Às vésperas da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15/CMS), que será realizada em Campo Grande entre 23 e 29 de março, pesquisadores destacam o papel estratégico da capital sul-mato-grossense para a conservação da biodiversidade. Levantamentos indicam que a cidade abriga cerca de 400 espécies de aves nas áreas urbana e periurbana, sendo aproximadamente 20% delas migratórias.
Reconhecida pela presença de parques, áreas verdes, cursos d’água e vegetação distribuída por diferentes bairros, a capital é considerada um importante refúgio para a fauna. Essas características permitem que diversas espécies de aves encontrem locais para descanso, alimentação e, em alguns casos, reprodução durante longas rotas migratórias.
A pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites, do Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, afirma que a diversidade de aves registradas na cidade é significativa.
“Campo Grande tem aproximadamente 400 espécies de aves somente na área urbana e periurbana e podemos afirmar que cerca de 20% delas são migratórias”.
Segundo a pesquisadora, a migração faz parte de um fenômeno natural que ocorre em diferentes regiões do planeta e envolve deslocamentos periódicos de populações de animais.
“A migração é um fenômeno natural e biológico que dirige o movimento populacional, periódico e cíclico de várias espécies animais ao redor mundo. Esse movimento ocorre entre áreas geograficamente separadas, isto é, entre uma área reprodutiva e uma área não reprodutiva, envolvendo a maioria ou a totalidade de uma população (número de indivíduos de uma espécie), e que resulta em uma ausência temporária e previsível no local de origem”.
De acordo com Maristela, diferentes espécies passam pela capital ao longo de todo o ano, seguindo ciclos naturais em busca de alimento, clima favorável ou áreas de reprodução. Embora seja possível observar aves migratórias em praticamente todos os meses, algumas aparecem com maior frequência em períodos específicos.
Entre elas estão as chamadas migrantes neárticas, que deixam a América do Norte para fugir do inverno do hemisfério norte e costumam ser vistas na cidade entre agosto e abril. Nesse grupo estão espécies como maçaricos, o sovi-do-norte, a águia-pescadora e o falcão-peregrino, considerado o animal mais rápido do planeta, capaz de atingir cerca de 300 km/h.
Há também as migrantes austrais, que realizam deslocamentos dentro da própria América do Sul em busca de temperaturas mais amenas. Essas espécies costumam aparecer na região entre abril e novembro, como é o caso do príncipe e da calhandra-de-três-rabos.
Outro grupo é formado por aves que se reproduzem em regiões do sul e sudeste do Brasil e posteriormente seguem para o norte do continente, muitas vezes em direção à Amazônia. Entre elas estão espécies como a tesourinha, o bem-te-vi-rajado e o suiriri, observadas na cidade principalmente entre o final de julho e março ou abril.
Segundo Maristela, esses deslocamentos seguem ciclos naturais e se repetem anualmente, já que muitas aves guardam memória dos locais onde encontram alimento e abrigo durante as jornadas migratórias.
“Compreender o movimento das espécies migratórias é um bom exercício para entender que para a natureza não há fronteiras políticas, mas as limitações se dão no campo das condições e recursos para a sobrevivência e qualidade de vida”.
Para especialistas, a preservação de áreas verdes e de fontes de água é fundamental para que essas espécies continuem encontrando na cidade condições adequadas durante as rotas migratórias.
A gerente de Arborização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico de Campo Grande (Semades), Dayane Zanela, destaca que a arborização urbana desempenha papel relevante nesse processo.
“Árvores, parques e corredores verdes oferecem abrigo, locais de repouso, suporte alimentar e condições ambientais favoráveis para essas espécies durante seus deslocamentos. Esse compromisso com o fortalecimento da infraestrutura verde urbana também contribuiu para o reconhecimento de Campo Grande como Capital do Turismo de Observação de Aves. O município vem estruturando sua política de arborização urbana com planejamento técnico, ampliação das áreas verdes e valorização de espécies nativas, integrando a conservação da biodiversidade às estratégias de planejamento urbano e de resiliência climática”.
A discussão sobre a conservação dessas espécies deve ganhar destaque durante a COP15, evento da Organização das Nações Unidas (ONU) que reunirá representantes de governos, cientistas e organizações internacionais para debater estratégias de proteção da fauna migratória.
Entre os temas previstos estão o combate à captura ilegal de animais, a criação de planos de conservação para espécies ameaçadas, a proteção de corredores ecológicos utilizados nas rotas migratórias e os impactos das mudanças climáticas e da perda de habitat sobre a fauna silvestre.
Para Maristela, sediar um encontro internacional desse porte representa uma oportunidade de projeção científica e ambiental para a cidade e para o Estado.
“É um momento histórico para o município e o estado. Primeiro porque tem a oportunidade de protagonizar discussões sobre ciência e a política ambiental regional, nacional e mundial, além de mostrar a nossa biodiversidade, nossos biomas pelo estado (Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Chaco), nossas áreas verdes, movimentar o turismo e a economia, mobilizar as escolas, valorizar o trabalho e esforços dos nossos pesquisadores e cientistas, nossas universidades e instituições de pesquisa e mobilizar a população em geral para um tema mundial e de grande importância e abrangência, sobretudo em tempos de mudanças climáticas e saúde única, onde as mudanças que ocorrem no ambiente e nos afetam diretamente, pois estamos todos conectados enquanto seres vivos que habitam um mesmo planeta e são interdependentes”.
A pesquisadora também ressalta que o evento pode aproximar a população local das discussões ambientais.
“Acaba sendo uma vitrine político-científica a COP15 colocando Campo Grande como palco das discussões globais sobre a conservação socioambiental global, permitindo que gestores, cientistas, pesquisadores, estudantes e chefes de estado de todo o mundo conheçam in loco a nossa realidade, os desafios e as nossas belezas naturais”.
Durante a programação da conferência, o Instituto Mamede participará da agenda científica do encontro, coordenando uma mesa temática sobre observação de aves e aves migratórias. A instituição também fará o lançamento do livro “Aves do Caminho da Escola”, que aborda a relação entre educação ambiental e a observação de espécies presentes no cotidiano.
Com informações e imagem da Prefeitura de Campo Grande






















