O avanço da desinformação e a popularização de conteúdos produzidos por inteligência artificial colocaram a educação midiática no centro do debate educacional no Brasil. Especialistas defendem que ensinar alunos a interpretar criticamente informações deixou de ser um complemento e passou a ser uma necessidade urgente nas escolas.
A discussão ganha força em meio a mudanças recentes na legislação. O Projeto de Lei 1.010/2025, em tramitação no Congresso, propõe regras para o uso de tecnologias no ambiente escolar. Já a Resolução CNE/CEB nº 2/2025 tornou obrigatória a integração da educação digital e midiática em toda a educação básica.
O cenário global reforça a preocupação. O Fórum Econômico Mundial classifica a desinformação e conteúdos manipulados por IA como o segundo maior risco global, atrás apenas de eventos climáticos extremos. No Brasil, o desafio é ampliado: levantamento da OCDE colocou o país na última posição em capacidade de identificar notícias falsas entre 21 nações analisadas.
Dados de consumo mostram a dimensão do problema. Segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 73% dos brasileiros buscam informações sobre ciência, saúde e meio ambiente em redes sociais e plataformas digitais. Ao mesmo tempo, mais da metade afirma encontrar notícias falsas com frequência. Em 2025, as redes sociais concentraram 78% das fraudes digitais identificadas, de acordo com a Serasa Experian.
Proibir não basta
Nos últimos anos, o Brasil passou a adotar medidas de restrição ao uso de celulares nas escolas, com o objetivo de reduzir distrações e problemas como o cyberbullying. A partir de 2025, também entrou em vigor a chamada Lei 15.211/2025, que estabelece regras para o uso de redes sociais por menores de idade.
Para especialistas, porém, limitar o acesso não resolve o problema.
“Limitar o acesso precisa vir acompanhado de formação. Regular é importante, mas educar é fundamental. Não basta tirar o celular da mão do aluno dentro da escola se ele continua exposto a conteúdos manipulados fora dela. Precisamos ensinar como analisar, questionar e usar a tecnologia com responsabilidade”, afirma Audrey Taguti, diretora do Brazilian International School.
Formação crítica desde cedo
A escola é apontada como o principal espaço para o desenvolvimento do pensamento crítico. É nesse ambiente que os estudantes aprendem a diferenciar informação de opinião, identificar fontes confiáveis e entender como funcionam as plataformas digitais.
“Embora essa geração seja frequentemente chamada de ‘nativa digital’, diversos estudos já demonstraram que familiaridade com tecnologia não significa, necessariamente, letramento digital. Saber usar aplicativos ou navegar nas redes não equivale a compreender criticamente como a informação circula, como algoritmos influenciam o que vemos ou como conteúdos podem ser manipulados”, diz Rodrigo Cunha, professor de ciência da computação e letramento digital.
Segundo ele, o desafio é transformar o consumo diário de conteúdos em aprendizado estruturado. “A escola tem o papel de orientar essa transição. Trabalhamos não apenas para limitar distrações, mas para canalizar o foco para atividades digitais que produzam benefícios reais e aprendizados transferíveis para outras áreas do conhecimento”.
Aprender fazendo
Em algumas escolas, a educação midiática já é aplicada de forma prática. Alunos participam da criação de conteúdos, analisam notícias falsas e discutem o impacto de algoritmos e bolhas informacionais.
“Quando o aluno entende como a tecnologia funciona por dentro, e não apenas como usuário, ele ganha autonomia, pensamento crítico e mais segurança para atuar no mundo digital”, afirma Cunha.
As atividades incluem análise de deepfakes, comparação entre notícias verdadeiras e falsas e exercícios de identificação de manipulações em imagens e vídeos.
Mais que tecnologia
Especialistas ressaltam que educação midiática vai além do ensino técnico.
“Isso inclui discutir como funcionam os algoritmos, como imagens podem ser manipuladas, como identificar vieses em uma narrativa e quais são os impactos sociais da circulação de informações falsas. Não se pode apenas ensinar a usar aplicativos ou plataformas, mas incentivar os alunos a questionar quem produziu esse conteúdo, com qual intenção, e quais evidências sustentam aquela informação. Esse repertório crítico é o que faz diferença”, afirma Carlos Maffia Neto, diretor escolar.
Para educadores, o impacto vai além da sala de aula.
“A capacidade de analisar informações, argumentar com base em dados confiáveis e se posicionar de forma ética nas redes é considerada uma competência essencial para o século XXI”, diz Letícia Cabral, professora de cinema.
Impacto na formação e na cidadania
Ao incorporar a educação midiática ao currículo, escolas buscam formar alunos mais preparados para o ambiente digital e para a vida em sociedade. O letramento digital é visto como ferramenta para fortalecer valores democráticos, combater a desinformação e ampliar a participação crítica no debate público.
“Formar estudantes críticos é formar cidadãos capazes de tomar decisões informadas, participar do debate público e atuar de maneira responsável no mundo digital e fora dele”, conclui Cabral.
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