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MIRIAM ABREU

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Numa sociedade onde a aceleração do tempo e a fragilidade nas relações são marcas presentes, educar tornou-se um dos maiores desafios da contemporaneidade.

Temos vivenciado transformações sociais, culturais e tecnológicas que têm produzido novas formas de relação nas famílias, no trabalho, na nossa forma de comunicar e aprender. É visível a mudança nos valores, no tempo social e nas instituições como família, escola e Estado. Como parte dessas mudanças a pressa, a necessidade da resposta imediata e a intolerância ao processo passaram a fazer parte do nosso cotidiano.

Nesse tempo podemos observar o crescimento de plataformas digitais que oferecem serviço de delivery prometendo rapidez a todos os seus clientes. Com altos investimentos em novas tecnologias e inteligência artificial, esse tipo de negócio conecta milhões de consumidores a restaurantes, a lojas e entregadores.

Que leitura podemos fazer sobre isso? A comodidade e a rapidez na satisfação dos meus desejos é o que mais importa. É evidente que você pode me questionar dizendo que isso faz parte do processo de evolução. Concordo que serviços como esses nos fazem economizar tempo, dinheiro e até mesmo nos proporcionam maior segurança e comodidade. Porém, precisamos aprender a fazer leituras mais aprofundadas sobre esse comportamento social. O invisível merece e é necessário ser analisado em todas as instâncias de nossas vidas.

Dessa forma, vivemos a cultura do “agora” que transcende do individual para se tornar um habitus social. Em Pierre Bourdieu, sociólogo francês, podemos compreender esse habitus como um conjunto de disposições incorporadas na família, na escola e nos demais grupos sociais. Esse imediatismo não é espontâneo; ele é produto de uma sociedade consumista que valoriza a performance e a aceleração do tempo social, ou seja, vivemos num tempo da “sociedade miojo”.

Nessa lógica, na sociedade contemporânea, esperar tornou-se perda de tempo, errar tornou-se fracasso e perseverar é visto como algo desnecessário diante de tantas promessas de oportunidades, resultados rápidos e fáceis.

Entretanto, precisamos compreender que o tempo da educação, como prática social e processo formativo, não caminha na velocidade dos algoritmos, mas no tempo da experiência, da repetição, da escuta, do erro e da reconstrução contínua.

O grande desafio das famílias e escolas em pleno século XXI é fazer com que as crianças e adolescentes compreendam que a perseverança e o esforço têm sentido, que o tempo precisa ser respeitado e que o processo precisa ser valorizado.

Ao nos propormos a educar para a perseverança, torna-se necessário criarmos contextos nos quais o esforço, o tempo e o processo tenham sentido, sejam respeitados e valorizados. Assim formaremos cidadãos capazes de sustentar projetos e ações a médio e longo prazo, algo cada vez mais escasso no cotidiano imediatista de nossa sociedade.

Outro aspecto que reflete negativamente no processo educativo, principalmente na escola, é a negação da frustração. Muitas famílias no desejo de poupar os filhos de experiências que possam lhes causar sofrimento, superprotegem os filhos, privando-os de experiências fundamentais ao amadurecimento emocional e social. Em consequência formam filhos com baixa resiliência, pouca autonomia e dificuldade em lidar com regras e limites. Essas atitudes refletem no cotidiano escolar tanto na aprendizagem quanto nas relações sociais.

Em contrapartida, a escola enfrenta em seu cotidiano, o desafio de lidar com alunos pouco habituados a regras, normas, à espera, ao esforço intelectual prolongado e a escuta atenta. Assim o conflito entre o tempo pedagógico e o tempo social está instaurado.

Educar numa sociedade “do agora” é literalmente nadar contra a correnteza. Exige muito esforço, conhecimento, preparo, estratégias e foco. Mas principalmente o desejo de formar cidadãos capazes de enfrentar os revezes da vida, reinventando-se sempre que necessário. Rapidez se contrapõe à maturidade. É necessário ensinar que nem tudo pode ser acelerado, simplificado ou antecipado. É fundamental um compromisso ético e social com as próximas gerações por parte das famílias, da escola, do Estado, enfim, de toda a sociedade.

Os artigos publicados são de responsabilidade dos colunistas e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Total News

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Miriam Abreu

É doutora e mestre em Educação pela (UFMS). Especialista em Orientação Educacional e Psicopedagogia pela (UFRRJ/CEP-EB). Pedagoga habilitada em Orientação Educacional (FUCMT)  e Supervisão Escolar (Faclepp). Consultora Educacional, palestrante e escritora. | @miriam_abreu65

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