“Treze Mulheres Contemporâneas, Treze Poemas Cada” traz poesia como resistência. Lançamento acontece no dia 5 de março, no Café Doce Lembrança, em Campo Grande (MS), às 19h
Adélia Prado, considerada a maior poeta brasileira viva, divide as páginas de “Treze Mulheres Contemporâneas, Treze Poemas Cada” com outras 12 vozes atuais. Entre elas, indígenas, negras, árabes, judias e ciganas, de diferentes regiões e gerações do Brasil. Editado por Aaron Salles Torres e organizado pela poeta e educadora indígena Márcia Mura, o livro traz um marco histórico: é a primeira vez que uma antologia de poesia feminista brasileira é organizada por uma mulher indígena. A obra será lançada pela Georgois Livros em 5 de março, no Café Doce Lembrança, em Campo Grande (MS), às 19h.
“Durante o período recente de nossa história, as mulheres sofreram abusos que eu jamais poderia ter imaginado que testemunharia”, afirma Aaron, editor da Georgois Livros. Para ele, as mulheres, que representam 51,5% da população brasileira, seguem sendo fundamentais na resistência democrática. Depois de apresentar a ideia de “poemas que representem a realidade da mulher brasileira contemporânea”, ele convidou Márcia para organizar a obra. “Já passava da hora de uma antologia de poesia feminista ser organizada por uma mulher indígena no Brasil.”
Márcia identificou em comum entre as 13 vozes a coragem de não aceitar imposições. “O que interliga essas poetas é a própria condição humana e as formas de desumanização. Vi nas poesias a violência denunciada, a dor, a revolta e a força para seguir em frente”, afirma. Para ela, as vozes indígenas, dos seringais, judias, lésbicas, trans e negras trazem a memória das que vieram antes como força. “Apesar de toda a colonização, do patriarcado e do capitalismo, não nos venceram. Estamos vencendo.”
Ao lado de Adélia, a seleção reúne Gleycielli Nonato Guató, Val Souza, Érica Zíngano, Tânia Rego, Dalva Agne Lynch, Layla de Guadalupe, Flora Thomé, Paula Máiran, Lama, Kimani, Sara Kali e Renata Machado Tupinambá. Juntas, representam diferentes gerações (nasceram entre 1930 e 2002), regiões e identidades.
A pesquisa de seleção levou mais de um ano. O critério de Aaron Salles Torres foi buscar poetas que evolucionassem os conceitos e as formas do Modernismo (em oposição ao concorrente “pós-modernismo”, que o editor — como Habermas — pensa mais apropriado chamar de “nietzscheanismo”) e que demonstrassem através de seu trabalho compreender a necessidade de o movimento identitário ser sempre atrelado à luta de classes.
O resultado é uma obra que dialoga com a diversidade sem perder de vista a batalha coletiva. “Os grupos de identidade, de outra forma, estão cada vez mais focados nas diferenças. É mais um equívoco dos ‘pós-modernos’ que provém da má-fé de Nietzsche. Quanto mais isolados, mais fracas as nossas vozes”, afirma Aaron.
“Esperamos que os leitores de ‘Treze Mulheres’ levem consigo emancipação intelectual — e que isso resulte na tão desejada emancipação laboral do trabalhador brasileiro em termos práticos”, complemente a poeta Layla de Guadalupe.
Sobre a organizadora: Márcia Mura é educadora, pesquisadora, escritora e doutora em História Social pela USP. Nascida em Porto Velho (RO), pratica a pedagogia da afirmação indígena a partir das vivências no território. É autora de “O Espaço Lembrado” (2013), “O Curumim do Rio do Machado” (2021) e “Tecendo Fios de Memórias Mura” (2022). Faz parte das coletâneas “As 29 Poetas Hoje” (2021) e “originárias” (2023).
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