A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de suspender por duas semanas os ataques contra o Irã abriu uma janela para negociações diplomáticas no Oriente Médio. Menos de 24 horas depois, porém, o acordo já enfrenta risco de colapso diante da intensificação dos bombardeios de Israel contra o Líbano.
A trégua, anunciada nesta terça-feira (7), foi mediada pelo Paquistão e condicionada à reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas do petróleo mundial. O governo iraniano aceitou interromper seus ataques, desde que não fosse alvo de novas ações militares.
Nesta quarta-feira (8), no entanto, a escalada regional voltou a ganhar força.
Israel amplia ofensiva e pressiona acordo
As Forças de Defesa de Israel anunciaram uma das maiores operações recentes no Líbano, com ataques simultâneos a mais de 100 alvos em regiões como Beirute, Vale do Beqaa e o sul do país. Segundo autoridades libanesas, os bombardeios deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos apenas nas últimas horas.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou apoiar o cessar-fogo entre Washington e Teerã, mas indicou que o acordo não inclui o território libanês, onde Israel mantém ofensiva contra o grupo xiita Hezbollah.
A exclusão do Líbano do entendimento é vista como um dos principais pontos de tensão, já que o Irã exige que qualquer trégua envolva todas as frentes de conflito no Oriente Médio, incluindo também a Faixa de Gaza.
Irã ameaça retomar ataques
Diante dos bombardeios, autoridades iranianas passaram a sinalizar a possibilidade de abandonar o cessar-fogo. Um alto funcionário de segurança afirmou à imprensa estatal que o país pode lançar uma “ofensiva de defesa em grande escala a qualquer momento”.
O porta-voz parlamentar Ebrahim Rezaei defendeu medidas mais duras, como o fechamento do Estreito de Ormuz, o que teria impacto imediato no mercado global de energia.
Em comunicado, as Forças Armadas iranianas afirmaram que manterão controle “inteligente” sobre a passagem marítima, sem detalhar como isso seria feito.
Diplomacia sob pressão
O acordo inicial previa negociações entre Estados Unidos e Irã a partir da próxima sexta-feira (10), em Islamabad. A mediação foi articulada pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que fez um apelo público pela manutenção da trégua.
“É essencial que todas as partes exerçam moderação para que a diplomacia avance”, disse o líder paquistanês.
A escalada, porém, compromete o ambiente político necessário para o diálogo. Analistas avaliam que a continuidade dos ataques israelenses pode inviabilizar qualquer avanço nas negociações.
Crise humanitária se agrava
No Líbano, os efeitos da guerra se intensificam. Desde o início da atual fase do conflito, em março, mais de 1,5 mil pessoas morreram e cerca de 4,8 mil ficaram feridas, segundo o Ministério da Saúde local. Mais de 1 milhão de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas.
Hospitais e unidades de saúde também foram atingidos. Autoridades libanesas relatam dezenas de profissionais mortos e danos significativos à infraestrutura médica.
O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, acusou Israel de ignorar normas internacionais e atacar áreas densamente povoadas.
Trégua frágil e risco de escalada
A suspensão dos ataques entre EUA e Irã havia reduzido temporariamente o risco de um conflito direto entre as duas potências. No entanto, a multiplicidade de atores envolvidos, incluindo Israel e o Hezbollah, torna o cenário altamente volátil.
Horas antes de anunciar a trégua, Trump chegou a ameaçar “acabar com uma civilização inteira”, caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz, declaração que gerou críticas e questionamentos sobre possíveis violações do direito internacional.
Convenções como as Convenções de Genebra proíbem ataques deliberados contra civis e estabelecem limites para ações militares.
Agora, com novos bombardeios em curso e pressões cruzadas entre aliados e rivais, o cessar-fogo de duas semanas se mantém sob incerteza e o Oriente Médio, novamente, à beira de uma escalada mais ampla.




















