Quero iniciar essa coluna com a metáfora utilizada por Jesus ao se referir à casa construída na areia. Ele chama de insensato todo aquele que opta por esse tipo de construção uma vez que não aplica à vida prática orientações e conselhos recebidos ao longo de sua vida.
Uma casa, como representação de nossa família e da individualidade de cada um de seus membros, ao ser construída na areia, está submetida a bases frágeis que não suportarão os revezes que a vida real nos impõe.
Infelizmente, na contemporaneidade, as famílias no desejo de proporcionar aos filhos aquilo que não receberam de seus pais, têm praticado uma inversão de valores na educação de suas crianças, adolescentes e jovens, deslocando o eixo da educação do caráter para a performance, do compromisso para o conforto, do dever para o desejo. Com isso, fundamentos essenciais à formação humana têm sido esquecidos ou menosprezados, tais como disciplina, respeito, limites e responsabilidade. A família jamais poderá se esquecer de que ela tem um papel inegociável na sociedade: educar seus filhos.
É óbvio que não há formação humana sólida sem limites bem estabelecidos, nem autonomia verdadeira sem disciplina e nem futuro consistente sem responsabilidade. Antes que alguém queira atribuir essa tarefa exclusivamente à escola, gostaria de informar que esse ponto de partida sempre esteve e sempre estará na família. A família deve ser essa matriz formadora. É na família que construímos nossas primeiras referências de autoridade, convivência, respeito e responsabilidade.
Quando uma família abdica da sua função formativa relativizando limites, negociando o inegociável não está apenas lidando com situações pontuais. Ainda que involuntariamente, está contribuindo para a formação de um habitus marcado pela instabilidade, pela dificuldade de lidar com frustrações e pela ausência de autorregulação. Tudo o que os filhos vivem no cotidiano familiar, como: regras, rotinas, obrigações, exigências e permissões não é apenas algo circunstancial – torna-se estrutura.
Certo é que o ser humano evoluiu muito nos últimos séculos, porém princípios e valores essenciais a qualquer sociedade, a qualquer grupo, têm sido descartados e até mesmo combatidos na contemporaneidade. Hoje, nas famílias, observamos uma crise quanto ao respeito e aos limites, entre a permissividade e a ausência de autoridade. Para muitos impor limites aos filhos passou a ser confundido com falta de afeto, e exigir responsabilidade, com rigidez excessiva. Com isso, os pais tentam evitar frustrações flexibilizando regras e minimizando as consequências de tais ações.
O resultado de tudo isso não é liberdade, mas sim, desorientação e deformação do ser humano. A ausência de limites claros não forma indivíduos livres, mas sim inseguros. Os filhos que não aprendem a lidar com os “nãos” dentro de casa, enfrentarão muitas dificuldades na vida real, como na escola, nas relações sociais e no mundo do trabalho.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu nos faz compreender que todas essas experiências no meio familiar não são neutras. Elas moldam disposições duráveis. O ambiente familiar sem estrutura tende a produzir sujeitos com menor capacidade de organização interna, menor tolerância ao esforço e maior dificuldade de reconhecer a autoridade legítima – seja do professor, do gestor, do chefe, do líder ou das próprias regras e normas sociais.
A disciplina é outro valor que para muitos possui um peso negativo. Esta é constantemente confundida com repressão. No entanto, a disciplina trata de nossa capacidade de organizarmos o nosso comportamento no dia a dia em função de nossos objetivos, de sustentar nossos esforços ao longo do tempo e de agirmos com constância, mesmo na ausência de motivação imediata. Ela não é espontânea, é ensinada na prática.
Por que na prática? Quando a família estabelece rotinas, define responsabilidades, acompanha tarefas e sustenta regras, está ensinando disciplina. Não se trata de rigidez, mas sim, de coerência. Não se trata de autoritarismo, mas autoridade – aquela que orienta, corrige e sustenta ainda que exija firmeza.
Outro valor importantíssimo na base familiar, que também tem passado por um enfraquecimento é a responsabilidade. Observamos em nossa sociedade a presença de um jogo no que se refere a essa questão da responsabilidade e nenhuma discussão e solução palpável têm sido apresentadas.
No entanto, cabe à família educar para a vida mostrando aos filhos, na prática, que toda escolha tem sua consequência e que, assumir essas consequências é parte essencial do amadurecimento. Esse processo pode ser leve através de um diálogo honesto e de ações como atribuir tarefas compatíveis com a idade no dia a dia familiar, exigir cumprimento de compromissos, não substituir os filhos em suas obrigações e, permitir que os filhos experimentem as consequências de seus atos, sejam eles bons ou ruins. Finalizo destacando a necessidade do equilíbrio entre o afeto e a firmeza. Ser firme não é negar o afeto, mas sim, uma forma de amar, na prática. Defender disciplina e limites jamais será negar o afeto; muito pelo contrário, uma educação consistente integra afeto e firmeza. O amor verdadeiro não está em evitar frustrações para os filhos, mas sim, em prepará-los para enfrentá-las na vida real. Amar também é ter a capacidade de dizer “não”, educar também é frustrar e formar também é exigir.















