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As mulheres são maioria no ensino superior brasileiro e representam 59,1% das matrículas em cursos de graduação no país. Ao todo, são cerca de 10 milhões de estudantes, segundo dados do Censo da Educação Superior 2023, divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Entre os ingressantes, elas também predominam, com 59,4% das vagas.

Por trás dos números, estão histórias de mulheres que conciliam múltiplas jornadas — trabalho, cuidados com os filhos e estudos. Nesse cenário, o ensino a distância (EAD) tem se tornado uma alternativa para manter o projeto do diploma mesmo diante da sobrecarga da rotina.

O avanço da participação feminina no ensino superior também aparece na evolução das matrículas ao longo da última década. Entre 2013 e 2023, o número de mulheres matriculadas na graduação cresceu 138,6%, passando de 4,2 milhões para cerca de 10 milhões.

Rotina entre trabalho, filhos e estudos

Aos 33 anos, Thais da Silva Perez divide o dia entre o trabalho em uma farmácia de manipulação, a graduação em Farmácia e os cuidados com os filhos Pedro Augusto, de 13 anos, e Luiza Emanuele, de 5.

Parte das disciplinas do curso é oferecida em formato semipresencial, com conteúdos no ensino a distância. Segundo ela, a flexibilidade tem sido fundamental para organizar a rotina.

“Os desafios sempre existem, mas sendo mãe solo é ainda mais difícil. Tento conciliar da melhor forma os estudos, o trabalho e ser mãe. No final, dá certo”, afirma.

Acostumada ao ensino presencial, Thais diz que precisou se adaptar à dinâmica das aulas online, mas conseguiu encontrar um ritmo próprio de estudos. O momento de maior confiança veio após o segundo semestre da graduação, quando conseguiu boas notas em todas as disciplinas.

“Ali eu percebi que vou dar conta até o final”, diz.

Segunda graduação e novos planos

A advogada Karine Alberti Manfrin Calemes, de 35 anos, também reorganizou a própria rotina para não abandonar o objetivo de cursar Psicologia. Formada em Direito há mais de dez anos, ela precisou interromper o curso em momentos diferentes, inclusive durante a gestação da filha mais nova.

Hoje, combina disciplinas presenciais e online para avançar na graduação. Segundo ela, o formato híbrido tornou possível retomar os estudos.

“Se eu tivesse que fazer toda a grade presencialmente, eu não conseguiria. Trabalhando e com duas crianças pequenas, não daria”, afirma.

A maior parte das atividades online é feita à noite, quando os filhos já dormiram e a casa está mais silenciosa. “Sem essa parte online, eu demoraria muitos anos para concluir”, diz.

Apesar da organização, ela relata que o equilíbrio entre maternidade e estudos nem sempre é simples. “Às vezes estou saindo para a faculdade e minha filha acorda querendo colo. A gente se cobra muito, quer fazer o melhor como mãe e como aluna.”

Flexibilidade como fator de permanência

Para especialistas em educação, a expansão do ensino a distância tem ampliado o acesso e ajudado a reduzir a evasão entre estudantes que precisam conciliar diferentes responsabilidades.

Segundo Lidiane Vargas, coordenadora de relacionamento da Universidade Estácio de Sá, o EAD oferece maior autonomia na organização da rotina acadêmica.

“O ensino a distância permite que a aluna escolha o horário de estudo, muitas vezes depois que as crianças dormem, sem precisar se deslocar todos os dias até a faculdade”, afirma.

Entre os recursos mais utilizados estão aulas ao vivo com gravação disponível posteriormente, materiais digitais acessíveis pela plataforma de ensino e agendamento online de avaliações.

Para muitas estudantes, a possibilidade de estudar no próprio ritmo e economizar tempo de deslocamento é uma das principais vantagens.

Apoio institucional

Além da flexibilidade acadêmica, o suporte oferecido pelas instituições também é apontado como fator importante para a permanência das estudantes no ensino superior.

A psicopedagoga Ariane Meneghetti, coordenadora do Núcleo de Apoio e Atendimento Psicopedagógico (NAAP) da Estácio, afirma que muitas mães chegam à universidade enfrentando sobrecarga física e emocional.

“Elas relatam cansaço excessivo, dificuldade para organizar o tempo e sentimento de culpa por não dar conta de tudo”, diz.

Segundo ela, o acompanhamento individualizado busca ajudar as estudantes a reorganizar a rotina e fortalecer a confiança para continuar o curso.

“É comum atender mulheres que pensaram em desistir. Quando a estudante se sente compreendida e apoiada, ela consegue enfrentar os desafios e seguir com o projeto de formação profissional”, afirma.

O crescimento da presença feminina no ensino superior ocorre em um contexto mais amplo de expansão da participação das mulheres no mercado de trabalho e na educação.

No entanto, especialistas apontam que o avanço ainda convive com desafios estruturais, como a desigualdade na divisão do trabalho doméstico e a dupla jornada enfrentada por muitas estudantes.

Foto: Freepik

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