Existe uma guerra em curso que não envolve tanques. Os Estados Unidos destinaram US$ 52 bilhões para reindustrializar a produção de chips. A China restringiu exportações de terras raras como arma geopolítica. A União Europeia lançou sua estratégia de minerais críticos. E o Brasil, detentor de 21 milhões de toneladas em reservas, a segunda maior do planeta, produziu, em 2024, apenas 20 toneladas. Menos de 0,01% da oferta global.
A desproporção tem explicação: o país não domina a tecnologia de separação e refino, tem mapeamento geológico incompleto e opera num vácuo regulatório. Apenas uma empresa funciona comercialmente, a Serra Verde, em Goiás, e exporta concentrado bruto para a China. O setor privado projeta US$ 2,2 bilhões em investimentos até 2029. O BNDES e a Finep abriram chamada de R$ 5 bilhões. O Congresso discute o marco legal dos minerais críticos. Mas entre intenção e execução, o Brasil conhece bem a distância.
Terras raras são a matéria-prima dos semicondutores. Neodímio, praseodímio, térbio e disprósio compõem os ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas, drones e sistemas de defesa. A etapa de separação agrega 20 vezes mais valor que a extração bruta. A fabricação de componentes multiplica isso exponencialmente.
Em setembro de 2024, a Lei 14.968 criou o Programa Brasil Semicondutores (Brasil Semicon), com R$ 7 bilhões anuais para pesquisa e inovação em chips e eletroeletrônica. A estratégia mira o backend — encapsulamento, testes, design. Mas a pergunta permanece: de que adianta uma política de semicondutores sem dominar a cadeia a montante, a dos minerais que alimentam essa indústria?
E Mato Grosso do Sul?O Estado acumulou R$ 11,2 bilhões em Valor de Produção Mineral entre 2020 e 2024, com reservas expressivas de manganês, ferro e calcários. Mas o dado relevante é outro: o ex-secretário Jaime Verruck, da Semadesc, declarou que o Estado investirá em prospecção de terras raras e lítio. O governo reativou a MS Mineral, empresa estadual de pesquisa mineral. É um marco, mas ainda é uma declaração.
O subsolo de MS permanece subexplorado para minerais estratégicos. O Serviço Geológico do Brasil concentra pesquisas em Goiás, Minas Gerais, Bahia e Amazônia. A UFMT já achou indícios de terras raras em Mato Grosso. A UFRR descobriu concentrações seis vezes superiores às da China em Roraima. E MS? Ninguém procurou com a metodologia adequada. A geologia do Estado, Formação Serra Geral, rochas alcalinas da Bodoquena, borda do Cráton Amazônico em Corumbá, justifica investigação sistemática.
Em se falando de um estado com grande capital ambiental, é preciso atenção redobrada sobre os altos impactos ambientais decorrentes das minerações. A extração envolve grandes movimentações de terra, uso intensivo de água e produtos químicos tóxicos, podendo causar, erosão, destruição de habitats e riscos à saúde humana, criando um paradoxo entre a transição tecnológica e a degradação ambiental
Enquanto isso, Goiás já criou uma Autoridade Estadual de Minerais Críticos e legisla para internalizar valor. Minas Gerais tem 83 municípios com processos minerários de terras raras. MS opera com um mapa mineral incompleto.
Mas o queMS pode fazer? Primeiro, criar um Programa Estadual de Prospecção de Minerais Estratégicos, operado pela MS Mineral em parceria com as universidades e instituições de pesquisa. Segundo, incluir minerais críticos como eixo do ecossistema de inovação, articulando a pauta com os parques tecnológicos existentes e com o proposto Parque Tecnológico da Celulose. Terceiro, firmar cooperação com Goiás para transferência de aprendizados regulatórios e tecnológicos. Quarto, inserir pesquisadores sul-mato-grossenses nos INCTs de minerais estratégicos, como o INCT MATERIA. Quinto, integrar a agenda mineral à Rota Bioceânica, posicionando MS como hub de escoamento para os mercados do Pacífico.
Esta escolha e decisões requerem avaliação do tempo necessário para os resultados aparecerem. Segundo o pesquisador Fernando Landgraf, da USP, estima-se que montar uma operação de refino de terras raras leva no mínimo quatro anos. O Centro de Tecnologia Mineral – Cetem opera com US$ 3,3 milhões anuais; centros equivalentes nos EUA e Japão dispõem de US$ 250 milhões. A escala do desafio é proporcional à da oportunidade.
No século XX, a riqueza estava no petróleo. No XXI, está nos minerais que alimentam a inteligência artificial, os veículos elétricos e os sistemas de defesa. Mato Grosso do Sul pode ser protagonista dessa economia, se considerar estratégico para seu desenvolvimento, considerando-se os aspectos ambientais. Esta escolha não exclui o investimento tecnológico e científico, que é permanente para buscar soluções por meio do conhecimento.















