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Anistia Internacional levará caso à ONU e à CIDH após ataques do presidente argentino a profissionais da imprensa; levantamento aponta 278 episódios contra jornalistas em 2025

A Anistia Internacional anunciou que vai denunciar o presidente da Argentina, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por ataques a jornalistas. Na última semana, o mandatário insultou profissionais que publicaram reportagens investigativas sobre ele e afirmou que deveriam “queimar na fogueira”.

A organização não governamental, que atua na defesa dos direitos humanos em mais de 150 países, considera que as declarações ampliam a hostilidade contra a imprensa e colocam em risco a segurança de quem trabalha com informação.

Os ataques ocorreram após a Justiça argentina arquivar, na sexta-feira (23), o caso conhecido como “criptogate”. A investigação, iniciada em fevereiro de 2025, apurava suspeitas de envolvimento de Milei e de outras pessoas, entre elas a irmã do presidente, Karina Milei, em possíveis irregularidades relacionadas à criação da criptomoeda $Libra.

Na ocasião, Milei havia utilizado as próprias redes sociais para promover o ativo virtual. O juiz federal Marcelo Martínez De Giorgi, porém, concluiu que não houve delitos.

Milei cita jornalistas e faz ameaças

Durante um discurso, Milei mencionou nominalmente os jornalistas Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio. O presidente os desqualificou e proferiu insultos contra os profissionais.

“Empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”, disse. Em seguida, declarou que “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Na rede social X, o presidente também afirmou ter sido alvo de uma “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista”. Na publicação, classificou os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.

Para a Anistia Internacional, as declarações representam uma escalada de hostilidade contra a imprensa, prejudicam o debate democrático e podem colocar em risco os profissionais citados.

“A organização manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidade contra a imprensa e levará esses fatos às instâncias internacionais, no âmbito de seu trabalho de monitoramento e denúncia da deterioração da liberdade de expressão na Argentina”, afirma a entidade.

A ONG considera que a referência a queimar jornalistas na fogueira evoca violência extrema e representa uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”.

“Não se limita a questionar uma cobertura jornalística, mas individualizam e estigmatizam jornalistas”, pontuou.

A diretora-executiva da Anistia Internacional na Argentina, Mariela Belski, afirmou que declarações desse tipo contribuem para criar um ambiente de intimidação e podem abrir caminho para novas agressões.

“O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”, disse.

Ataques a jornalistas aumentaram em 2025

Para sustentar a denúncia de deterioração das condições de trabalho da imprensa no país, a Anistia Internacional cita dados do Monitoramento da Liberdade de Expressão do Fórum de Jornalismo Argentino.

O levantamento registrou 278 ataques contra jornalistas em 2025, um aumento de 55% em relação a 2024. O número é o maior desde o início da série histórica, em 2008.

Milei foi identificado como responsável por 119 desses episódios, o que o colocou como o principal agressor individual. O monitoramento também contabilizou 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação.

Segundo a Anistia Internacional, a repetição dessas práticas pode desestimular investigações jornalísticas, incentivar a autocensura e limitar a circulação de informações de interesse público.

“Investigar a atuação daqueles que governam é uma função essencial do jornalismo e garantia para o controle democrático do poder”, sustentou a organização.

Comissão Interamericana acompanha situação

A Anistia Internacional também relembrou a audiência realizada em novembro de 2025 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da qual participou ao lado de organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos de imprensa.

Na ocasião, foram denunciados o aumento das agressões, a violência on-line, o assédio judicial e os ataques durante a cobertura de protestos, em um contexto de expansão de práticas autoritárias.

A CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar uma visita ao país.

A comissão é um órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA) responsável pela promoção e proteção dos direitos humanos nas Américas. Entre suas atribuições está o acompanhamento do cumprimento da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica.

A jornalista Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, informou que a entidade também se juntará à Anistia Internacional na representação.

A Federação Internacional dos Jornalistas (FIP) igualmente repudiou as declarações de Milei. À Agência Brasil, a peruana Zuliana Lainez, presidente da entidade, afirmou que os ataques ultrapassam os limites de um confronto verbal.

“Constrói-se um clima de intimidação que põe em risco a integridade dos trabalhadores da imprensa, favorece a autocensura e busca desestimular o exercício de uma função essencial para qualquer sociedade democrática.”

Lainez acrescentou que os episódios não devem ser analisados isoladamente, mas como parte de um cenário de deterioração das condições para o exercício do jornalismo na Argentina.

“Se inserem em um cenário de crescente deterioração das condições para o exercício do jornalismo na Argentina, marcado por agressões físicas durante coberturas, assédio judicial, restrições ao acesso à informação e ataques sistemáticos por parte de diversos funcionários do próprio governo”, analisou.

Sindicato também condena declarações

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires publicou uma nota de repúdio às declarações do presidente argentino e afirmou que o mandatário “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo”.

“A incitação a ‘queimar na fogueira’ um grupo de jornalistas deve provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra nossa profissão. Não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”, publicou a entidade.

Jornalista brasileiro foi impedido de entrar no país

Os episódios de hostilidade contra profissionais da imprensa também atingiram um brasileiro. No dia 12 de outubro, o jornalista Rogério Tomaz Jr., conhecido pelas críticas ao governo Milei, foi impedido de entrar na Argentina após desembarcar no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires.

As autoridades migratórias determinaram o cancelamento da residência permanente dele e estabeleceram uma proibição de reingresso por cinco anos.

Morador de Brasília, Tomaz Jr. acompanha a política argentina e produz conteúdos sobre os impactos econômicos e sociais das medidas adotadas pelo governo Milei, incluindo cortes nos gastos públicos, privatizações e inflação. Ele também trabalha em um livro sobre a gestão do presidente argentino.

*Com informações e imagem de Agência Brasil

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