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De baleias a aves que cruzam continentes, conservação depende de ação conjunta entre países; Brasil destaca espécies e amplia áreas protegidas

A preservação de espécies migratórias ganhou protagonismo global com a realização da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15 da CMS), que começou nesta segunda-feira (23) na capital sul-mato-grossense. O evento reúne representantes de mais de 130 países e ocorre até o dia 29 de março.

No centro das discussões está a proteção de 1.189 espécies listadas pelo tratado internacional, animais que atravessam fronteiras em busca de alimento, reprodução e condições ambientais adequadas, e que dependem de políticas integradas entre países para sobreviver.

A urgência do tema é reforçada por dados do relatório Estado das Espécies Migratórias do Mundo (2024), que aponta que uma em cada cinco espécies listadas está ameaçada de extinção. Entre os principais fatores estão a perda de habitat, a fragmentação de ecossistemas e as mudanças climáticas.

Durante a conferência, os países devem discutir a inclusão de 42 novas espécies na lista de proteção.

Espécies que cruzam oceanos, florestas e rios

O Brasil ocupa posição estratégica nesse cenário por abrigar rotas migratórias de diferentes grupos de animais. Das espécies protegidas pela convenção, 962 são aves, além de mamíferos terrestres e aquáticos, peixes, répteis e até um inseto.

Entre os destaques está a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae), que realiza uma das migrações mais conhecidas do planeta. Todos os anos, indivíduos deixam áreas de alimentação na Antártida e percorrem milhares de quilômetros até águas tropicais brasileiras, como o Banco dos Abrolhos, onde se reproduzem. A população na costa do país é estimada em cerca de 34,5 mil animais.

Outro símbolo da biodiversidade é a onça-pintada (Panthera onca). Embora não realize migrações sazonais longas, sua sobrevivência depende da conexão entre áreas naturais. A fragmentação de habitats ameaça o fluxo genético da espécie, o que levou à sua inclusão nos anexos da convenção e à defesa de corredores ecológicos transfronteiriços.

Nos mares, a tartaruga-verde (Chelonia mydas) também se destaca. Capaz de percorrer grandes distâncias entre áreas de alimentação e desova, depende de praias protegidas no litoral brasileiro para completar seu ciclo de vida. Já o tubarão-mangona (Carcharias taurus), classificado como criticamente ameaçado, enfrenta riscos principalmente relacionados à pesca e à degradação de habitats costeiros.

Nos rios, os chamados bagres migratórios impressionam pela escala de deslocamento. Espécies como a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) realizam a maior migração de água doce do mundo, saindo do estuário amazônico até as cabeceiras andinas. Outras espécies, como o pintado (Pseudoplatystoma corruscans), também dependem de rios livres de barragens para sobreviver, tema que deve ganhar espaço nas discussões da conferência.

Entre as aves, o albatroz-errante (Diomedea exulans) chama atenção pela capacidade de percorrer todos os oceanos do hemisfério sul. Já o maçarico-acanelado (Calidris subruficollis) enfrenta desafios diferentes: com uma rota que pode chegar a 30 mil quilômetros por ano, entre o Ártico e a América do Sul, depende de áreas úmidas e campos naturais, que vêm sendo reduzidos.

Corredores ecológicos e cooperação internacional

A proteção dessas espécies depende diretamente da manutenção de corredores ecológicos, áreas que conectam habitats e permitem o deslocamento seguro dos animais ao longo de seus ciclos de vida.

No âmbito da convenção, as espécies são classificadas em dois anexos: o Anexo I, que reúne aquelas em risco de extinção e exige medidas rigorosas de proteção, e o Anexo II, que inclui espécies que precisam de cooperação internacional para melhorar seu estado de conservação.

No Brasil, essas ações são implementadas por meio dos Planos de Ação Nacional (PANs), coordenados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que articulam medidas específicas para cada grupo de animais.

Ampliação de áreas protegidas

Como parte das ações anunciadas durante a COP15, o governo brasileiro criou, no início de março, o Parque Nacional Marinho do Albardão, com mais de 1 milhão de hectares, e a Área de Proteção Ambiental (APA) do Albardão, no litoral do Rio Grande do Sul.

A iniciativa elevou para cerca de 26,7% a área marinha protegida na zona econômica exclusiva do país, aproximando o Brasil da meta global de proteger 30% dos oceanos até 2030.

Papel estratégico do Brasil

Ao sediar a conferência, o Brasil reforça seu papel como um dos principais territórios para a conservação de espécies migratórias no mundo. A combinação de biomas como Amazônia, Cerrado, Pantanal e litoral extenso torna o país peça-chave para a manutenção dessas rotas.

A COP15 ocorre em um momento considerado decisivo por especialistas, diante do avanço das mudanças climáticas e da pressão sobre os habitats naturais. O desafio, apontado pelos participantes, é transformar compromissos internacionais em ações concretas capazes de garantir que essas espécies continuem cruzando fronteiras e sobrevivendo a elas.

Foto: Divulgação/Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima

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