Depois de dias de festas, consumo de álcool, pouca hidratação e sono irregular, é comum que a quarta-feira de Cinzas comece com dor de cabeça, enjoo, tontura, boca seca e cansaço intenso. A chamada ressaca alcoólica, porém, não é apenas desconforto passageiro: trata-se de um conjunto de reações fisiológicas provocadas pelo organismo após a metabolização do álcool.
“A ressaca alcoólica é definida, sob o aspecto farmacológico e fisiológico, como um conjunto de sinais e sintomas resultantes dos efeitos tóxicos do etanol e de seus metabólitos”, afirma Denise Basílio, coordenadora do curso de Farmácia da Universidade Estácio de Sá. Segundo ela, mesmo quando a concentração de álcool no sangue já diminuiu, o corpo continua enfrentando alterações metabólicas e inflamatórias.
Por que a ressaca acontece
O principal responsável pelos sintomas é o acetaldeído, substância produzida no fígado durante a metabolização do álcool. O etanol é transformado pela enzima álcool desidrogenase, dando origem a esse composto considerado altamente reativo e tóxico.
“Esse metabólito está amplamente associado a manifestações como náuseas, cefaleia, rubor e mal-estar geral”, explica Denise.
Além da ação direta do acetaldeído, o consumo de álcool desencadeia respostas inflamatórias no organismo. De acordo com a especialista, há ativação de vias inflamatórias sistêmicas, com aumento de citocinas pró-inflamatórias, o que ajuda a explicar sintomas como fadiga, dores musculares e maior sensibilidade à luz e ao som.
A desidratação também é um fator central. O álcool tem efeito diurético, aumentando a eliminação de líquidos e eletrólitos. “Isso provoca perda de água e sais minerais, contribuindo para dor de cabeça, tontura, boca seca e fraqueza”, diz.
Já o enjoo e a dor abdominal costumam estar relacionados à irritação da mucosa gástrica e ao aumento da secreção ácida no estômago. No sistema nervoso central, a vasodilatação cerebral e a inflamação neurovascular explicam a cefaleia pulsátil e a hipersensibilidade sensorial.
Outro agravante é o impacto sobre o sono. O álcool reduz a qualidade do sono REM, fase essencial para a consolidação da memória e a recuperação mental. “Quando esse ciclo é prejudicado, a pessoa pode acordar mais cansada e irritada, mesmo após várias horas de sono”, afirma.
O que fazer para melhorar
Não há cura imediata para a ressaca. Segundo ela, a recuperação baseia-se em medidas de suporte.
A principal recomendação é a hidratação. A ingestão de água, preferencialmente associada a soluções com eletrólitos, ajuda a repor perdas e reduzir sintomas. Alimentação leve, especialmente com carboidratos, pode auxiliar na recuperação energética. O repouso também é indicado, para que o organismo se restabeleça do estresse metabólico.
O que evitar
A tentativa de aliviar rapidamente os sintomas por meio de automedicação pode trazer riscos. O uso de paracetamol após ingestão de álcool exige cautela, já que a combinação pode aumentar o risco de lesão hepática.
Anti-inflamatórios não esteroides também devem ser usados com cuidado, pois podem agravar a irritação gástrica e elevar o risco de complicações renais. Medicamentos depressores do sistema nervoso central, como benzodiazepínicos, não devem ser associados ao álcool devido ao risco de depressão respiratória e sedação excessiva.
“A abordagem mais segura consiste em garantir hidratação, alimentação adequada, ambiente tranquilo e descanso. O uso de medicamentos deve ser reservado para situações necessárias e, de preferência, com orientação profissional”, afirma.
A especialista ressalta ainda que alguns sintomas não são compatíveis com uma ressaca comum e exigem avaliação médica. Entre eles estão vômitos persistentes, confusão mental, dor abdominal intensa, sonolência excessiva, convulsões e icterícia.
Como prevenir
Para reduzir as chances de ressaca, a orientação é evitar beber em jejum, alternar o consumo de álcool com água, alimentar-se adequadamente e respeitar os próprios limites.
Denise também alerta para práticas populares sem respaldo científico, como o uso preventivo de medicamentos ou a mistura de bebidas alcoólicas com energéticos. “Essas combinações podem aumentar os riscos à saúde e não há evidências de que previnam a ressaca”, afirma.
A recomendação final é moderação. Embora a ressaca seja comum após períodos de festa, ela é um sinal de que o organismo foi exposto a níveis de álcool que ultrapassaram sua capacidade de metabolização sem efeitos adversos.
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