Com 12 mil inscritos e cerca de 10 mil visitantes ao longo de dois dias, Campo Grande sediou nesta terça (24) e quarta-feira (25) a terceira edição do Delas Day, considerado o maior evento de Mato Grosso do Sul voltado ao empreendedorismo e à liderança feminina. Realizado no Bosque Expo, o encontro teve entrada gratuita e reuniu palestras, painéis, oficinas, rodadas de negócios e espaço para expositoras.
Com o tema “Nossa identidade, nossa força”, a programação mobilizou representantes do setor público, da iniciativa privada e nomes conhecidos nacionalmente para debater autonomia econômica, comunicação, inovação e participação das mulheres em diferentes áreas. A plenária principal, com capacidade para 1.200 pessoas, concentrou as palestras magnas e os painéis centrais.
O painel de abertura, na terça-feira, abordou inteligência emocional e motivação. Ao longo da tarde, subiram ao palco Pollyana Félix e Marcos Piangers. Na quarta-feira (25), a programação incluiu palestra da atriz Giovanna Antonelli, além de participações da influenciadora Pequena Lô e da ex-jogadora de basquete Hortência Marcari, que encerrou o evento com palestra sobre estratégia e liderança.
Na abertura, a primeira-dama de Mato Grosso do Sul, Mônica Riedel, destacou o alcance do evento e o papel das mulheres no desenvolvimento do Estado. “O estado se desenvolve com a presença das mulheres, e o protagonismo delas é muito importante”, afirmou. Ao comentar o cenário de violência contra a mulher, disse que encontros como o Delas Day podem representar um ponto de virada. “Ela pode sair daqui com alguma esperança de realmente mudar a sua condição”.
A reitora da UFMS, Camila Ítavo, ressaltou a presença da universidade no evento e a conexão com o empreendedorismo. Segundo ela, a instituição, que reúne 47 mil estudantes, busca aproximar as mulheres do universo da inovação. “A gente apresenta a oportunidade de mulheres inovarem com o apoio da universidade”, afirmou.
A mentora em comunicação estratégica Pollyana Félix destacou o papel da comunicação no fortalecimento feminino. “A comunicação é uma ferramenta de poder. Durante muito tempo, as mulheres foram silenciadas. Hoje, quando a mulher entende quem ela é e as possibilidades que tem, ela consegue construir autonomia financeira”, afirmou.
A coordenadora de Atendimento e Relacionamento com o Cliente do Sebrae, Lucielle Lima, explicou que o trabalho com mulheres empreendedoras inclui acompanhamento contínuo. “A gente não vai lá e faz apenas um curso. A gente acompanha por pelo menos nove meses. Todas as pessoas que são acompanhadas, a chance de dar certo é bem maior”, afirmou.
Ela destacou ainda que a metodologia contempla diferentes perfis, incluindo mulheres indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais. “A autonomia econômica é muito importante para mulheres que passam por situações de violência doméstica”, pontuou.
Comunicação, adaptabilidade e enfrentamento
Entre os destaques da programação esteve a influenciadora e psicóloga Pequena Lô, que falou sobre “Adaptabilidade como Estratégia de Sucesso”. Ao abordar sua trajetória, ela afirmou que ocupar espaços de visibilidade foi um processo natural, mas também desafiador.
“É uma responsabilidade, claro, no que eu falo, no que eu faço, mas a minha formação na psicologia também ajuda muito”, disse. Para ela, tornar-se referência é motivo de orgulho. “É muito prazeroso eu ter me tornado uma referência que eu não tive”.
Pequena Lô relatou que, no início da carreira, enfrentou inseguranças por ser uma mulher com deficiência em um ambiente altamente exposto. “Eu sabia que eu estava vulnerável a receber críticas, comentários capacitistas, mas quando eu entendi que eu ocupei um espaço em sair em capas de revista, ocupando lugar na televisão, não só na internet, eu me sinto muito, muito honrada”.
Ao falar diretamente às mulheres, reforçou a importância do autoconhecimento. “A principal coisa é acreditar, reconhecer o seu talento. Pode ser visto como vaidade, mas eu acho que é visto como estratégia”. Segundo ela, empreender é como atravessar “uma floresta escura”. “Você não sabe o que vai encontrar, mas você tem que tentar. Se der certo, melhor ainda”.
Ela também alertou para as dificuldades adicionais enfrentadas por mulheres no mercado. “Ser mulher já é muito difícil, né? E empreender é pelo mundo, que a gente sabe que o mercado de trabalho muitas vezes é machista”. Ainda assim, defendeu que ocupar espaços é essencial. “Se você chegou até aí, é porque você tá bom, tá?”.
Estratégia, disciplina e legado
A ex-jogadora de basquete Hortência Marcari encerrou o evento com uma palestra sobre estratégia e liderança. Ícone do esporte brasileiro, ela contou que a transição das quadras para os palcos ocorreu após o fim da carreira como atleta.
“Quando eu parei de jogar, as empresas começaram a me chamar, se eu podia falar um pouquinho da minha história”, relatou. “O mesmo prazer que eu tinha dentro das quadras, hoje eu trago pro palco”.
Para ela, disciplina e preparação são lições centrais do esporte para o mundo dos negócios. “Se você quer ser algo, quando você escolhe uma profissão, você tem que saber qual é o ônus, qual é o bônus daquela profissão”. Segundo Hortência, não é possível reclamar das exigências da carreira escolhida. “Não escolher a profissão pelo dinheiro, escolher a profissão porque você ama fazer aquilo que você faz”.
Ao comparar o jogo com a vida, destacou a importância da resiliência. “Você começa o jogo zero a zero, daqui a pouco tá dez atrás, depois passa três na frente. A nossa vida é muito de altos e baixos”. A diferença, afirmou, está na forma de lidar com os problemas. “A maneira como você enxerga o problema é que te diferencia do outro”.
Sobre independência financeira, contou que adotou, ainda jovem, uma estratégia intuitiva. “Desde o meu primeiro salário, eu falei: Metade eu não vou ver, e a outra metade eu vou viver com aquela metade e ainda vou investir”. Sem acesso a mentoria ou apoio especializado na época, diz que aprendeu “aos trancos e barrancos”. “Eu gosto de aprender, eu adoro aprender”.
Negócios, capacitação e serviços
Além da plenária, o Delas Day contou com dois palcos simultâneos – Helena Meireles e Delinha – com debates sobre tendências de mercado, saúde mental, tecnologia e varejo, acompanhados por fones de ouvido individuais. Três salas ofereceram oficinas práticas sobre gestão, comércio exterior, inteligência artificial e produção de conteúdo digital.
O evento também abrigou o Mercado Delas, espaço para exposição de produtos e serviços, e a Caravana Sebrae Delas, com orientação para acesso a crédito. A Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab) participou com atendimento ao público e orientações sobre qualificação profissional. No primeiro dia, a unidade móvel do Hospital de Amor ofereceu exames gratuitos de Papanicolau e mamografia.
Entre as expositoras, a empreendedora Joice Cerrado, de Dourados, afirmou que participar do evento representou uma vitrine estratégica. “É um marco para mim estar expondo aqui, porque traz visibilidade e oportunidade de network.” A empresária Vivian Amado, do salão Escova e Vai, resumiu o espírito do encontro. “Tá com medo? Vai com medo mesmo, que lá na frente a gente dá um jeito”.
Ao final de dois dias de programação intensa, o Delas Day consolidou-se como espaço de troca, capacitação e incentivo ao protagonismo feminino, com discursos que combinaram experiência, estratégia e incentivo para que mais mulheres ocupem posições de liderança.
Colaborou Sandy Ruiz




















