Para se compreender a noção de estratégia formulada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu (1987), torna-se importante tecer considerações sobre duas outras noções formuladas pelo autor, que nos proporcionam uma maior clareza quanto a esse “sentido do jogo”: a noção de interesse e de illusio.
Quanto à noção de interesse, o autor a define como “[…] ‘estar em’, participar, admitir, portanto, que o jogo merece ser jogado e que os alvos engendrados no e pelo fato de jogar merecem ser perseguidos; é reconhecer o jogo e reconhecer os alvos” (BOURDIEU, 2008, p. 139).
Ele afirma que: “A illusio é estar preso ao jogo, preso pelo jogo, acreditar que o jogo vale a pena ou, para dizê-lo de maneira mais simples, que vale a pena jogar.” (BOURDIEU, 2008, p. 139). É nesse sentido que o autor considera que a noção de interesse é oposta à de desinteresse, como também à de indiferença.
Sendo assim, para Bourdieu (2008), o indiferente “não vê o que está em jogo”, ele considera que tudo “dá na mesma”, não consegue perceber/compreender a diferença nas ações como agente social por lhe faltarem as disposições necessárias que lhe possibilitariam a compreensão desse jogo social, ficando em uma posição nomeada pelo sociólogo de “asno de Buridan”. Essas disposições necessárias a que ele se refere são os nossos habitus.
Illusio, portanto, é “[…] estar envolvido, é investir nos alvos que existem em certo jogo, por efeito da concorrência, e que apenas existem para as pessoas que, presas ao jogo, e tendo as disposições para reconhecer os alvos que, aí estão em jogo, estão prontas a morrer pelos alvos […].” (BOURDIEU, 2008, p. 140).
Na perspectiva do sociólogo francês Pierre Bourdieu, ao longo do tempo as melhores estratégias acabariam por ser adotadas pelos grupos (pela família) e seriam, então, incorporadas pelos agentes como parte de seu habitus. Para ele, a educação é concretizada como sinônimo da sociabilidade que os agentes implementam diante das várias instituições sociais, incluindo a família. (BOURDIEU, 1983, p. 180).
É pelo habitus, portanto, que as pessoas se estabelecem nas estratégias, isto por meio de escolhas, objetivos, decisões, de maneira interdependente. Isso proporciona construções e desconstruções de relações sociais nos mais variados espaços sociais dos quais venham a fazer parte.
Nesse sentido, Bourdieu (2013), em sua obra “A Distinção”, aponta que há diversos tipos de investimento: cultural, econômico, educativo, de tempo, de privações, de esforços, de dificuldade ou de sofrimento. Esse senso de investimento, como um senso prático, é dependente das disposições internalizadas e do real desejo do agente de fazer parte desse jogo social.
Quando se analisam as estratégias utilizadas pelas famílias, principalmente as relacionadas à educação dos filhos, decisivas no momento da escolha de uma profissão que lhes possibilita uma ascensão social, torna-se visível que esse grupo internalizou disposições que lhes auxiliaram fazer escolhas mais distintivas para os seus filhos. Esses “tipos de família” orquestram estratégias que os levam a optar por escolas e/ou cursos considerados de prestígio.
Nesse sentido, é possível observar que as famílias apresentam formas diferenciadas de mobilização dos capitais acumulados. Isso se deve ao habitus internalizado, uma vez que ele é esse princípio gerador de práticas distintas e distintivas. O que para as elites tem um sentido, difere para a classe média e, consequentemente, para a classe popular. Para o autor, o capital cultural se constitui o elemento da herança familiar de maior impacto no destino escolar. Entretanto, é necessário que o “herdeiro aceite herdar a herança”, ou seja, que ele aceite “apropriar-se” dela. (SINGLY, 1996).
Embora o autor afirme que o princípio real da estratégia esteja localizado no senso prático, no que os esportistas chamam de “sentido do jogo”, não podemos confundi-la com uma ação que siga regras rígidas, pré-estabelecidas para tal jogo. Assim sendo, ele deixa bem claro que: “O jogo social é regrado, ele é lugar de regularidade. Nele as coisas se passam de modo regular […]”. (BOURDIEU, 2004, p. 83).
Daí a importância de reformularmos nossos habitus de forma que venhamos a desenvolver uma leitura para além do senso comum quanto ao espaço social no qual estamos inseridos. Para o autor, o bom jogador não é aquele que está atento a onde a bola está, mas sim, aonde ela vai cair. Desejo que como famílias, sejamos bons jogadores!














