Micro e pequenas empresas de Mato Grosso do Sul passaram a melhorar o atendimento a clientes, ampliar vendas on-line e disputar licitações públicas com apoio de tecnologia e inteligência artificial. As mudanças são resultado da atuação de duas redes de inovação criadas no estado, que já atendem mais de 200 negócios e receberam R$ 760 mil em investimentos federais.
Os recursos foram destinados às redes Ecommerce Mais Produtivo e LicitAI, que contam com financiamento da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Cada iniciativa recebeu R$ 380 mil dentro de um pacote de R$ 1,5 milhão voltado a quatro projetos no Centro-Oeste.
A iniciativa integra o programa E-commerce.BR, que busca fortalecer o comércio eletrônico nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país.
Na semana passada, técnicos dos dois órgãos estiveram em Campo Grande para acompanhar a execução das ações e avaliar os resultados nas empresas participantes.
Segundo Victor Teles, analista de Produtividade e Inovação da ABDI, as duas redes atuam em gargalos importantes da competitividade das pequenas empresas.
“As duas redes atuam sobre gargalos distintos, mas complementares, que são a gestão de relacionamento com clientes e o acesso às compras públicas. A ABDI acompanha indicadores de maturidade digital, produtividade e vendas online para garantir que o investimento gere ganhos estruturais”, afirma.
Plataforma melhora atendimento e vendas online
Na rede Ecommerce Mais Produtivo, uma plataforma criada pela startup Vordesk reúne em um único sistema mensagens de e-mail, WhatsApp e redes sociais. A ferramenta permite organizar o atendimento, monitorar métricas e reduzir perdas de contato com clientes.
A meta da rede é elevar em 40% o nível de maturidade digital das empresas atendidas e aumentar em 50% o volume de vendas online.
De acordo com a CEO da Vordesk, Auri Cavalcante, a proposta é profissionalizar a gestão do relacionamento com clientes por meio da análise de dados. “O monitoramento de indicadores como volume de mensagens, número de contatos e tempo de primeira resposta é decisivo para melhorar o atendimento e impulsionar as vendas”, afirma.
Entre as empresas atendidas está a Rec+, plataforma que conecta operadores de reciclagem a compradores. Segundo o CEO Francisco Pacca, a empresa passou a ter controle completo do histórico de interações com clientes.
Negócios de diferentes setores também aderiram ao sistema, incluindo turismo, mobiliário, vestuário, saúde e serviços. Em Miranda, a Pantanal Click Turismo adotou respostas automatizadas e passou a organizar o histórico de contatos em um único ambiente digital.
Inteligência artificial facilita acesso a licitações
Já a rede LicitAI utiliza inteligência artificial para mapear editais, organizar documentação e facilitar a participação de empresas em licitações públicas.
A iniciativa tem como meta elevar em 30% a maturidade digital das empresas atendidas e ampliar em 25% as vendas online.
Em Coxim, a empresa CR Veículos venceu sua primeira licitação pública após aderir à plataforma. A responsável pelo negócio, Indianara Figueiroa, afirma que a tecnologia revelou oportunidades antes desconhecidas.
“Foi com o uso da LicitAI que conquistamos nossa primeira licitação. Agora estamos de olho em novas oportunidades”, diz.
Na área da saúde, a empresa Brasil MED registrou aumento de 30% nas vendas em três meses após passar a utilizar a ferramenta para localizar editais e organizar documentos.
A tecnologia também reduziu o tempo de análise de licitações em escritórios especializados. Na Portes Advogados, a avaliação de editais caiu de até três dias para cerca de dez minutos.
Desafio da digitalização fora do Sudeste
Apesar do crescimento do comércio eletrônico no país, a participação regional ainda é desigual. Em 2024, o e-commerce movimentou R$ 225 bilhões no Brasil, alta de 14,6% em relação ao ano anterior.
Segundo dados do setor, a região Sudeste concentra 77,2% das vendas online, enquanto o Centro-Oeste responde por apenas 2,5%.
Para Rodrigo Lobato, analista de Comércio Exterior do MDIC, iniciativas como as redes criadas em Mato Grosso do Sul ajudam a reduzir essa desigualdade.
“Os dados mostram os desafios da digitalização fora dos grandes centros. No estado vemos uma rede estruturada para incluir empresas no ambiente digital”, afirma.
Programa busca ampliar impacto
A primeira edição do programa E-commerce.BR prevê investimento total de R$ 4,92 milhões até 2026, com o objetivo de beneficiar mais de mil empresas fora do eixo Sul-Sudeste.
Na fase piloto, nove redes receberam R$ 380 mil cada. Três delas poderão avançar para uma segunda etapa, com aporte adicional de R$ 500 mil para ampliar as operações.
Segundo Adryelle Pedrosa, gerente de Transformação Digital da ABDI, a digitalização é estratégica para o desenvolvimento econômico regional.
“As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm grande potencial, mas ainda enfrentam desafios de infraestrutura digital e acesso a tecnologias. Investir nessas áreas ajuda micro e pequenas empresas a inovar e crescer”, afirma.




















