Enquanto o Brasil entrou e saiu dos dias de folia, o mundo da ciência e tecnologia não tirou férias. Ao contrário do ditado popular de que “no Brasil tudo só começa depois do carnaval”, as primeiras semanas de 2026 provam que a inovação não respeita calendário festivo – e nem deveria.
De Pequim a Brasília, de laboratórios universitários a agências espaciais, janeiro e fevereiro deste ano registraram avanços que podem redefinir desde como tratamos doenças até como competimos na corrida tecnológica global. E o Brasil, diferentemente de outros tempos, não está apenas assistindo de camarote.
O Brasil que investe em futuro
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação lançou em fevereiro o programa “Finep pelo Brasil”, uma iniciativa que vai percorrer 100 cidades até abril levando 13 editais que somam impressionantes R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis. Não é pouco. É o tipo de investimento que sinaliza uma mudança de postura: ciência e inovação como pilares estratégicos, não como luxo para tempos de bonança.
Só para a Base Industrial de Defesa, foram destinados R$ 300 milhões. Na média, o país executou R$ 10 bilhões anuais em investimentos científicos entre 2023 e 2025, reposicionando a ciência como eixo do desenvolvimento nacional. São números que merecem atenção, especialmente em Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio de ponta e a biodiversidade do Pantanal clamam por mais pesquisa e inovação aplicada.
Além disso, a parceria com o Uruguai, formalizada em janeiro com a criação do Centro Brasil-Uruguai de Pesquisa e Inovação em Ciências da Vida, abre portas para colaborações em biotecnologia e saúde que podem beneficiar toda a região Centro-Oeste.
A corrida global da inteligência artificial acelera
Se há um campo onde não existe pausa para descanso, é a inteligência artificial. A chinesa DeepSeek começou 2026 apresentando métodos para tornar o treinamento de modelos de IA mais eficiente e econômico, um avanço que pode democratizar o acesso a essas tecnologias. Mas a competição esquentou: em fevereiro, a OpenAI acusou a DeepSeek de práticas inadequadas no desenvolvimento de novos modelos, evidenciando as tensões geopolíticas que permeiam a tecnologia.
Não ficou só nisso. A empresa chinesa Zhipu lançou seu modelo GLM-5, superando rivais e alcançando o topo entre os modelos open-source. A mensagem é clara: a liderança em IA não está garantida para ninguém, e a competição nunca tira folga.
Para o Brasil e para Mato Grosso do Sul, isso significa uma oportunidade e um alerta. A oportunidade de aplicar essas tecnologias em setores onde somos fortes: agropecuária, bioeconomia, logística. O alerta de que sem investimento contínuo em formação de talentos e infraestrutura tecnológica, ficaremos apenas como consumidores, nunca como protagonistas.
Descobertas que mudam a medicina e a vida
Enquanto isso, nos laboratórios pelo mundo, cientistas fizeram descobertas que podem parecer distantes, mas têm impacto direto na vida das pessoas. Neurocientistas da Northwestern University demonstraram que é possível direcionar sonhos, potencialmente aumentando a criatividade, magine as aplicações educacionais e terapêuticas.
Uma ampla revisão de 23 estudos trouxe alívio para milhões: estatinas, medicamentos amplamente prescritos, não causam a maioria dos efeitos colaterais listados em suas bulas. A descoberta pode aumentar a adesão ao tratamento e salvar vidas.
Pesquisadores identificaram um grupo misterioso de bactérias intestinais, o CAG-170, encontrado em níveis mais baixos em pessoas com doenças crônicas. Entender esse microbioma pode revolucionar o tratamento de condições que afetam milhões de brasileiros.
Ganhou também destaque o trabalho da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, que desenvolveu ao longo de 25 anos uma pesquisa que pode transformar o tratamento de lesões medulares. O trabalho baseia-se no estudo da laminina, proteína extraída da placenta capaz de modular o comportamento das células e a organização tecidual durante o desenvolvimento e a regeneração do sistema nervoso.
E no Reino Unido, testes de um exame de sangue capaz de detectar até 50 tipos de câncer antes dos sintomas devem começar ainda este ano. Tecnologias CRISPR para doenças genéticas raras também avançam para ensaios clínicos. São avanços que, em poucos anos, podem chegar aos hospitais de Campo Grande e transformar a medicina preventiva.
O espaço não espera
Para quem olha além da Terra, 2026 promete. A NASA prepara a missão Artemis II, que levará quatro astronautas em um voo de dez dias ao redor da Lua. A China, por sua vez, inicia expedições com o navio de perfuração Meng Xiang, capaz de perfurar até 11 quilômetros de profundidade no oceano – uma fronteira tão inexplorada quanto o espaço sideral.
Astrônomos também observaram algo raro: uma estrela massiva colapsando diretamente em um buraco negro sem explodir em supernova, a 2,5 milhões de anos-luz de distância. São descobertas que alimentam nossa curiosidade e expandem os limites do conhecimento humano.
A lição do início de 2026
Se há uma lição a tirar desses primeiros meses do ano, é que inovação não respeita feriados prolongados nem espera o “depois do carnaval”. O mundo continua girando, descobertas continuam sendo feitas, investimentos continuam sendo anunciados. Países e empresas que entendem isso saem na frente.
Para o Brasil e particularmente para Mato Grosso do Sul, estado com vocação para o agronegócio tecnológico e potencial ainda inexplorado em bioeconomia, a mensagem é clara: precisamos de uma cultura de inovação contínua, não sazonal. Os R$ 3,3 bilhões da Finep são um bom começo, mas é preciso que empresas, universidades e governos locais abracem a inovação como estratégia permanente.
Porque enquanto sambamos, e devemos sambar, é nossa cultura e alegria, em algum lugar um cientista está fazendo uma descoberta, um engenheiro está desenvolvendo uma solução, uma startup está criando o próximo aplicativo que vai mudar o mundo. E se queremos ser parte dessa história, não podemos adiar o futuro.
A inovação, felizmente, não espera a Quarta-feira de Cinzas para começar. E nós também não deveríamos.















