Não podemos ignorar que os séculos XX e XXI marcam um período de profundas transformações na sociedade contemporânea como: guerras, a globalização, aceleração industrial, invenções, conquistas sociais, a revolução digital, etc. A sociedade global tem passado por uma reconfiguração, principalmente no presente século.
Diante disso, a família como base da sociedade tem vivenciado transformações profundas. Podemos afirmar que a família contemporânea é um verdadeiro mosaico. Aquela família tradicional, patriarcal tem se mesclado a outros tipos de composição familiar como: famílias homoafetivas, mães solos, pais solos, famílias com filhos de outros casamentos/relacionamentos, avós criando os netos, etc.
Todas essas transformações têm refletido na educação, na escola e aqui desejo tratar especificamente da educação brasileira.
É evidente que a escola nunca foi uma instituição isolada. Ela reflete de forma direta, os princípios, valores e dinâmica da sociedade. Quando a sociedade muda, inevitavelmente a escola muda. O que precisamos estar atentos é em que direção essas mudanças estão nos levando.
Durante grande parte do século XX, a instituição escolar ocupou um lugar de forte legitimidade social. A escola era reconhecida como um lugar a ser levado a sério e estudar era responsabilidade do aluno. O ambiente escolar era demarcado por regras muito claras, o desrespeito, principalmente à autoridade do professor, era algo inaceitável. Se algum problema existia, a família se prontificava a apoiar a escola, reforçando a importância da disciplina, do esforço e da dedicação aos estudos.
Em poucas décadas o cenário educacional brasileiro parece ter se transformado de forma significativa. As regras, os limites, o respeito, parecem não fazer mais sentido. A autoridade do professor no ambiente escolar e, principalmente na sala de aula foi confiscada. As famílias e os alunos internalizaram uma compreensão equivocada dessa autoridade, confundindo com autoritarismo.
O que se percebe é que com o avanço e a grande utilização das novas tecnologias por parte das famílias/filhos, houve a intensificação da cultura do imediatismo e a valorização crescente da autonomia individual provocando assim, mudanças na forma como as relações de autoridade são percebidas.
Algumas perguntas precisam ser feitas com honestidade intelectual, tais como: pode existir educação de qualidade quando o professor perde progressivamente sua autoridade pedagógica? Será possível formar estudantes consistentes sem disciplina intelectual? É possível aprender com qualidade sem esforço e concentração?
Refletir sobre essas questões não significa idealizar o passado ou ignorar os avanços educacionais em nosso país nas últimas décadas. Significa que necessitamos buscar uma compreensão sobre como as transformações culturais e sociais impactam princípios e valores fundamentais que sustentam o processo de aprendizagem.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu nos faz compreender essa dinâmica ao afirmar que a escola é também um espaço de reprodução e transmissão de valores culturais. Para o autor, a educação seja ela familiar ou escolar opera por meio de disposições internalizadas ao longo de nossas trajetórias de vida – é o que ele denominou de habitus. Portanto, o respeito, a disciplina, o limite, a organização, o foco que são valores essenciais à boa convivência e aprendizagem, são disposições/habitus que internalizamos no nosso meio familiar e, posteriormente ampliamos essa internalização no meio escolar e em outros grupos dos quais venhamos a fazer parte.
A reflexão a que proponho não é nostálgica, porém propositiva. O maior desafio contemporâneo é recuperar valores e princípios essenciais para uma educação, realmente, de qualidade sem retroceder e sem ignorar as transformações de nossa sociedade, especificamente o Brasil. Entre esses valores destaco alguns, como: respeito à autoridade pedagógica, valorização social do professor, parceria real e efetiva entre família e escola, cultura do esforço e da disciplina e o reconhecimento de que aprender exige dedicação.
Outro aspecto fundamental é a mudança da dinâmica familiar em relação a escola. Antes se percebia uma aliança clara embora simbólica entre família e escola, na atualidade, observamos uma relação mais tensionada. Em vez de complementar a ação pedagógica, muitas famílias têm transferido integralmente à escola a responsabilidade pela formação dos filhos ou, em determinadas situações, a questionar imediatamente a atuação docente.
Com certeza, precisamos reconciliar inovação com princípios e valores fundamentais que sempre sustentaram o ato de aprender. Que jamais nos esqueçamos como educadores, famílias e gestores públicos que a educação de qualidade nunca prescindiu de respeito, responsabilidade e compromisso com o conhecimento.
















