O fortalecimento do empreendedorismo feminino e a ampliação de políticas públicas voltadas às mulheres foram temas centrais do evento “Todas Diferentes, Todas Importantes: Elas Protagonistas”, realizado nesta segunda-feira (9), em Campo Grande, pelo Governo de Mato Grosso do Sul. O encontro reuniu autoridades, especialistas e empreendedoras para discutir autonomia econômica, enfrentamento à violência de gênero e participação feminina na economia.
Um dos pontos que ganhou destaque no debate foi a crítica da empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, aos juros elevados no país. Segundo ela, o custo do crédito é um dos principais obstáculos para o crescimento de pequenos e médios empreendedores e também para a ampliação do consumo.
“Primeiro é o juros baixar. Porque com esse juros alto, nenhum empreendedor pequeno e médio pode crescer seu negócio”, afirmou a empresária durante coletiva antes do início do painel.
Ela acrescentou que o impacto atinge diretamente a economia e a capacidade de compra da população. “A mulher precisa de capacitação, crédito e inovação. Mas para vender ela não pode ter juros altos, porque se tiver juros muito altos ninguém fica comprando e a economia não circula”, disse.
O evento ocorreu no auditório Manoel de Barros, no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, e integrou a programação do Mês da Mulher organizada pela Secretaria de Estado da Cidadania.
Empreendedorismo e independência financeira
Luiza também destacou que a independência econômica é um dos fatores que podem ajudar mulheres a romper ciclos de violência doméstica, embora ressalte que a solução depende de uma mobilização mais ampla da sociedade.
“Eu não acho que é só empreendedorismo. Primeiro é uma união entre homens e mulheres. Se o homem não entrar, dificilmente a gente tira essa violência”, afirmou.
A empresária relatou que a pauta passou a ser tratada de forma mais estruturada dentro da empresa após o feminicídio de uma funcionária do grupo, ocorrido há cerca de 13 anos. “Prometemos que nunca mais perderíamos uma funcionária dessa forma. Os homens da empresa se envolveram muito, porque todos saem perdendo”.
Ela também defendeu políticas públicas que incentivem o empreendedorismo feminino e ampliem o acesso de mulheres em situação de vulnerabilidade a contratos e oportunidades econômicas.
Governo defende mudança cultural
O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (PP), afirmou que o debate sobre igualdade de gênero passa por mudanças culturais e precisa envolver toda a sociedade.
Segundo ele, a presença de Luiza Trajano no estado tem potencial de inspirar novas iniciativas voltadas ao empreendedorismo e ao desenvolvimento econômico. “A palavra que traduz a presença da dona Luiza aqui é inspiração. Inspiração para mulheres, para o desenvolvimento, para o empreendedorismo e para a força feminina”, afirmou.
Riedel também defendeu que lideranças públicas adotem uma postura firme contra qualquer forma de discriminação. “Quem está em cargo de comando precisa ter tolerância zero com a intolerância e absoluta repulsa a qualquer tipo de preconceito ou violência contra a mulher”, disse.
Políticas públicas e combate à desigualdade
A secretária estadual de Cidadania, Viviane Luiza, responsável pela mediação do encontro, afirmou que promover a autonomia econômica das mulheres é uma estratégia fundamental para reduzir desigualdades estruturais.
“Quando falamos de autonomia econômica das mulheres, não falamos apenas de renda ou de empreendedorismo. Falamos de liberdade, de oportunidades e também de uma das formas mais poderosas de enfrentamento à violência contra as mulheres”, afirmou.
Ela acrescentou que a independência financeira fortalece a capacidade de decisão das mulheres. “Quando uma mulher tem autonomia econômica, ela fortalece sua voz, amplia sua capacidade de decisão e rompe ciclos de desigualdade”.
A ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves também participou do painel e afirmou que a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres ainda depende de mudanças estruturais na sociedade.
“Não vamos conseguir ter igualdade enquanto tivermos patriarcado e machismo. Foram séculos de luta das mulheres. Conquistamos muita coisa, mas nada disso aconteceu porque éramos bonitinhas ou arrumadinhas. Foi porque as mulheres lutaram”, disse.
Segundo ela, a presença feminina em espaços de poder ainda está distante da igualdade. A ex-ministra citou que as mulheres ocupam cerca de 17% das cadeiras do Congresso Nacional e representam menos de 10% das prefeituras no país.
“Essas conquistas não foram fáceis e agora o desafio é manter e avançar”, afirmou.
Mulheres avançam no empreendedorismo em MS
Dados apresentados durante o evento mostram que as mulheres representam 50,8% da população de Mato Grosso do Sul, o equivalente a cerca de 1,4 milhão de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O avanço feminino também aparece no empreendedorismo. Levantamento do Observatório da Cidadania, com base em dados da Receita Federal, aponta que cerca de 159.921 mulheres são donas de negócios no Estado, o que representa 42% do total de empresários.
Ao todo, aproximadamente 171.825 empresas sul-mato-grossenses são comandadas por mulheres, o equivalente a 44,9% do total.
A presença feminina também cresce na política. Atualmente, o Estado conta com 13 prefeitas, número que, em 2020, era de cinco. Nas câmaras municipais, 213 mulheres foram eleitas vereadoras em 2024, frente a 163 na eleição anterior.
Capacitação para rede de proteção
Durante o encontro, a Secretaria da Cidadania também assinou um termo de intenção para a realização do curso “Protege MS – Fortalecimento dos Organismos de Políticas Públicas para Mulheres”.
A formação será destinada a servidoras que atuam diretamente no atendimento a mulheres em situação de violência, com foco na qualificação das equipes de centros de referência, abrigos e demais estruturas da rede de proteção.
O programa integra o Protege MS, iniciativa estadual voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência de gênero, que reúne diferentes secretarias em ações de proteção, capacitação profissional e apoio às vítimas.
Parcerias para fortalecer empreendedorismo
Representantes do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas também participaram do evento. A diretora-técnica do Sebrae em Mato Grosso do Sul, Sandra Amarilha, afirmou que o Estado ocupa atualmente a sétima posição nacional em empreendedorismo feminino.
Segundo ela, cerca de 42% da atividade econômica do Estado já é impulsionada por mulheres empreendedoras.
“Durante muito tempo falamos do potencial do empreendedorismo feminino. Hoje já podemos falar em potência. As mulheres estão gerando renda, dignidade e independência em diferentes regiões do Estado”, afirmou.
Entre as iniciativas citadas estão programas de capacitação empreendedora, cursos voltados a mulheres indígenas e quilombolas e projetos de incentivo à autonomia financeira em municípios do interior.
Ao encerrar o encontro, Trajano voltou a defender a união entre poder público, empresas e sociedade civil para ampliar oportunidades e combater a violência de gênero.
“É uma causa mundial. Homens e mulheres precisam trabalhar juntos para eliminar esse problema”, afirmou.
Foto: Governo de Mato Grosso do Sul






















