sentimento de barriga, não é achismo validado por confirmação seletiva. É clareza baseada em fatos, é método consistente, é disciplina de acompanhamento.

Achismo custa brutalmente caro para qualquer empresa. Custa tempo precioso que nunca volta, energia mental e emocional desperdiçada em caminhos errados, dinheiro jogado fora em apostas baseadas em feeling, e muitas vezes custa o próprio negócio inteiro construído com tanto sacrifício. O momento decisivo em que a empresa finalmente decide trocar achismo por método estruturado é exatamente o momento em que ela começa a crescer de verdade de forma sustentável, é quando ela deixa de patinar e começa a tracionar com consistência. Porque crescer sem dados confiáveis é apenas sorte temporária que não se sustenta, é ganhar na loteria uma vez e achar que descobriu o segredo. Crescer com método é gestão de verdade, é construir algo sólido que dura, é criar uma empresa que funciona mesmo quando o fundador não está presente em cada decisão tomada todos os dias.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Arthur Maximilliano

Sócio fundador e Diretor de Estratégia (CSO) da RetenMax, empresa de consultoria empresarial com foco em gestão, cultura e tecnologia. Engenheiro de Produção formado pela UFMS, possui especializações em Gestão, Liderança e Inovação, além de formação em Marketing Digital e Business Intelligence e tem MBA em Inteligência Artificial e Big Data pelo IBMEC. Atua também como professor universitário, palestrante e é autor do livro Sussurros Empresariais, escrevendo sobre liderança, integridade, inovação e o futuro das organizações. | @arthurmaxnl

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