Filho mais velho de Jair Bolsonaro construiu carreira na segurança pública, chegou ao Senado e agora tenta transformar o sobrenome da família em uma candidatura presidencial competitiva
Esta reportagem faz parte da série de perfis dos candidatos que disputarão o segundo turno das eleições para a Presidência da República, marcado para o dia 25 de outubro.
Aos 45 anos, Flávio Nantes Bolsonaro chega pela primeira vez à disputa pela Presidência da República depois de mais de duas décadas de carreira política. Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador pelo Rio de Janeiro construiu sua trajetória dentro do grupo político da família, primeiro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), depois no Senado e, agora, como principal nome do bolsonarismo na corrida pelo Palácio do Planalto.
Em sua estreia em uma eleição presidencial, Flávio terminou o primeiro turno na liderança, com 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com isso, os dois voltam às urnas em 25 de outubro, em uma disputa que recoloca frente a frente os dois principais polos da política brasileira dos últimos anos.
A ascensão de Flávio, porém, não começou em Brasília. Sua carreira política teve início quando ele ainda tinha 21 anos, no Rio de Janeiro, e passou por quatro mandatos consecutivos como deputado estadual. Segurança pública, defesa das forças policiais e pautas conservadoras acompanharam sua atuação desde os primeiros anos.
Filho de Bolsonaro, político antes de chegar ao Planalto
Nascido em Resende (RJ), em 30 de abril de 1981, Flávio é o filho mais velho de Jair Bolsonaro. Formado em Direito pela Universidade Candido Mendes, entrou na política em 2002, quando foi eleito deputado estadual no Rio de Janeiro.
Aos 21 anos, iniciou uma trajetória que se estenderia por 16 anos na Alerj. Foi reeleito em 2006, 2010 e 2014, permanecendo na Assembleia até a eleição para o Senado, em 2018.
A segurança pública se tornou uma das principais marcas de sua atuação. Levantamento citado pela Folha aponta que 145 dos 214 discursos analisados de Flávio na Alerj tratavam do tema.
O perfil ajudou a consolidar a imagem de Flávio dentro do eleitorado conservador fluminense, ao mesmo tempo em que o aproximou cada vez mais da carreira política do pai.
Da Alerj para o Senado
Antes de chegar ao Congresso Nacional, Flávio tentou disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 2016, pelo PSC, terminou a eleição em quarto lugar, com cerca de 424 mil votos.
Dois anos depois, voltou às urnas em uma eleição que mudaria sua carreira.
Em 2018, durante a ascensão nacional de Jair Bolsonaro, Flávio foi eleito senador pelo Rio de Janeiro pelo então PSL. Recebeu cerca de 4,38 milhões de votos, uma das maiores votações daquele pleito no estado.
Tomou posse em fevereiro de 2019 e passou a ocupar uma posição estratégica no Congresso durante o governo do pai.
No Senado, manteve a segurança pública como principal bandeira. Também ganhou protagonismo na articulação política do governo Bolsonaro e, em 2025, passou a presidir a Comissão de Segurança Pública da Casa. Entre suas atuações de maior destaque está a relatoria do projeto que resultou na Lei 14.843/2024, que restringiu as saídas temporárias de presos.
O político que virou interlocutor do governo Bolsonaro
Durante a Presidência do pai, Flávio ocupou um espaço que ultrapassava as funções de senador.
Ele se tornou um dos principais interlocutores de Jair Bolsonaro no Congresso e participou de negociações políticas em torno de projetos de interesse do governo.
A proximidade fez com que seu nome fosse frequentemente citado como um dos integrantes do núcleo político mais próximo do então presidente.
Ao mesmo tempo, sua trajetória passou a ser acompanhada por uma série de controvérsias que acabariam se tornando parte importante de seu perfil público.
O caso das rachadinhas
O episódio mais conhecido ocorreu ainda durante sua passagem pela Alerj.
Em 2018, um relatório do então Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações consideradas atípicas envolvendo Fabrício Queiroz, que havia trabalhado no gabinete de Flávio.
A partir daí, o Ministério Público do Rio de Janeiro investigou a suspeita de que funcionários do gabinete devolvessem parte dos salários ao parlamentar, prática conhecida como “rachadinha”.
Flávio negou as acusações.
O Ministério Público chegou a denunciá-lo por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O caso, entretanto, não resultou em condenação.
Decisões do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal anularam provas utilizadas na investigação. Em 2022, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia, encerrando aquele processo.
O episódio continua associado à trajetória política de Flávio, mas o desfecho judicial precisa ser considerado: ele foi investigado e denunciado, mas não foi condenado no caso das rachadinhas.
As homenagens a Adriano da Nóbrega
Outra controvérsia envolve o ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega.
Quando ainda era deputado estadual, Flávio apresentou uma moção de louvor ao policial e também foi autor da proposta que concedeu a ele a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Alerj.
Anos depois, Adriano passou a ser apontado pelo Ministério Público como integrante de uma milícia do Rio de Janeiro. Ele morreu em 2020, durante uma operação policial na Bahia.
A relação entre os dois passou a ser alvo de questionamentos, principalmente porque familiares de Adriano também trabalharam no gabinete de Flávio.
O caso se tornou uma das principais fragilidades políticas do senador quando sua atuação parlamentar passou a ser analisada para além das pautas de segurança.
O patrimônio e a casa de R$ 6,2 milhões
Outro aspecto que ganhou espaço durante a campanha presidencial foi a evolução do patrimônio declarado por Flávio.
Segundo dados registrados na Justiça Eleitoral, ele declarou:
- 2014: R$ 714,3 mil
- 2016: R$ 1,45 milhão
- 2018: R$ 1,74 milhão
- 2026: R$ 8,18 milhões
A declaração deste ano representa um patrimônio nominal quase cinco vezes superior ao informado quando foi eleito senador, em 2018.
O principal bem declarado em 2026 é uma casa no Lago Sul, em Brasília, avaliada em R$ 6,2 milhões.
A campanha afirma que o imóvel foi quitado com recursos provenientes do salário de senador e da atividade profissional de Flávio, além da renda da esposa, que possui consultório odontológico.
A evolução patrimonial foi explorada politicamente durante a campanha, mas os valores declarados constam oficialmente no registro eleitoral.
O nome escolhido por Jair Bolsonaro
A candidatura presidencial de Flávio nasceu diretamente da situação política do pai.
Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral e posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo relacionado à tentativa de golpe de Estado. Com o impedimento de Jair, o grupo bolsonarista precisava escolher quem carregaria o projeto político da família na eleição de 2026.
A escolha recaiu sobre o filho mais velho.
Flávio foi oficializado pelo PL em julho como candidato à Presidência, tendo o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. O registro da chapa foi aprovado pelo TSE em setembro.
A candidatura passou, assim, a ter uma característica particular: Flávio não precisava construir do zero uma identidade nacional. Ele já chegava à disputa carregando o sobrenome que havia dominado a política brasileira desde 2018.
Um bolsonarismo com outra embalagem
Embora mantenha as principais bandeiras do pai, Flávio tentou construir uma campanha com maior ênfase em propostas de governo.
A segurança continua sendo um dos pilares, mas o programa também dedica espaço significativo à economia, saúde, educação, meio ambiente e funcionamento das instituições.
No plano de governo apresentado ao TSE, Flávio propõe reduzir o número de ministérios, cortar despesas administrativas, retomar privatizações e diminuir a carga tributária. A meta apresentada é alcançar crescimento econômico médio de 4% ao ano, com maior participação do investimento privado.
Na segurança, o programa prevê medidas mais duras contra organizações criminosas, incluindo a classificação de facções como PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, redução da maioridade penal para 16 anos, construção de novos presídios e aumento dos investimentos federais na área.
Também estão entre as propostas a castração química para condenados por crimes sexuais e o monitoramento eletrônico de agressores de mulheres.
Economia, educação e saúde
Na economia, Flávio apresenta um discurso de redução de gastos públicos, desburocratização e estímulo à iniciativa privada.
Na educação, defende o método fônico na alfabetização, expansão do ensino técnico e escolas cívico-militares, além de mecanismos de voucher para situações em que a rede pública não consiga oferecer vagas.
Na saúde, propõe reajuste da tabela do SUS, ampliação da telessaúde, atendimento domiciliar e utilização da rede privada em horários ociosos.
O programa também prevê maior utilização de inteligência artificial para prevenção e gestão de serviços públicos.
A disputa com o STF
A relação com o Supremo Tribunal Federal é outro ponto central da candidatura.
Flávio defende mudanças nas regras de funcionamento da Corte, incluindo restrições às decisões monocráticas e alterações nas competências do STF em processos envolvendo parlamentares.
Também propõe mudanças na indicação de ministros e defende o fim da reeleição para presidente da República.
A agenda reforça uma das principais bandeiras políticas do bolsonarismo: a crítica ao poder exercido pelo STF nos últimos anos.
O caso Dark Horse
Durante a campanha, uma nova investigação trouxe outro elemento de desgaste para o candidato.
Flávio passou a ser investigado pela Polícia Federal no caso envolvendo o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro que teria recebido recursos do empresário e banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Segundo documentos tornados públicos, aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido repassados para a produção. A investigação apura se houve irregularidades nos pagamentos e se os recursos foram utilizados e declarados corretamente.
O caso envolve suspeitas investigadas pela PF, incluindo possíveis crimes financeiros. Não há condenação de Flávio nesse episódio, e a defesa sustenta que os recursos estavam relacionados ao financiamento privado do filme.
A investigação ganhou peso justamente porque ocorreu durante a campanha presidencial e colocou novamente questões envolvendo dinheiro e relações empresariais no centro da disputa.
Emendas e novas suspeitas
Outro episódio que atingiu a campanha envolve emendas parlamentares e pessoas investigadas pela Polícia Federal.
Reportagens apontaram negociações envolvendo uma assessora de Flávio e recursos destinados a organizações no Rio de Janeiro. A defesa afirma que os repasses seguiram os procedimentos legais e que a execução dos recursos não dependia diretamente do senador.
Assim como no caso Dark Horse, trata-se de investigação e suspeita, não de condenação.
O resultado que levou Flávio ao segundo turno
Apesar das controvérsias, a candidatura conseguiu mobilizar a base bolsonarista e terminou o primeiro turno à frente de Lula.
Com 47,04% dos votos válidos, Flávio ficou aproximadamente dois pontos percentuais à frente do atual presidente.
Flávio foi o mais votado em 16 das 27 capitais brasileiras, enquanto Lula liderou em 11. No Centro-Oeste, o candidato do PL venceu em todas as capitais e no Distrito Federal.
O resultado transformou o segundo turno em uma disputa direta entre o principal herdeiro do bolsonarismo e o principal nome da esquerda brasileira.
Foto: Agência Brasil

















