Carregando…

Compartilhe

Santiago Peña apresentou pedido de saída em meio à pressão política após a liquidação do Ueno Bank; Congresso não votou a renúncia e processo de impeachment avançou no Senado

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma crise bancária que se transformou em um escândalo político no país. A decisão foi anunciada enquanto a Câmara dos Deputados discutia a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário, que perdeu o apoio de integrantes do próprio Partido Colorado.

Peña justificou a decisão como uma medida necessária para preservar a estabilidade do país e as instituições paraguaias. No entanto, a saída ainda não foi efetivada. Uma sessão conjunta do Congresso convocada para analisar a renúncia terminou sem quórum após parlamentares do partido governista deixarem o plenário. Com isso, o presidente permanece formalmente no cargo.

“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais.

Em seguida, confirmou a decisão de deixar o cargo. “A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou.

Mesmo com o anúncio, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade a abertura do processo de impeachment contra Peña. O Senado deu andamento ao julgamento político, e o presidente deverá apresentar sua defesa nesta sexta-feira (6).

A continuidade do processo também tem implicações políticas para o mandatário. No Paraguai, ex-presidentes têm direito a uma cadeira de senador vitalício, com direito à palavra, mas sem poder de voto. A prerrogativa, porém, não se aplica aos presidentes destituídos por impeachment, que também perdem o foro privilegiado.

Crise bancária

A crise começou na terça-feira (3), após a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, instituição digital que tinha aproximadamente 2,9 milhões de clientes, o equivalente a cerca de 60% da população adulta do país. Com a interrupção das operações, os correntistas ficaram sem acesso aos depósitos e às movimentações financeiras.

O caso provocou protestos nas ruas e cobranças por responsabilização dos envolvidos. O Ministério Público paraguaio pediu a prisão de oito pessoas, entre elas o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale.

A situação também atingiu a cúpula do Banco Central. O presidente da instituição, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo após a liquidação do banco. Antes de assumir o comando do BC, ele havia sido dirigente da instituição financeira até 2023.

A atuação de Carvallo passou a ser questionada por causa de sua ligação anterior com o Ueno Bank, o que levantou suspeitas de conflito de interesses na condução do caso.

Ligação de Peña com grupo controlador do banco

A pressão sobre Santiago Peña aumentou porque ele foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025.

Eleito em 2023, Peña pertence à ala conservadora da direita e integra o Partido Colorado, legenda que domina a política paraguaia há cerca de sete décadas, com exceção do período entre 2008 e 2013.

A oposição também questiona investimentos realizados pelo Instituto de Seguridade Social (IPS), entidade estatal, no banco digital. A instituição ainda administra o pagamento de pensões de milhares de aposentados e concentra cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.

Os parlamentares oposicionistas responsabilizam o presidente pela crise, principalmente pela nomeação de um ex-dirigente do Ueno para comandar o Banco Central.

No pronunciamento de renúncia, Peña pediu desculpas à população e afirmou que nunca teve a intenção de decepcionar os paraguaios.

“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”, afirmou.

Partido Colorado se afasta do presidente

A crise também provocou um racha dentro do Partido Colorado. O presidente da legenda e ex-presidente do Paraguai, Horacio Cartes, declarou que o partido não estará ao lado “do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”.

Dois dias antes, o presidente do Congresso paraguaio, Bachi Núñez, havia defendido que Peña não poderia ser responsabilizado pela crise, uma vez que o Banco Central possui autonomia institucional. Posteriormente, porém, também passou a cobrar a renúncia do mandatário.

A oposição acusa o Partido Colorado de tentar se distanciar de um escândalo que, segundo os parlamentares, teve participação de integrantes da própria legenda.

Durante a sessão da Câmara, a deputada Johanna Ortega, do Partido País Solidário (PPS), afirmou que recursos destinados aos aposentados estavam sendo depositados em uma instituição financeira próxima ao presidente.

“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio, prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.

O Paraguai possui um fundo garantidor que prevê reembolso de até US$ 38 mil por pessoa, equivalente a ₲ 228.300.000 na moeda local e a 75 salários-mínimos.

Crise ameaça confiança na economia paraguaia

Além das consequências políticas, a liquidação do Ueno Bank levanta preocupações sobre os impactos na economia do Paraguai. O episódio ameaça a imagem que o país vinha construindo como um destino emergente para investimentos estrangeiros na América do Sul.

A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou que duas em cada três transações realizadas pelas grandes redes varejistas do país passam por contas do Ueno Bank.

“Ocorrerá, sem dúvida, uma semiparalisação do mercado comercial no Paraguai. Essa situação não nos afeta apenas no âmbito comercial; ela impacta também o cotidiano das famílias, afetando, assim, a vida diária de milhões de pessoas”, afirmou a entidade em comunicado divulgado pela imprensa local.

A agência de classificação de risco Moody’s também apontou preocupação com a capacidade das autoridades paraguaias de administrar a situação de uma instituição financeira de grande porte.

Segundo informações da Bloomberg Línea, com base em uma avaliação da Moody’s, um dos principais riscos envolve os depósitos que ultrapassam o limite de cobertura do seguro. Embora o Banco Central tenha indicado que 97% dos depositantes estariam totalmente protegidos, apenas 30% do volume total de depósitos do Ueno estava dentro dos limites da garantia.

Crise repercute no debate político brasileiro

O episódio também repercute no Brasil, onde grupos políticos frequentemente apontam o Paraguai como exemplo de sucesso econômico e financeiro.

O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), relaciona parte dessa admiração aos interesses do agronegócio brasileiro no país vizinho.

“A direita brasileira acha que é um paraíso porque já estão com os contatos políticos estabelecidos lá. Tem até agências do Banco do Brasil, e se fala em português em escolas públicas, contrariando a lei paraguaia. É como um terreno ocupado pelo agronegócio brasileiro”, afirmou o pesquisador.

Com informações da Agência Brasil e imagem Pixabay

Os comentários a seguir não representam a opinião do Portal Total News

Deixe um comentário